Na São Paulo parada debaixo d´água, as imagens do abandono de sempre

Na São Paulo parada debaixo d´água, as imagens do abandono de sempre

Passei a manhã desta segunda-feira vendo os estragos da chuva em São Paulo pela televisão e me deu a impressão de já ter visto muitas vezes este mesmo filme.

Em textos e imagens, nada muda de uma enchente para outra: foi a maior chuva dos últimos não sei quantos anos, choveu tantos milímetros em tal lugar, as pessoas deixaram as casas e perderam o pouco que tinham, as marginais intransitáveis com xis quilômetros de congestionamentos, ninguém consegue entrar ou sair da cidade, a defesa civil está de prontidão, os resgates são feitos pelos bombeiros, os desabamentos se sucedem, as pessoas não conseguem chegar à escola ou ao trabalho.

Sim, a São Paulo, que não pode parar, parou mais uma vez.

Em viagem a Dubai, o governador João Doria pediu para as pessoas não saírem de casa, e só. Foi sua única providência, como se fosse necessária.

Se não tivesse deixado a prefeitura para se candidatar a governador, ele estaria agora cumprindo o último ano do seu mandato, tarefa que deixou para o vice Bruno Covas, que está se tratando de um câncer e tem dificuldade até para falar pelo telefone.

Desde que cobri minha primeira enchente, uns 50 anos atrás, muitos governantes de todos os partidos já passaram por São Paulo, mas o sentimento dos moradores continua o mesmo: o de absoluta orfandade diante das intempéries.

Culpar as autoridades e cobrar providências, as famosas “obras contra enchentes”, é tão inútil quanto pedir para ninguém mais fazer suas moradias em áreas de risco, nas encostas dos morros ou na beira dos córregos.

Por mais obras que os prefeitos façam, canalizando córregos e limpando rios ou fazendo piscinões, cada vez que a chuva aperta, as mesmas cenas de desespero se repetem.

Por mais que limpem os bueiros, mais eles ficam entupidos de entulho, despejado pela cidade que não para de crescer para as bordas e para o alto.

Gostamos de repetir que São Paulo é a maior cidade do Brasil, mas não queremos reconhecer que aqui também se torna cada vez mais escandalosa a desigualdade social, onde convivem a extrema riqueza e a extrema pobreza, lado a lado, como vemos no Morumbi.

Quando acontecem as tragédias, isto fica ainda mais dramático, porque os pobres são sempre as maiores vítimas nos bairros que se multiplicam pelas periferias, onde o Estado é mais ausente.

As pessoas não moram lá por boniteza, mas é que não têm outro lugar para guardar seus filhos e seus trapos e montar uma cama. A opção é ir morar nas calçadas ou sob os viadutos, de onde são enxotados todas as manhãs.

Para ilustrar como nada muda de uma enchente para outra, recorro a um trecho da reportagem que escrevi em 1983, na primeira página da Folha, reproduzida no meu livro “A Prática da Reportagem” (Editora Ática, 2005, que já está na 4ª edição e 6ª reimpressão).

***

“As marginais alagadas, o caos em toda a cidade, da Praça da Sé à extrema periferia, caminhões do Corpo de Bombeiros andando na contramão, o histérico e inútil barulho das sirenes por toda parte, gente ilhada, carros boiando, o entulho tomando conta das calçadas, e o prefeito Antônio Salim Curiati desaparecido desde as 11 horas da manhã.

Nenhum guarda de transito, nenhum lixeiro, nenhum assistente social para recolher os mendigos jogados sob os viadutos _ o centro da cidade lembrava uma praça de guerra entregue aos derrotados, seus habitantes.

Na velha São João, as filas avançam para o meio da avenida, mas os ônibus não chegam, presos em algum lugar desta cidade onde os córregos transbordaram, as bocas-de-lobo entupiram, os semáforos enlouqueceram e carros foram simplesmente abandonados por seus donos.

Úmidos, molhados, humilhados, os habitantes da outrora cidade orgulhosa viram-se jogados na vala comum dos moradores de uma vilazinha qualquer”.

***

Não é maldade da natureza, não é culpa de São Pedro: nós, paulistanos, é que até hoje não aprendemos a conviver civilizadamente na terra onde nascemos.

Construímos grandes prédios e mansões, avenidas e cebolões, asfaltamos e concretamos tudo, e hoje vivemos enjaulados na nossa própria mania de grandeza, desfilando pelas ruas fantásticos carrões que ficam imobilizados, mesmo quando não chove tanto, porque já não cabem nas ruas.

Quem elege nossos governantes somos nós mesmos, e depois não adianta reclamar deles, porque ninguém, nem Jesus Cristo, será capaz de consertar tantos erros acumulados ao longo destes  anos todos em que São Paulo virou uma cidade hostil para os seus próprios moradores.

Viramos uma terra de egoístas, de gente que não respeita os outros, quer levar vantagem em tudo, finge que não vê a miséria batendo à sua porta e só sabe reclamar do garção, do guarda ou da faxineira.

Reduziram tudo a números e lucros na Bolsa de Valores, com manias de grandeza em meio à pobreza, pensam que são americanos ou europeus, mas não passam de borra-bostas que elegem um capitão do mato para cuidar do país.

Basta cair uma chuva mais forte para caírem na real. Ou não. Na cidade parada, todos são iguais, nada valem.

E vida que segue.

 

9 thoughts on “Na São Paulo parada debaixo d´água, as imagens do abandono de sempre

  1. Amigo Kotscho

    A cidade de São Paulo é a própria biruta de aeroporto. O vento político sempre definiu os rumos que seguiu forçosamente.

    Já foi do exagerado “São Paulo não pode parar” até o preocupado “São Paulo precisa parar de crescer”.

    A frase “São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo” foi o ópio, da euforia à dormência, dos gestores públicos.

    Na ditadura militar, quando os prefeitos eram indicados, houve um quiproquó a respeito do assunto.

    O ex-prefeito biônico, engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, costumava dizer, em entrevistas, que São Paulo era uma cidade “clandestina” por não possuir boa infraestrutura de serviços básicos. Criticava o crescimento desordenado. “São Paulo precisa parar de crescer”, dizia ele.

    Figueiredo Ferraz foi demitido pelo ex-governador biônico Laudo Natel, irritado com essas declarações.

    Há 10 anos, o urbanista Eduardo Nobre, em entrevista à Folha, disse que a cidade era um “caos” e que drenagem urbana, impermeabilização do solo e congestionamento mereciam um planejamento correto e não “coisas rápidas só para liberar para as empreiteiras poderem fazer mais obras”.

    Disse ainda que o Brasil precisava largar mão do construir o novo, modelo norte-americano de crescimento, e “adotar o modelo europeu de reformar o antigo”.

    São Paulo é uma cidade desigual. Nela, se escancara o modelo econômico brasileiro e seu capacidade de enriquecer poucos em detrimento da grande maioria que vive em estado de pobreza crônica.

    Cortada por dois rios importantes, como Tietê e Pinheiros, e centenas de riachos, a cidade não aguenta um limite de chuva acima do normal.

    O caos é inevitável e quem sofre é o pobre, que constrói seu barraco em locais perigosos e acaba ficando sem lenço, sem documentos, sem casa, sem móveis e sem rumo.

    É a tal da tragédia anunciada.
    Políticos sem escrúpulos, como o atual governador João Dória, usam-na como um trampolim canalha.

    A cidade que em certa época mais cresceu no mundo é hoje um rebojo de problemas. Seja na chuva ou sem ela.

    Ulisses de Souza

  2. Prezado Kotscho: É verdade. “Construímos grandes prédios e mansões, avenidas e cebolões, asfaltamos e concretamos tudo” e, além disso, invadimos com a construção das marginais do rio Tietê e do rio Pinheiros as suas áreas de inundação naturais. Para essa agressão urbana, a natureza responde com as enchentes de difícil solução, porque destruíram as áreas permeáveis e de descarga das águas de chuva que caiam e penetravam nesse sistema. Mataram as árvores das matas ciliares desses grandes rios para construir as marginais. Assim fica difícil uma restauração ambiental. “O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro em água e luz. Depois árvore.” (Manoel de Barros).

  3. Belo texto, Kotscho. Cedo ou tarde, a força cega da natureza escancara a estreiteza de visão dos inescrupulosos que ergueram uma cidade inviável e indefesa diante das chuvas. Nesta hora, a camada superficial de normalidade deste país desliza do alto, afunda ou fica boiando.

  4. Excelente artigo Kotscho
    Como sempre colocando a mão na ferida , que somos nós, engolindo esta indecencia que acabou se tornando esta cidade, este estado, este país.
    Sera que vamos aguentar esta vida que segue?
    Abraço
    Sonia

  5. Parabéns, Mestre Kotscho!
    Obrigado por mais esta verdadeira aula de Jornalismo e, sobretudo, cidadania.
    Tomei a liberdade de colá-lo em meu modesto arremedo de blogue (“O caminho se faz ao caminhar”), citando a fonte e o link.
    Adorei a citação do Manoel de Barros, Amigo de nosso Amigo comum, o grande Jornalista Luiz Taques.

  6. Falando em S.Paulo, foi muito divertida e sintomática ver a roda periodistica do RodaViva entrevistar o Dráusio Varela. Diga-se o que for do dr Varela, mas ele possui inapelavelmente duas coisas: experiência e convicçoes firmes.
    E suas em termos de conteudo sao totalmente de esquerda… alem de dar boa audiência, motivo da entrevista.
    Vai dai que a bancada, que se divide normalmente entre os deixa.que.eu.gozo.assim.mesmo, os nefelibatas úteis e os sabujos tratou de encurtar perguntas, não objetar coisa alguma. Esperava uma objeçao dos recem.puxassaquistas de Moro mas nada…
    A reação do povo expectador querendo o médico de ministro da Saude foi natural e lógica.
    O que nao sabem é que depende de os laboratórios do big pharma deixarem..

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