É Carnaval: policiais saem fantasiados de milicianos e levam terror ao Ceará

É Carnaval: policiais saem fantasiados de milicianos e levam terror ao Ceará

“O apatifamento de uma nação começa pela degradação do discurso público” (Luiz Fernando Veríssimo, em sua coluna de hoje sob o título “Apatifaram-nos”).

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Fala-se muito em miitarização do governo, o que é fato, mas a ameaça maior à democracia vem da milicianização das Polícias Militares fora de controle em todo o país.

O que era um fenômeno carioca, onde as milícias formadas por ex-policiais e ex-militares progressivamente assumiram o papel do Estado, foi se alastrando por toda parte, a ponto de já não se saber quem é quem nesta crescente onda de violência promovida por agentes públicos fora da lei.

Não, não é nada normal que policiais militares, encapuzados e armados como milicianos, levem o terror às ruas do Ceará, ordenando o fechamento do comércio e atirando para matar no ex-governador Cid Gomes.

Não, também não é nada normal que Cid Gomes monte numa retroescavadeira para avançar sobre os policias amotinados no quartel de Sobral, o reduto da família.

Não, não é nada normal que policiais militares em São Paulo invadam uma escola dando porrada nos alunos de uma escola estadual no bairro do Rio Pequeno, depois da matança nove jovens num baile funk em Paraisópolis, semanas atrás.

Os policiais já foram sumariamente inocentados pela corregedoria. Esse é o “novo normal”.

Não, não é nada normal que crianças sejam vítimas constantes de balas perdidas no Rio, onde a polícia tem apoio do governador para “atirar na cabecinha” e perguntar depois, nos confrontos com bandidos nas favelas _ só nas favelas.

Com cerca de 500 mil homens bem armados e liberados para matar, um contingente maior do que o das Forças Armadas, as corporações das PMs desafiam os governadores a lhes concederem aumentos salariais acima da inflação e os mesmos privilégios dados aos militares na reforma da Previdência.

Para evitar maiores problemas e não virar refém da PM como os outros, Romeu Zema, do Novo (novo o quê?), governador de Minas Gerais, um estado quebrado que atrasa salários, já foi logo dando um aumento acima de 40% à sua polícia

“Policiais armados e mascarados não são grevistas e como tal devem ser detidos e punidos. Quem atirou no senador sentia-se amparado na autoridade federal que apoia a violência e a elogia. Amplia essa percepção a relação com milicianos e a defesa da liberação de armas”, publicou a ex-presidente Dilma Rousseff nas mídias sociais nesta manhã de quinta-feira.

Dilma foi ao ponto central da questão, que outros atores políticos tentaram contornar, como se tudo fizesse parte do “novo normal”, esta definição cínica e hipócrita para o desmanche do Estado Democrático de Direito.

Não, as instituições não estão “em pleno funcionamento” já faz tempo, ou as milícias não teriam hoje tanto poder para fazer as suas próprias leis.

Não, não é normal que o presidente da República e seus filhos descontem nos jornalistas seus medos com as investigações sobre a morte do miliciano Adriano da Nóbrega, um amigão da família, que Flávio Bolsonaro visitou várias vezes na prisão.

Não, não é normal que um dos generais do governo, Augusto Heleno, queira convencer o presidente a convocar o povo a ir às ruas contra o Congresso.

Com os milicianos se organizando num poder paralelo, de um lado, e os militares, de outro, na retaguarda, sem qualquer articulação política no Congresso, Bolsonaro vai se segurando no cargo como uma rainha louca que vê inimigos e conspirações por toda parte no seu palácio, e sai atirando patifarias para todos os lados.

Se até mestre Veríssimo teve que recorrer ao dicionário para explicar o que está acontecendo, dá para imaginar a dificuldade deste velho cronista do cotidiano depois de tantos carnavais.

Será que alguma escola de samba do futuro poderá criar um enredo capaz de mostrar como era o Brasil do capitão em 2020?

No desfile, não poderá faltar a retroescavadeira e a ala dos policiais fantasiados de milicianos.

Tudo está parecendo tão absolutamente inverosímel que já ultrapassaram as barreiras da ficção mais alucinante.

O título do samba-enredo poderia ser “A grande patifaria”.

E vida que segue.

 

13 thoughts on “É Carnaval: policiais saem fantasiados de milicianos e levam terror ao Ceará

  1. Está ai uma prova de fogo para o governo petista do PT e dos irmãos Gomes, que representam muito bem a esquerda, de como vai se compor com esta turma de militares rebelados.
    Cid Gomes, bem ao estilo de Ciro, achou que resolveria a parada arrombando tudo como um trator e com um trator…. se deu mal (ja pensou se fosse o Bolsanaro que tivesse feito isso?… estaria morto e crucificado)
    Melhor mesmo jogar a culpa no governo federal, que estará tudo resolvido.
    Em tempo: Até Dilma dando pitacos? oh coitada

  2. Visitando minha filha em algum lugar, eu vi, assustada, uma gigantesca carreata-com-buzinaço de viaturas e camburões, reclamando de forma intimidadora da decisão técnica acertada do Supremo sobre a segunda instância. Na volta para o Rio, pensei o mesmo que o jornalista: há uma atmosfera tóxica e contagiosa de desprezo pelas instituições democráticas, uma autorização simbólica vindo de cima para corporações estatais agirem como milícias dando uma “banana” para o Estado de Direito. Há também em setores não pequenos destas corporações a expectativa infundada de que estas ações estejam em conformidade com a suposta vontade popular de fazer colapsar todo o arcabouço institucional. Seguramente, há quem já veja animadamente nestes atos um ritual de passagem para uma ditadura em curso. Mas como seriam convencidos do contrário, quando a família monarco-presidencial da Barra & Rio das Pedras estimula todo santo dia o flerte com a ruptura constitucional?
    Sim, fica a sensação de que o pior do Rio, as milícias, virou mesmo um produto de exportação com a chegada ao poder desta gente. Mas o Rio, vale lembrar, sempre foi muito maior do que este cenário grotesco: é daqui que virá a saída da barbárie. E, Kotscho, é genial sua imagem do carnaval do futuro lutando para tornar ficcional, tema de escola, a amarga realidade delirante de 2020.

  3. Nada simboliza mais a mentalidade das oligarquias brasileiras do que um senador montar num cavalo, ou retroescavadeira, e invadir uma repartição pública. O coronelismo das capitanias hereditárias brasileiras continua firme e forte. No caso do Coroné Cid Gomes, já vi nas redes sociais, Cidpresidente. Estão querendo usar o tiro no infeliz como Bozo usou a facada. E lá vamos nós entre facada tiros e milicianos.

  4. Amigo Kotscho
    A Polícia Militar do Rio de Janeiro sempre figurou no ranking de salários como um dos piores exemplos. O policial do Distrito Federal até hoje ganha três vezes mais que o carioca.
    A cidade do Rio ofereceu um ambiente propício para que surgisse outro pelotão paralelo de segurança, o da milícia. Ganha-se bem.
    Surge uma milícia aqui, outra ali, e com a chegada do presidente-miliciano (Lula foi enquadrado na LSN por chamá-lo assim) ao poder, a coisa ficou do jeito que o diabo gosta.
    Os governadores que não controlam suas polícias devem se preocupar.
    Enquanto os petroleiros dão a cara pra bater, sem esconder o rosto, os grevistas militares estão armados e mascarados.
    Esse é um Brasil que os democratas não merecem, mas é o que atiça o ego de pretensos neofascistas, antes embutidos em armários da timidez.
    Pode ser até que os uniformizados verde e amarelo saiam às ruas a chamado do gnomo do Cabaré do Planalto, o general Heleno, que se despiu do pijama para importunar a vida da grande maioria.
    Por enquanto, o poder paralelo tenta tomar conta das áreas urbanas.
    Mas, o capitão-presidente não se esqueceu do campo e colocou no posto de quem manda e desmanda na área, nada mais nada menos que o presidente da UDR, pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia, criador das primeiras milícias rurais a fim de combater as ocupações do MST, .
    O sinal de alerta já foi acionado.
    Ulisses de Souza

  5. Carreira política fazendo ”arminha”, resulta nisso: Já não se sabe mais o que acontece. Se é um protesto, se é terrorismo, se é um cangaço,…
    Fato é que a violência está bem presente, em todos estados e regiões do País. Até onde vamos suportar tudo isso! Sempre escrevi isto: A falta de desenvolvimento, os milhões de desempregados, a falta de esperança…a ociosidade é a grande porteira aberta para o ingresso ao crime e está avançando a galope…
    Vamos ver onde vai dar isso. Está difícil acreditar em alguma coisa neste país. Vamos aguardar, não há o que fazer. Estomago vazio fala muito alto.

  6. Prezado Kotscho: Se “as milícias formadas por ex-policiais e ex-militares progressivamente assumiram o papel do Estado” é porque o Estado é fraco e frouxo e, de certa forma, bancou a formação das milícias (com o dinheiro do contribuinte) e deu treinamento oficial para esses canalhas. “Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos.” (Millôr Fernandes).

  7. As milícias se adensaram com o discurso ofical. Quer mair incentivo às milícias do que o presidente da república vir a público e dizer que mandou o filho dele homenagear o Adriano? A bandidagem existe aí há décadas, mas nunca esteve tão ousada, crente de impunidade como agora. Lula foi imimado a depor sobre seu discurso de chamar o bolsonaro de miliciano. a mando de moro: o dono do Brasil que tem a sua conja à tira-colo. Ele vai intimar todos que fazem essa mesma associação, então, a PF vai ter que abrir um departamento com 300 mil agentes só para investigar esse tipo de “calúnia e difamação”. E o CNM não viu perseguição naquele juiz contra lula. E a droga no avião reserva da presidencia da república não tem nenhuma relação com o discurso apologético à violência?

  8. A esquerda no Ceará é coronelista e TERRORISTA!.Ou o sujeito é louco ou terrorista.Usar uma máquina para cima dos policiais e de seus familiares!.É mais uma página terrível na história política brasileira.

  9. Olha, quem nos aterrorizou com sua fantasia no carnaval da BA foi a diva ex linda Marquezine. Nao pode ser ela.
    Esta magérrima, esquelética, tão ossuda que dá pra estudar anatomia comparada na faculdade de medicina da UFBA. Em resumo feia como o antipoda dela mesma.
    Nao sabes que ossos rima com destroços?
    É tudo de saudades pelo comportamento desastroso de estrela cadente do neimar?
    Quesina querida, volta atras, xinxin de galinha, caruru, ainda podes te salvar!

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