A hora é agora: só o Congresso e o STF podem deter o autogolpe de Bolsonaro

A hora é agora: só o Congresso e o STF podem deter o autogolpe de Bolsonaro

Foto: Ronaldo Kotscho

 

Voltamos a viver dias muito semelhantes aos que antecederam o golpe cívico-militar de 1964, que afundou o país em duas década de ditadura.

Com uma grande diferença: naquela época, o objetivo era derrubar o governo do civil João Goulart e colocar os militares no poder, para “combater a subversão comunista e a corrupção”.

Para isso, movimentos civis e militares organizaram a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, por ironia liderada pelo notório governador de São Paulo, Adhemar de Barros, que era conhecido como o “rouba mas faz”.

Agora, trata-se de salvar um governo militarizado, já no poder, liderado por um ex-capitão cercado de generais, que subverte a Constituição, e convoca o povo a ir às ruas contra o Congresso e o STF.

Por isso mesmo, só vejo uma saída pacífica para evitar o novo golpe que já tem até data marcada: 15 de março.

Está nas mãos do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal deter esta tragédia anunciada.

Assim como em março de 1964, não há povo mobilizado para impedir a marcha do autogolpe, mas as instituições ainda podem evitar o pior.

Urge que o Legislativo e o Judiciário se reúnam ainda hoje para responder à ofensiva desencadeada por Bolsonaro na noite da terça-feira de Carnaval ao afrontar a democracia e o Estado de Direito.

Lideranças políticas, de FHC a Lula, já se manifestaram pelas mesmas redes sociais, logo após a divulgação do vídeo golpista, pela repórter Vera Magalhães, do Estadão.

Mas só isso não basta para se contrapor à blitzkrieg de estética nazista desfechada pelo vídeo, muito bem produzido para botar terror na população.

Em 1964, o STF e o Congresso se acoelharam e garantiram a “eleição” do marechal Castello Branco, o primeiro do ciclo de militares que só se encerrou em 1985.

E havia naquela época grandes líderes civis de oposição ao golpe, coisa que hoje não acontece, com os partidos esfacelados pela Lava Jato e o movimento sindical destroçado pela reforma trabalhista.

É nesses momentos graves da nacionalidade que podem surgir novas lideranças democráticas nos tribunais, no parlamento e na sociedade para dar um basta à escalada golpista agora escancarada.

Não era fake news o vídeo de Bolsonaro que apelou à mais debochada demagogia dos regimes fascistas.

Com o cinismo de costume, o ex-capitão voltou hoje às redes sociais para assumir a paternidade do vídeo e afirmar que se tratava apenas de um Whatsapp de “cunho pessoal” e que “qualquer ilação fora desse contexto são tentativas rasteiras de tumultuar a República”.

Como assim? O presidente da República assina uma convocação feita por movimentos de extrema direita para protestar contra os outros poderes, e ele acha que vai ficar tudo por isso mesmo?

Bolsonaro não faz qualquer menção ao vídeo de “cunho pessoal” produzido com esmero por profissionais do marketing, ao som do Hino Nacional, como se o país estivesse em guerra.

Até o momento em que comecei a escrever esta coluna, os presidentes da Câmara, do Senado e do STF ainda não haviam se manifestado, mas não pode passar desta Quarta-Feira de Cinzas uma tomada de posição conjunta, em defesa do que resta de democracia em nosso país.

O único ministro do Supremo que se manifestou até agora foi o decano Celso de Mello, que enviou texto à Folha no qual denuncia a gravidade do desafio lançado por Bolsonaro;

“O presidente da República, qualquer que ele seja, embora possa muito, não pode tudo, pois lhe é vedado, sob pena de incidir em crime de responsabilidade, transgredir a supremacia político-jurídica da Constituição e das leis da República”.

A pena prevista nesses casos é o impeachment, o afastamento do presidente da República para que seja julgado por crime de responsabilidade.

Que os demais ministros do STF e os parlamentares se guiem pelas palavras de Celso de Mello e assumam as suas próprias responsabilidades para que não se consume um novo golpe dentro do golpe, como aconteceu com o AI-5 em 1968.

Ao revelar “a face sombria de um presidente da República”, escreve o decano, “que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de Poderes, que demonstra visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo que exerce e cujo ato de inequívoca hostilidade aos demais Poderes da República traduz gesto de ominoso desapreço e de inaceitável degradação do principio democrático!!!”

Os três pontos de exclamação de Celso de Mello indicam o caminho a ser tomado, antes que os golpistas fechem o STF com um jipe, um cabo e dois soldados, como já ameaçou Eduardo Bolsonaro, que nesse momento, não por acaso, está nos Estados Unidos.

Há momentos na vida de um país que exigem a imediata tomada de posição dos responsáveis pela institucionalidade para evitar o pior.

Com a palavra, Dias Toffoli, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Eles têm que decidir agora como pretendem entrar na História, ou terão que se calar para sempre.

Está em jogo a sobrevida da nossa democracia.

Vida que segue.

 

19 thoughts on “A hora é agora: só o Congresso e o STF podem deter o autogolpe de Bolsonaro

  1. Outro recuo mas esse não cola. Mensagem de “cunho pessoal” é passar receita de bolo, perguntar pela patroa ou tirar sarro no amigo por causa do futebol. Um presidente da República enviando mensagens sobre uma manifestação contra o Congresso e o STF é algo gravíssimo. O importante é o conteúdo, não é Moro f.d.p.?? Enquanto os nazi-fascistas agem, os que se dizem democratas ficam cheios de dedos, pisando em ovos, “…a ser confirmar…”. Ora, tenham vergonha na cara e tomem atitudes.
    Não deu outra: Maia responde a Bolsonaro: ‘Criar tensão institucional não ajuda o país’. Escute, Botafogo: os nazi-fascistas agem tratorando tudo, adotam o “fato consumado” e lá vem você com mesuras? Chega de conversa mole. A única linguagem que esses vagabundos entendem é a linguagem do porrete. Pise no rabo da cachorrada, eles correrão.
    RK, você tem razão. Ou Toffoli, Maia e Alcolumbre falam – e grosso – agora ou se calem para sempre, com suas covardias gravadas em suas testas.
    Fora Boçalnaro. COM ou SEM impeachment. Seu mentor espiritual, aquele do bigodinho, lá do inferno sentado no colo do capeta envia condolências.

  2. Meu caro Kotscho,

    o Bolsonaro já recuou, instruindo seus ministros a não darem quilometragem ao vídeo e à manifestação.

    No ano passado houve um episódio igualzinho: um vídeo nitidamente golpista, um ambíguo apoio inicial e, quando a repercussão foi péssima, o recuo.

    É claro que, se baixarmos a guarda, talvez algum desses balões de ensaio se torne uma tentativa real de golpe.

    Mas, se o sujeito não for um completo idiota, esperará um momento mais apropriado, não este em que vem colhendo derrotas e vexames em todas as frentes.

    Com a perspectiva de piora da situação econômica em função do surto do novo coronavírus e a possibilidade de se ver às voltas com um presidente dos EUA democrata em 2021, esse governo que já está sendo insatisfatório e decepcionante para o povo tem tudo para entrar em parafuso.

    Se tentarem um golpe com os cenários atuais e os que se vislumbram para os próximos meses, tendem a colher um formidável tiro pela culatra.

    Um forte abraço!

    Celso Lungaretti

  3. Bolsonaro pensa que pode tudo. Pensando bem, de um certo ângulo pode: conseguiu a proeza de unir o país contra ele. Supremo, Congresso, ex-presidentes, militares, o amplo arco da mídia liberal, imprensa estrangeira, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, instituições supranacionais, o partido que foi o dele e ao qual seus filhos ainda pertencem, os governadores e até mesmo antigos aliados pouco tempo atrás ainda fiéis.
    A lista não termina aí: os PMs, conscientes da justeza das suas reivindicações por melhoria salarial e quadro de carreira, estão altamente descontentes com a imagem IMERECIDA de milicianos, retrato injusto produzido contra eles por gangues armadas e de balaclava, estimuladas pelo discurso de sedição presidencial.
    O “foda-se” do general Heleno fez disparar também o alarme das Forças Armadas, cuja insatisfação com o bolsonarismo só não é mais palpável pelo correto até aqui silêncio profissional de quem quer cumprir sem alarde suas atribuições constitucionais.
    Grave: está chegando a hora, não de um anti-Heleno desde o interior da corporação, mas de uma fala tranquilizadora que se saiba ter origem na caserna. O Brasil-como-uma-Líbia só interessa à extrema direita, violenta por natureza, desesperada por estar perdendo apoio popular e pelo enigma funesto em curso que liga Adriano com a morte de Marielle; não uma atribuição direta de culpa, mas um desenho aterrador de cumplicidades cruzadas. E nesse imbroglio todo, sem dizer uma única palavra, um ex-juiz santificado cedo demais por abrir a picada para barbárie, visível agora até mesmo para seus adoradores.

  4. O curioso é que estes dois poderes agora ameaçados,foram artífices do golpe que desaguou nesta tormenta!Não se desesperem,as elites,como sempre,se ajeitam no final.

  5. Sabias palavras do decano Celso de Melo. Bolsonaro ainda não se deu conta do valor de seu cargo e mostra-se cada vez mais despreparado e causando transtornos para a equipe de governo. Ao cargo que ocupa, não é dado o direito à estes deslizes e ele pode comprometer-se seriamente, ao ponte de sofrer uma perda do cargo.
    Por outro lado, o congresso é merecedor desta indignação popular e merece mesmo uma manifestação em seu desfavor.
    Lula, há anos atras já dizia: ” O congresso é um lugar onde tem pelo menos 300 picaretas”. e ele tinha razão no que dizia. Hoje, talvez este numero até aumentou . Algum frequentador deste blog discorda?
    Se não discorda, concorda com o que o General Heleno disse: “Não podemos aceitar ser chantageados por este congresso”
    Veja a ficha corrida do presidente da câmara, Rodrigo Maia: em todas as delações da lava jato, lá está o partido e o nome dele metido nos desvios de recursos públicos. Usando a pauta da câmara, faz todo o tipo de chantagem contra o governo, acelerando ou freando a tramitação de processos segundo sua conveniência.
    Davi Alcolumbre, um ilustre desconhecido lá do Amapá, está deslumbrado com o cargo que ocupa e produz gastos desnecessários com comitivas, seguranças, viagens , etc, etc.
    o Centrão, todos ja conhecem , principalmente a gestão Petista, que por mais de 15 anos encheu-os de grana, oficial e caixa dois e depois tomou o pé no traseiro, com a deposição da Dilma.
    Está errado Bolsonaro meter-se nesta passeata, mas está certíssimo a população insurgir-se contra estes farsantes e levar de quebra também o STF e seus patetas.
    Mais Brasil e menos Brasilia… só assim o Brtasil vai pra frente

  6. Amigo Kotscho
    Muitas vidas foram ceifadas na luta pela democracia.
    Conquistada em 1985, já começou por uma via torta, quando o José Ribamar, de sobrenome Sarney, assumiu o cargo de primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar. O titular, Tancredo Neves, morreu antes de assumir.
    Aos trancos e barrancos chegamos à constituição de 1988, quando o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, disse a famosa frase: “Eu tenho ódio e nojo à ditadura”.
    Justo o Dr. Ulysses, do PMDB, que era visto por segmentos da esquerda como um conservador.
    Nem o governo de esquerda do PT conseguiu enquadrar e punir os militares pelos crimes cometidos durante os anos de chcumbo.
    E os militares voltam a ocupar a cena política pelas mãos de um psicótico capitão, que tem como referência o maior torturador da ditadura.
    As marchadeiras de 1964 saem de cena e entram as marchadeiras ecumênicas.
    Presidentes do Senado, da Câmara, do STF não têm a robustez política do Dr. Ulysses a fim de frear a investida do capitão contra a democracia.
    Saudade do “desaparecido político”, Dr. Ulysses, o senhor diretas.

    Ulisses de Souza

  7. Caro Jornalista, embora importantes, não creio que somente declarações oficiais bastarão para deter as ações desse grupo nefasto, formado por civis e militares, que tem como um de seus objetivos implantar um governo autoritário e antidemocrático em nosso país.
    É fundamental a construção de uma ampla coalizão, formadas pelos mais variados setores políticos e sociais da nossa sociedade, em defesa da democracia e de suas instituições.

  8. E dia 16? Bolsonaro vai controlar socialmente a mídia? Assaltará as estatais e comprará deputados? Preferirá substitui-los por conselhos populares formados por PMs milicianos?

    Tenham santa paciência! Achavam que derrubar um governo que fez ou tentou coisas assim era golpe e querem retirar outro cujo “crime” é convocar o povo para pressionar legitimamente o Congresso.

    E já fizeram reportagem fake sobre envio de mensagens. Tentaram escandalizar outras sem nem sequer apresentar provas de sua autenticidade. Estão o tempo inteiro fazendo falsas acusações, inconformados pelo governo não ser corrupto e respeitar os valores da maioria da população.

    Nem deve ter tanta gente dia 15. Mas tentem, continuem tentando derrubar quem não lhes agrada. Continuem atacando, mantenham a chapa quente. E uma hora verão sim a coisa pegar fogo.

  9. Prezado Kotscho: Se parece que está claro que “A pena prevista nesses casos é o impeachment, o afastamento do presidente da República para que seja julgado por crime de responsabilidade.” – o que está faltando ou quem ou qual grupo deve detonar o pedido de impeachment?

  10. Caro jornalista como escrevi no texto censurado. Não deu liga sua esperança. O STF e o congresso não querem testar a popularidade do Mito nas ruas caso tentem iniciar qualquer coisa no congresso. O Mito continua para desespero dos sem boquinhas. Habemus mais uma censura??? Vida que segue

  11. Interessante que a Folha, fomentadora-mor da fake sobre disparos irregulares e das mensagens sem autenticidade, publica hoje um artigo (“Entenda quem são os movimentos que organizam ato endossado por Bolsonaro”) em que admite que, como qualquer um pode ver no vídeo postado pelo Bolsonaro, o protesto não pede fechamento do Congresso nem nada assim.

    Mas, então, de onde eles tiraram isso? Ah, essas posições aparecem em discussões de comentaristas nas páginas dos movimentos.

    Parece brincadeira. Mas é verdade.

  12. O inominável ficou 30 anos no congresso gritando, destilando seu ódio, dizendo que o problema era o governo, agora que está no governo, o chefe da milícia grita e convence o gado, que o problema está no congresso. Não da pra entender os fascistas

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