Minha esperança para 2021 é só chegar vivo a 2022, mas cadê as vacinas?

Minha esperança para 2021 é só chegar vivo a 2022, mas cadê as vacinas?

1º de janeiro de 2021, três horas da tarde. Chove muito e troveja na cidade vazia.

Ao ler o noticiário em busca de assunto para a coluna, dá vontade de voltar para a cama e ficar quietinho, esperando o ano passar.

Com o passar do tempo, e tudo para mim já faz muito tempo, nossas esperanças mudam de caminho, vão e voltam ao sabor dos ventos e do correr dos anos, e nossos sonhos acabam ficando mais humildes.

No meu caso, só quero sobreviver a mais este ano para chegar logo 2022, quando poderemos, talvez, voltar a ter uma esperança de verdade.

O editorial do Estadão deste primeiro dia do ano não é nada otimista: feitas as contas, ainda faltam 17,5 mil horas para esse pesadelo acabar e termos o Brasil de volta para os brasileiros.

Pensando bem, somos todos sobreviventes, refugiados em nosso próprio país, alvo de um bando de terraplanistas alucinados, que deflagraram uma guerra de extermínio contra 212 milhões de habitantes.

Navegamos no escuro, sem sinais de terra à vista, sob o comando de um capitão cruel e sem noção, que saiu do submundo do baixo claro para se vingar da sua insignificância política e militar.

Robin Hood ao contrário, este elemento se juntou a um banqueiro para tirar dos mais pobres e garantir a boa vida dos mais ricos num país que já é campeão da desigualdade social.

Se alguém achar que o pior já passou, como mostra o Datafolha otimista desta sexta-feira, pode tirar o cavalinho da chuva.

O projeto de demolição do país ainda está pela metade do caminho e o capitão cloroquina já avisou que não haverá vacinas para todos.

A depender do empenho dele e da competência do seu general da Saúde, não teremos vacina nenhuma, nem seringas e agulhas, e a pandemia vai continuar matando mais de mil pessoas por dia, enquanto o Reino Unido já está aplicando a segunda dose da vacinação.

Não quero acreditar que esta opção preferencial pela morte tenha por objetivo combater o rombo da Previdência Social, para diminuir o número de aposentados e aumentar a renda per capita do país, reduzindo a sua população, para atrair os investimentos estrangeiros.

Quem vai querer investir num país que não consegue nem vacinar a sua população, que queima a floresta e transforma a Amazônia em pasto, não tem planos para o reinício das aulas, corta verbas da saúde pública e das pesquisas, leva uma tropa de militares e agentes da Abin para o Ministério da Saúde e coloca um contra-almirante para zelar pela vigilância sanitária?

O tempo voa e o governo desaparece nas férias de verão, que ninguém é de ferro, e cada um que se vire como puder.

Os prefeitos que assumiram hoje já cuidam de comprar vacinas por compra própria e pode-se imaginar a confusão que vai dar, sem planejamento e comando centralizado para organizar a imunização.

Os nobres tribunais superiores bem que tentaram furar a fila da vacinação, mas até agora não conseguiram.

Acho melhor voltar a dormir para não aborrecer os otimistas que estão nas praias e nas baladas como se não houvesse amanhã.

Bem que eu gostaria de escrever sobre fatos mais agradáveis nestes tempos de festas sem máscaras nem juízo, mas não consigo brigar com os fatos.

Vivemos tempos de completa anomia social e isso não costuma acabar bem.

Aí não adiantará chamar os militares porque eles já estão no poder, muito bem servidos, aliás, nas suas boquinhas com salário dobrado.

Vida que segue, não sei por quanto tempo.

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