Brasil miliciano: todo poder às bancadas BBB (da bala, do boi e da bíblia)

Brasil miliciano: todo poder às bancadas BBB (da bala, do boi e da bíblia)

“Uma certeza se pode ter: a maluquice perversa a que o Brasil está entregue não terminará bem” (abertura da coluna de Janio de Freitas na Folha com o título “Nosso andar no escuro”).

***

Todo mundo já desconfiava disso, desde o início deste desgoverno, caro Janio, mas nada acontece para evitar o desastre.

Líder sindical de militares e policiais por 28 anos na Câmara, Jair Bolsonaro hoje nem partido tem e despreza a articulação política, mas mesmo assim controla o Congresso como quem manipula um boneco de ventríloquo.

Como isso é possível, com mais de 30 partidos no parlamento, e tantos interesses difusos?

Muito simples: depois da Lava Jato, os partidos foram substituídos pelas bancadas “temáticas” e deixaram de ter qualquer importância.

Quem manda agora no Legislativo são as bancadas suprapartidárias chamadas de BBB (da bala, do boi e da bíblia), todas elas ligadas ao bolsonarismo raiz e cevadas com cargos e emendas pelo Palácio do Planalto.

Bolsonaro apenas está colocando em prática, agora com todo o poder na mão, o que pregou como deputado do fundão do baixo clero quando ninguém o levava a sério.

É com e para essa gente que Bolsonaro governa, liberando armas e as terras dos índios na Amazônia para os bois e o garimpo, e dispensando a turma da bíblia de pagar impostos.

Em sua coluna de domingo no Globo, Bernardo Mello Franco lembra que, já em 2003, o ex-capitão pregava da tribuna uma greve geral dos policiais militares contra a reforma da Previdência.

Era o início do governo Lula.

A greve não saiu, mas Bolsonaro nunca desistiu do seu projeto de botar fogo no país a partir dos quartéis das PMs. De quem ele quer se vingar?

O grosso da mão-de-obra das milícias que se ramificaram por toda parte, não por coincidência, é formado por ex-PMs e ex-militares expulsos de suas corporações.

É isso que está por trás dos motins que explodiram no Ceará esta semana e já deixaram 88 mortos em cinco dias.

E por que no Ceará?

Nada acontece por acaso, como já escrevi esta semana.

Sergio Moro colocou como secretário nacional de Segurança Pública o general Guilherme Teófilo, que nas últimas eleições tomou uma surra de Camilo Santana, do PT, o governador reeleito do Ceará em 2018, com 80% dos votos, no primeiro turno.

Teófilo foi candidato pelo PSDB, mas logo se bandeou para Bolsonaro e arrumou uma boquinha em Brasília.

O comandante da Força Nacional, a ele subordinada, é um coronel da PM cearense.

Os líderes da rebelião são todos políticos bolsonaristas que se elegeram por diferentes partidos com os votos dos quartéis.

A bancada da bala no Congresso é coordenada por quatro senadores e 32 deputados ligados às Forças Armadas e às PMs.

Bem maiores são as bancadas do boi, formadas pelos setores mais atrasados do agronegócio, e a da bíblia, que não para de crescer, no embalo dos templos neo-pentecostais dos bispos eletrônicos espalhados por todo o país.

Só na estrada que liga Caraguatatuba a São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, dos dois lados da via, há mais templos do que farmácias e botecos, alguns pomposos, a maioria em garagens.

Brotam de um dia para outro com as mais variadas e exóticas denominações.

Bolsonaro se dizia católico, mas desde a campanha eleitoral tornou-se terrivelmente evangélico, a ponto de já ter participado de cultos em 40 templos no seu primeiro ano de governo.

Com o Congresso dominado pelas bancadas BBB e as oposições na muda, o Brasil miliciano que sequestrou as instituições agora poderá formar maioria também no STF, onde serão abertas em breve duas vagas.

O que sobrou da sociedade civil, com as centrais sindicais destroçadas pela reforma trabalhista, limita-se a divulgar notas de protesto quando Bolsonaro exagera na dose da imbecilidade e da estupidez.  E fica tudo por isso mesmo.

Viramos um acampamento de refugiados em nossa própria terra, onde impera a lei do mais forte e, como dizem os militares, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Sem contar os milicianos de carteirinha (ninguém sabe quantos), já que está tudo muito misturado, são hoje 500 mil homens nas PMs que obedecem ao comando de Brasília e se sentem fortalecidos para afrontar os governadores.

Diante desse quadro, a caminho do poder absoluto, guarnecidos por uma tropa de generais e no comando da rede bolsonarista de rádio e televisão, fica até difícil entender porque os Bolsonaros se mostram tão preocupados com os celulares do amigo miliciano morto na Bahia e as investigações sobre as rachadinhas e o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio.

Estão com medo de quê?

Escreve o sempre bem informado Janio de Freitas, veterano de outras guerras e outros carnavais:

“Aproxima-se uma situação limite. A inclusão de generais em torno de Bolsonaro tem mais a ver com a ditadura, claro, mas também com um motivo prático e imediato.: formar uma guarda pretoriana, a partir da ideia de que nenhuma instituição ou movimento público confrontaria essa representação do Exército com a tentativa de um impeachment, que também a alcançaria”.

Impeachment? Com esse Congresso dominado pelas bancadas BBB e o mercado fechado com Paulo Guedes e Trump?

E o que viria depois? O general Mourão?

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

Bonito não vai ser, com certeza, caro Janio.

Eu não esperava passar por tudo de novo, já entrando na fase de prorrogação da vida.

Faz escuro, cada vez pior, sem luzes à vista.

E vida que segue…

 

13 thoughts on “Brasil miliciano: todo poder às bancadas BBB (da bala, do boi e da bíblia)

  1. Caro Kotscho, quando o Franco Montoro foi eleito governador de São Paulo um oficial da Polícia Militar disse que a corporação respeitava o governador, mas, quanto ao comando, quem mandava mesmo na PM era o Exército.
    Vem de longe a obediência das PMs ao Partido Verde Oliva, o partido armado.
    O Brasil sempre foi um estado policialesco.
    Parece que o brasileiro tem pouco apreço pela democracia.
    Não tenho ilusões.
    Está tudo dominado e, pior, armado.
    Como diz o Belluzo, manda quem pode, obedece quem tem prejuizo.

  2. Eu sou a favor da cassação do mandato do governador “Camelin” não tem competência e nem autoridade para gestar o Estado.E nessa questão de motim de militares,ele permitiu um novo motim!.O ESTADO ESTÁ SEM GOVERNO!.Desculpe-me Kotscho,a sinceridade.

  3. Prezado Kotscho: O povo devia entrar com uma ação civil pública contra o estado que mata deliberadamente e treina a milícia para continuar com sua obra de extermínio. Ou o povo se mexe nesse sentido e arranca essa gente do poder via, por exemplo, um processo de impeachment contra esses bandidos, ou estamos fadados a sumir do mapa. “Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre.” (Eduardo Galeano).

  4. É, como todo o mundo está notando, e a midia pro Direita por último esta começando a notar, estamos numa guerra e já no segundo estagio dela.
    O outro ja disse que numa guerra os mais ativos e eficientes generais são o Erro, o Acaso e Chute.cálculo.
    O que queria dizer é que o canceroso e violento regime que nos governa pode cair por outros fatores. Inesperados fatores alternativos.
    Se o coronavirus e seu pânico derrubarem rápido a confiança dos homens do CAPITAL no nosso ocidente… as consequências politicas no nosso pais cairão sobre nós logo depois. ( ‘depois’ é precisamente o adágio do conselheiro Acácio). O capital é arisco, curto prazista e burro na sua essência. Nao haverá Bovinespa, num sabe? nem posto Ipiranga pra dar jeito.

  5. Exatamente, Nicola, argumento irrespondivel sobre as guardas pretorianas: e se sopra lá, sopra cá.
    Bom, aceito as criticas que vierem mas arrisco dizer que gostei da resposta do encarregado chines de imprensa quando o washington Post reclamou da expulsao da China de tres periodistas do Wapo. Disseram que os tres não eram responsáveis pela manchete insultuosa do pasquim americano ou os preconceitos dela. (Não eram mesmo.)
    Mas o chines devolveu: Que saibamos só existe um único Washington Post no mundo.Depois nao estamos interessados na divisão do trabalho no jornal.
    Isso pelo motivo que tambem acho que filigranas são o melhor esconderijo da hipocrisia.

  6. A resposta era sempre essa: deslumbramento simpático da carioca, que no máximo vai do Sujinho ao Conjunto Nacional, do coração da Augusta ao MASP . E como não dar razão? Sempre amáveis, petistas e pessedebistas paulistas tinham motivos de sobra, cada um deles, para descartar o diagnóstico com pinta de idealização, com cara de juízo apressado de turista-não-tão-turista encantada com a superfície: “vocês esquecem que têm aí uma civilização petista-tucana, fernandista-lulista”. Ainda não havia Bolsonaro, “nossa pior tradução” como brasileiras e brasileiros, então cada petista era um anti-tucano em tempo integral, cada pessedebista fugia como o diabo da cruz de uma identificação com o chamado lulo-petismo. Éramos designadas como o inocente outro-lado-da-Dutra (descrição imprecisa e que nos parecia justa), uma vez por mês em São Paulo, em trabalho cooperativo, não remunerado, mas altamente compensador.
    Lembro disso com carinho nesta hora amarga do país: sem medo do lugar comum, Consolação, Paulista e Augusta pareciam se fundir em uma única geografia político-existencial (voltar de Berlim e passar três dias de transição em Sampa não era apenas adaptação climática), da mesma forma que se imaginava andar-e-deslizar nas muitas esquinas comuns do PT e PSDB. Ilusão de ótica retrospectiva? Talvez, quem poderia negar a espinha curvada da civilização? Imagem forte: o fascismo amarelo preenchendo, anos depois, cada metro quadrado da Paulista. Se bem que aqui a coisa nunca foi melhor: falanges neo-franquistas nas imediações do Copacabana Palace.
    Seja como for, o quadro recente não tem, em princípio, aparência de convergência civilizatória : multidões de amarelo celebrando o híbrido de terra fria, Rudolph Giuliani com Imre Christi, o cavaleiro vingador anti-moderno das Araucárias, cultivado na nossa impagável Embrapa jurídica, uma caricatura da extraordinária instituição de pesquisa. A cruzada religiosa-penal, enxerto que nem o integralismo sonhou, foi dar no ministério da justiça fascista.
    Mas o mundo dá voltas! Os democratas americanos estão saindo do estado de choque, após a inviabilização no Senado do processo do impeachment do Trump; a chance de vitória em Novembro de qualquer um dos cinco candidatos remanescentes é bem palpável. Trump é mais popular do que jamais foi com a sua claque nutrida com os piores métodos pela Fox, mas perdeu apoio dentro da imensa máquina pública americana.
    Faço todo esse percurso acidentado para lembrar algo simples: se levaria anos para editar as obras completas de Bolsonaro, trabalho de profissional de fôlego, talvez baste uma única coletânea das suas barbaridades para suscitar uma frente civilizatória viável, constelação muito parecida com aquela que eu, insegura e sem nenhuma confiança no taco, pressentia corretamente estar por trás das formas de vida compartilhadas de vocês paulistanos. Perdemos o tesouro que tínhamos em comum, entre outros motivos, por acreditar que éramos, uns dos outros, a diferença absoluta. Terá sido isso para sempre? Não

  7. Amigo Kotscho

    Acho que já houve intervenção federal no Ceará.

    O JH da Globo ofereceu, hoje, às Forças Armadas e Sérgio Moro, duas generosas reportagens para explicar a situação belicosa naquele aprazível estado.

    A emissora, até então capaz de dar alguma alfinetada no capitão, desta vez postou o seu lado girassol sob nuvens carregadas.

    A primeira reunião era um verde-amarelo só, com dois engravatados no meio; ministro da Justiça e um representante da Advocacia-Geral da União. O entrevistado foi um general que comanda a força-tarefa federal.

    Na segunda oportunidade, a TV filmou a reunião dos militares e os dois civis do Planalto com o governador Camilo Santana (PT). Novamente, o editor escolheu as imagens que focavam Moro e seus militares, ignorando o governador anfitrião. As entrevistas foram com Moro e o Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

    É só imaginar a cobertura dos outros canais, sempre ao lado do capitão.

    O certo é que bala tá comendo solta por lá. Mesmo com a presença dos soldados do Exército os assassinatos sobem assustadoramente a cada dia. A impressão que se tem é que há um serial killer neofacista ordenando essas execuções de civis apenas para dar baixa nos RGs.

    O desfile da Mangueira até nos deixou animados. Mas a danada da Damares, que é pastora evangélica, foi à CNBB no último dia 19 propor parcerias sociais com a igreja católica.

    E hoje discursou na ONU, em Genebra.

    Otimista, achei que ela levaria o Jesus da goiabeira pra lá e nós, democratas, ficaríamos com o Jesus da mangueira.

    Por isso, estou pior que gato escaldado, aquele que tem medo de água fria. Já experimentei a escaldadura de um regime militar.

    Como quem pode manda, e quem não pode deve ter juízo, acabei de ligar o FODA-SE neste carnaval.

    Sem tomar uma cerveja há nove meses por causa de uma leve esteatose hepática, voltei a tomar aquela geladinha e falar abobrinhas nos bons botecos que frequentava.

    Vamos todos ligar o foda-se, não importa por qual motivo.

    Ulisses de Souza

  8. Em torno do descalabro instaurado na segurança pública do Ceará duas coisas me impressionam:
    1) o fato de os críticos da atitude de Cid Gomes não se lembrarem que a situação reinante no quartel da PM de Fortaleza era de “flagrante delito”. Nos termos da lei processual penal, quando há flagrante delito as autoridades devem “preder” e, sendo estas omissas, qualquer do povo pode fazê-lo (art. 301 do CPP);
    2) que nenhuma autoridade tenha intervindo para por fim à insurreição em que pese estarmos diante de um “grave comprometimento da ordem pública” (art. 34 III CF).
    Até se compreende que o governo estadual tenha se abstido de adotar uma medida de força. Afinal, a própria “força pública” estava rebelada. Mas e a União? Esperar o que? Por um pedido formal de GLO por parte do Estado?
    Muito estranho

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