“A revolução pela música”: livro conta como Pelão resgatou os ícones da MPB

“A revolução pela música”: livro conta como Pelão resgatou os ícones da MPB

Chega de baixo astral, vamos mudar de assunto! Esta vida também tem coisas boas e belas pra se contar, apesar de tudo.

Por esses dias de entressafra entre um ano e outro, sem sair de casa, viajei por um Brasil bonito, que me dava orgulho.

Foi graças a um presentão que ganhei: o livro “Pelão – A revolução pela música“, de Celso de Campos Jr., que conta a incrível história do meu velho amigo João Carlos Botezelli, o produtor musical que gravou os primeiros e antológicos discos individuais de Cartola, Nelson Cavaquinho, Adoniram Barbosa, Radamés Gnattali, Pixinguinha, Carlos Cachaça, Donga e Nelson Sargento, e mais uma pá de bambas da MPB.

Quem me mandou o livro foi o próprio Pelão, com uma amável dedicatória em que ele me chama de “meu sobrinho querido”, lembrança do tempo em que nos conhecemos, nas praias de Caraguatatuba, nos anos 1960.

Ele ele era o mais velho de uma turma de moleques que jogavam bola na praia e sabão em pó na fonte luminosa da cidade, inundando a praça de espuma, roubavam galinhas, nadavam pelados, filavam cerveja e cigarro dos mais velhos, escreviam versos para as meninas, e viviam sem lenço, documento nem dinheiro.

Apesar de convivermos nos botecos e nas quebradas de São Paulo há mais de meio século, eu não fazia ideia do tamanho da obra desse autodidata, que sem tocar nenhum instrumento, não saber ler partitura, não ser cantor nem compositor, construiu uma obra musical fantástica, ao resgatar ícones da MPB em produções primorosas, que ele comandava do começo ao fim, cuidando da escolha do repertório à contracapa, escolhendo os músicos a dedo e regendo o estúdio de gravação.

“Tio” Pelão, boêmio da velha guarda, hoje aposentado (ele é alguns anos mais velho do que eu), era o que hoje se chama de free-lancer, um sujeito sem patrão, sem chefe nem crachá, sem férias nem décimo terceiro, que inventava discos e oferecia suas obras-primas às gravadoras.

Tinha tudo para ser um vagabundo, desses sem eira nem beira, como quando o conheci, mas acabou sendo reconhecido como um dos nomes mais importantes no resgate da verdadeira música popular brasileira, dos mais variados gêneros, tempos e trajetórias.

Tanto fez por conta própria, com o apoio de renomadas gravadoras, que acabou sendo contratado pela TV Globo como diretor musical do “Fantástico” nos anos 80/90, quando viajou pelo país, garimpando artistas nativos que não estavam na mídia, dominada então por produções estrangeiras.

Parceiro de copo e de prosa, o compositor Aldir Blanc, recentemente falecido, escreveu sobre Pelão na contracapa do livro:

“Leio quilos de matérias em que aparece escrito que a música brasileira deve muito a Fulano e Beltrano. Não sei. Normalmente os autores de tais balancetes puxam a brasa em direção ao próprio robalo e nos sentimos não em dívida, mas em dúvida. No caso de Pelão, podem crer, nossa dívida cultural (…) é altíssima e vai durar para sempre _ porque apreço não tem preço: não há dinheiro que pague, não apenas os serviços à nossa música, mas a generosidade e o desprendimento com que foram prestados”.

Tanto é verdade, que Pelão acabou se tornando amigo íntimo de todos os seus ídolos, velhos e novos, com quem gravou.

Com ele não tinha muita conversa, como nos conta a excelente biografia/homenagem de Celso de Campos Jr., em texto leve e gostoso de ler.

“Canta e toca!”, ordenava ele, quando estava tudo pronto no estúdio. Não tinha essa história de gravar várias vezes até ficar bom. Tinha que ser de primeira, “para ficar com mais emoção”.

Só ele mesmo para conseguir os cinco parágrafos do texto de Antonio Candido, o papa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da Universidade de São Paulo, autor do clássico “Os Parceiros do Rio Bonito”, para a contracapa do primeiro disco de Adoniran Barbosa, em que se lê no final:

“Talvez João Rubinato (seu nome verdadeiro) não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos corredores de café para inventar no plano da arte a permanência da sua cidade e depois fugir, com ela e conosco, para a terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido na Cantareira”.

Pelão e mestre Candido tinham um gosto em comum: a verdadeira música caipira do interior paulista, onde o produtor nasceu, em São José do Rio Preto.

Com seu jeitão simplório e vozeirão rouco, que se impunha pelo tamanho, sempre com um cigarro ou um copo na mão, de preferência os dois, o velho amigo não se contentava com pouca porcaria: não sossegou enquanto não conseguiu autorização de Carlos Drummond de Andrade, o próprio, para gravar os poemas dele na voz de Lima Duarte, ao som do violão do consagrado instrumentista Roberto Corrêa, que depois também gravou um disco com Inezita Barroso, sob o comando de Pelão.

Ao todo, foram mais de 70 álbuns de estúdio, registros ao vivo, projetos especiais, coletâneas e discos-brindes produzidos por Pelão.

A discografia completa está no final deste livro, editado pela Garoa Livros (garoalivros.com.br), que mudou meu astral em 2021, com histórias da segunda metade do século passado.

Recomendo vivamente esse livro a quem anda desanimado, desacreditado do Brasil.

Nós já fomos um belíssimo país, acreditem, e tínhamos a melhor música do mundo.

Sem dar um tiro, Pelão fez mesmo uma revolução pela música. Leiam, ouçam e guardem a sua obra. Vale a pena.

Agora já posso desejar um Feliz Ano Novo a todos.

Valeu, meu querido “tio” Pelão.

Vida que segue.

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