Meu bom amigo João, uma figura que não é desse mundo

Meu bom amigo João, uma figura que não é desse mundo

Caros amigos e amigas, 

vou tirar uma semana de folga do Balaio a partir desta segunda. Ando muito cansado das notícias do Brasil e preciso de um respiro na praia, longe do computador e do celular. 

Volto na próxima segunda, dia 27. Até lá.

Abraços a todos. 

***

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos, e o horizonte corre dez passos. Por mais que caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” (Eduardo Galeano, citado por Heraldo Campos nos comentários do meu blog).

***

Essa bela definição de Galeano sobre utopia cabe literalmente como uma luva no meu velho amigo João Carlos Martins, o grande pianista que virou maestro e agora voltou e tocar piano, graças a uma luva biônica.

A história completa eu conto neste domingo numa reportagem publicada na página B6 da Folha, junto com um maravilhoso vídeo da TV Folha produzido por Vinicius Martins, e com fotos de Eduardo Knapp.

Faz muitos anos que João e eu ficamos amigos, ao frequentar o mesmo bar, a Tabacaria Ranieri, perto de onde nós moramos.

Ali tem um velho piano, onde ele já deu muitas canjas, mas o melhor de tudo são as histórias que conta sobre as mil peripécias da sua vida.

A presença dele é certeza de que vamos nos divertir com essa figura improvável, que não parece ser desse mundo.

De vez em quando, aparecem fãs para pedir autógrafos ou tirar selfies, pessoas que muitas vezes duvidam ser ele mesmo quem está ali.

“Você é aquele pianista que aparece no Faustão?”, já chegaram a perguntar ao maior intérprete vivo da obra de Bach, que começou a carreira muito cedo como menino prodígio e está prestes a completar 80 anos, um verdadeiro milagre da natureza.

Com seus longos cabelos grisalhos sempre esvoaçantes, várias vezes já foi dado pelos médicos como incapacitado para o piano, após incontáveis acidentes e cirurgias.

Mas João nunca desistiu, repetindo uma frase de seu pai, José da Silva Martins:

“O impossível só existe no dicionário dos tolos”.

Tolo ele certamente não é.

Encantado com a luva biônica que lhe foi dada de presente pelo designer Ubiratã Bizarro Costa, o Bira, feita de forma artesanal com materiais que custaram R$ 500, João foi mostrar o achado aos amigos tocando piano no bar dias antes do Natal.

Parecia menino que ganhou brinquedo novo no Natal, mostrando para todos que agora pode novamente movimentar os dedos nas teclas.

Uma das diversões de João quando não está tocando ou regendo em algum concerto pelo mundo e pelo país afora _ já foram mais de 6 mil apresentações _ é sacanear os amigos.

Eu costumo ser uma das suas vítimas.

Numa viagem de ônibus que fizemos ao Rio junto com a Orquestra Bachiana Filarmônica, que ele criou ao virar maestro por não poder mais mais tocar piano, aproveitei para gravar uma entrevista, publicada há tempos na revista “Brasileiros”, de saudosa memória.

Numa hora em que voltei do banheiro do ônibus, João e Hélio Campos Mello, fotógrafo e dono da revista, estavam mexendo no meu gravador.

“Rapaz, você fez alguma coisa errada porque aqui não tem nada gravado…”

Tomei o maior susto porque não tem nada pior para um repórter do que perder uma gravação ou o bloco de anotações.

Logo o Hélio riu, e os dois se divertiram às minhas custas. Estava tudo gravado.

A noite, na sala em que o maestro iria apresentar um concerto, uma hora ele sumiu.

Fui encontra-lo dormindo num sofá encardido na coxia, com os organizadores preocupados porque estava na hora de começar o concerto.

Tranquilamente, ele se levantou e foi para o palco, como se o dia estivesse amanhecendo.

Fiquei sabendo depois que ele sempre faz isso antes das suas apresentações.

Se ele não existisse, João precisaria ser inventado…

Vida que segue.

 

14 thoughts on “Meu bom amigo João, uma figura que não é desse mundo

  1. Kotscho querido, dar um tempo é sempre bom, ajuda (ainda mais tempos como estes). Aproveite pra se balançar na rede, depois volte pro balanço do seu Balaio que é bom pra todos nós, pra #ELENÃO!’
    baitabraço

  2. João Carlos Martins é um brasileiro extraordinário, um prodígio do piano e uma história de superação que é exemplo para todos nós. O piano é sua vida e agora que voltou a exibir seu talento nesse instrumento, deve estar muito feliz. Que Deus o abençôe.
    E você, Ricardo, aproveite esses dias para recarregar as baterias pois você precisará delas renovadas em 2020.
    Abraços aos dois e a todos aqui do Balaio.

  3. Não permitem o descanso do jornalista: como um movimento coordenado, a vaza-jato reveladora é reduzida a uma “ “bobageirada” no jargão desafinado do deixa-que-eu-chulgo e é seguida de denúncia do MPF contra Glenn.
    Esta denúncia é tudo o que o MPF não pode ser, mas também é a face verdadeira do que uma parte dele se converteu. Cisões internas em curso? É o mínimo que se espera.
    Goebbels na cultura, censura jurídica no Ministério Público, isto que deu o blasé ex-democrata, ex-cosmopolita, votar útil no fascismo para se livrar do PT.

  4. Que tenhamos a presença do João muito tempo: o homem que transmite musica(lidade) e humanidade a todos que o conhecem e tambem aos que simplesmente o veem na tela pequena.
    Já perdemos mais de uma gentes top de linha nos últimos anos.

  5. Prezado Kotscho: Um amigo me enviou por email esse texto do poeta e filósofo libanês Gibran Khalil Gibran que me parece bem oportuno para o momento que estamos vivendo:
    “Diz-se que, momentos antes de um rio cair no oceano ele treme de medo.
    Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar ele nada mais é do que desaparecer para sempre.
    Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.
    Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Podemos apenas ir em frente.
    O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
    E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece.
    Porque apenas então o rio compreende que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
    Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.”

  6. Estes dias vimos duas coisas , personalidades publicas que tomaram posição e chegaram assim ao ponto de não.retorno. A Regina Duarte e dias depois o Caetano Veloso, é bom porque deixa as coisas claras.
    Gostei do lúcido comentarista ‘fernando bretas’ que aparece volta e 1/2ª no 247.
    Que diga-nos, se possível e viável, seu twitter coisa e tal.

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