Bolsonaro Ano 2: o poder das milícias que ameaça a República

Bolsonaro Ano 2: o poder das milícias que ameaça a República

Por que os mandantes do assassinato de Marielle Franco ainda estão livres, leves e soltos, quase dois anos após esse atentado de terrorismo político-miliciano?

Para encontrar a resposta a essa singela pergunta, recomendo a leitura do artigo “Em defesa da República _ Desafio da sociedade em 2020 é iniciar concertação contra o milicianismo”, de Oscar Vilhena Vieira, publicado hoje na Folha.

Vilhena vai direto ao ponto:

“Para o milicianismo não há cidadãos ou direitos (…) Os que não se curvam à extorsão nada recebem. Os que se insubordinam são eliminados, como ocorreu com Marielle Franco”.

Como profetizava o final do filme “Tropa de Elite 2”, ao sobrevoar Brasília, o poder paralelo instaurado pelo milicianismo no Rio de Janeiro, com suas ramificações na política, já estava se preparando para ocupar o vazio deixado pelo Estado.

“A ascensão de lideranças políticas que orbitam em torno do mundo das milícias, ou que partilham do seu ethos, estabelece novos desafios às nossas instituições políticas (…) A questão que se coloca neste momento é como as instituições têm lidado com a dimensão mais corrosiva deste governo, contígua ao populismo reacionário, que é o milicianismo?”.

Do Rio para Brasilia, e de lá para o resto do país, dia a dia a nova ordem da desordem se impõe, cria suas próprias leis, abre caminho a bala e fogo, desafiando o Judiciário e o Congresso, que já não conseguem acionar o sistema de freios e contrapesos.

Professor da FGV Direito SP e autor do livro “A Batalha dos Poderes”, Vilhena mostra a ofensiva das tropas milicianas em todas as áreas da vida nacional, e faz uma grave advertência:

“A ampliação das invasões das terras indígenas, o aumento das queimadas na Amazônia, o crescimento das mortes pela polícia, os ataques à liberdade de expressão, a total negligência com o sistema educacional e o combate frontal à cultura não decorreram de mudanças propriamente institucionais. Ao contrário, foram consequência de uma ação paraestatal sistemática promovida pela dimensão miliciana do atual governo que provoca a erosão, captura e desgaste das instituições.

Na mesma edição da Folha, encontramos na matéria “Bolsonaro anistia grilagem, freia novas áreas indígenas e estaciona reforma agrária” (página A4) a medida provisória 910, assinada discretamente por Bolsonaro, no último dia 10 de dezembro.

Se o Congresso aprovar mais esta aberração, no prazo de 120 dias, abre-se o caminho para a privatização de terras públicas invadidas ilegalmente, acabando na prática com a demarcação de terras indígenas prevista na Constituição de 1988.

São favas contadas: a bancada ruralista, com quase 300 deputados no total de 513, é claro que vai aprovar a toque de caixa esta velha reivindicação dos “empreendedores rurais”, que adotam na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal o mesmo modus operandi das milícias nos subúrbios cariocas: ocupar as áreas na marra e no grito, se preciso a bala, e subjugar as comunidades.

Sem verbas previstas em 2020 para os novos projetos de assentamentos da reforma agrária, os pequenos produtores sem terra vão virar mão de obra barata do agronegócio e das mineradoras que já se preparam para explorar o subsolo.

A bancada ruralista já ocupa todos os principais cargos do Ministério da Agricultura, inclusive o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), de onde foi defenestrado o general João Carlos Jesus Corrêa, que resistia aos ataques do milicianismo rural em marcha.

Em 2019, a demarcação de terras indígenas e quilombolas foi simplesmente abandonada, como mostra a reportagem de Fabiano Maisonnave, que fornece amplo material para o próximo artigo de Oscar Vilhena Vieira.

“O grande desafio da sociedade brasileira em 2020 é dar início a uma ampla concertação político-institucional contra o milicianismo e em favor da República”, propõe Vilhena no final do seu texto.

Temo apenas que seja tarde demais.

A civilização já perdeu para a barbárie, agora oficializada.

Vida que segue.

 

13 thoughts on “Bolsonaro Ano 2: o poder das milícias que ameaça a República

  1. Concordo, RK: é tarde demais.
    A vaca foi pro brejo.
    A profecia de Nelson Rodrigues se confirmou.
    Os idiotas dominam o Brasil não pela qualidade, mas pela quantidade.
    A imbecilidade está na moda.
    Cabe a pergunta: cadê a resistência?

    1. Amigos,

      Nunca houve e nem creio que haverá resistência.
      A “esquerda” está preocupada em chorar as perdas e relembrar o passado glorioso. O povo só está preocupado em receber os “500,00 que o Bolsonaro tá dando”, interessado em campeonato de futebol e final de novela e aguardando o próximo BBB .
      A massa acéfala segue tangida pela mídia canalha, assistindo bovinamente a vida se esvair pelo ralo sem ao menos se dar conta disso.
      Se existe um povo no mundo com destino manifesto esse povo é o brasileiro: elegeram o Collor. Agora elegeram um pior. Democracia é uma fantasia que não serve aqui nestes “tristes trópicos”.
      Christian Dunker disse esses dias que não é com esperança que vai se mudar esse estado de coisas. A palavra esperança é usada como um lenitivo vazio, um placebo.
      Só existe um meio de apear a tirania do poder: por meio da força. Alguém enxerga a mais pálida organização de forças de quem quer que seja para tirar essa corja do poder? Não!
      Preparemo-nos para descer ainda mais ao Inferno de Dante. A viagem está só no começo.
      Todas as brutalidades estão naturalizadas pela mídia canalha e golpista. Enquanto existir Globo, SBT, Record e outras tantas esse povinho estúpido estará docilmente sob controle.
      Não sabia o que é depressão. Descobri agora.
      Apesar de tudo, abraços aos companheiros.

        1. Caro Kotscho,
          Muito honrada pelas gentis palavras.
          Teus artigos merecem sempre o melhor de nós.
          São remédios de verdade, elixires para a alma.
          Abraços

        2. “Está achando ruim? Então espera o próximo. Será pior e pior”.
          Assim vaticinava o sábio Doutor Ulysses Guimarães.
          A resposta teria sido dada a Luís Costa Pinto, que perguntara ao “Senhor Constituinte” sobre as qualidades do Congresso em 1991, ainda durante o Governo Collor.
          O que diria o Senhor Diretas hoje?!?!
          Portanto, todo cuidado com a saúde mental e emocional ainda é pouco.

      1. Suzana, gostaria de discordar de você, mas não consigo. Estive como você, em choque e deprimido com o rumo do país.

        No entanto, tive a oportunidade de recomeçar tudo, ao morar fora do Brasil. O Brasil, no entanto, não sai de mim.

        1. Matheus,
          Que bom que conseguiste dar um rumo melhor a tua vida fora daqui.
          Talvez um dia a sanidade retorne. Apenas talvez.
          Não desperdice teus sentimentos com o povo de cá. Eles escolheram e estão satisfeitos.
          Abraços

  2. Prezado Kotscho: Para “dar início a uma ampla concertação político-institucional contra o milicianismo” e tudo o mais, como propõe Vilhena, o povo precisa ir para as ruas, de forma organizada, com uma pauta definida, e pedir que o Congresso encaminhe o impeachment do presidente e, consequentemente, de toda a aberração de seu governo. Além disso, esse mesmo Congresso deveria convocar eleições gerais em todos os níveis, junto com uma reforma eleitoral, incluindo cláusula de barreira para os partidos, mandatos de cinco para todos os mandatos, sem reeleição e coincidir essa movimentação com o calendário eleitoral de 2020. Se isso não acontecer, corremos o sério risco de participarmos de uma última eleição, essa programada para prefeitos e vereadores, porque a ameaça do AI-5 vai voltar a ser cogitada. “Nenhum poder na Terra é capaz de deter um povo oprimido, determinado a conquistar sua liberdade.” (Nelson Mandela).

  3. Amigo Kotscho,
    O artigo sobre o milicianismo, de Oscar Vilhena Vieira, publicado na Folha, e citado por você, põe em evidência a desarticulação da sociedade civil, que não consegue se unir no combate à milícia urbana e sua ramificação política.
    No entanto, o amigo vai além ao alertar sobre a medida provisória 910, assinada “discretamente” pelo Capitão. Se aprovada, “abre-se o caminho para a privatização de terras públicas invadidas ilegalmente, acabando na prática com a demarcação de terras indígenas prevista na Constituição de 1988”.
    A fim de corroborar com a tese do amigo, remeto algumas considerações ao ano de 1985, data da criação da União Democrática Ruralista (UDR).
    A partir desse ano articula-se a formação da milícia rural sob o manto da entidade. Há três décadas, atua e age de forma sub-reptícia e hoje se encontra enraizada e fortalecida no governo do Capitão e no Congresso.
    O primeiro presidente da UDR, Ronaldo Caiado, nunca se sentiu acuado diante das acusações de assassinatos no campo em que a entidade era citada. Respondia com um linguajar intimidatório e violento.
    Em seu mandato, a UDR foi acusada de participação em três mortes ligadas aos conflitos fundiários e com repercussões internacionais: Padre Josimo, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1986, no Maranhão; Marcos Freire, ministro da Reforma e Desenvolvimento Agrário, desastre de avião no Pará, em 1987; Chico Mendes, em 1988, no Acre.
    A UDR nacional deu uma paralisada após a derrota de Caiado como candidato a presidente da República, em 1989, quando obteve menos de 1% dos votos.
    Mas, na região de Presidente Prudente, onde nasceu, ela se manteve vigorosa e os embates contra o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) institucionalizaram a milícia rural da UDR.
    Qualquer dirigente da entidade falava abertamente sobre milícias, como mostra a entrevista (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/6/30/brasil/1.html ) que fiz, em 1994, com o presidente regional da UDR de Presidente Prudente, Arnaldo Couto.
    Mas quem estava por trás dessa escalada armamentista no campo era o fazendeiro Luiz Antonio Nabhan Garcia, que em 1996 reativa a UDR nacional e como presidente da entidade incentivou a formação de milícias privadas em todo o país. Hoje, Nabhan Garcia é o secretário Nacional de Assuntos Fundiários.
    Garcia foi denunciado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Terra (CPMI da Terra). O relatório final da comissão pedia o indiciamento do presidente da UDR. No entanto, a bancada ruralista conseguiu livrá-lo ao alterar o relatório .
    E é essa bancada ruralista que, segundo Kotsho, “já ocupa todos os principais cargos do Ministério da Agricultura, inclusive o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), de onde foi defenestrado o general João Carlos Jesus Corrêa, que resistia aos ataques do milicianismo rural em marcha”, como escreveu Kotscho.
    Segundo o jornalista, a bancada tem quase 300 deputados no total de 513, o que garante a aprovação da medida provisória 910.
    Com a milícia urbana a todo vapor e a milícia rural impregnada em todo o país, é possível gritar a quem quiser ouvir:
    – A barbárie já chegou.
    Ulisses de Souza

  4. 2020 com os mesmos rosários dos sem boquinhas. O que acho mais engraçado é que de ,2003 até 2014 o brasileiro era o mais politizado. Foram só perder as boquinhas para agora pelo menos neste blog os mais desprezíveis do mundo. Assim é a mente dos esquerdopatas. Não conseguem visualizar que seus mimis não seduzem mais o brasileiros. A abstinência dos nossos impostos provaca depressão e tudo. Falar em mobilização sem os trinta reaus (reais) nem pensar. Fazer protestos nos finais de semana??? Só doido. Mano Brown deu a pista, mas preferiram beber Chandon na Vieira Souto. Habemus censura??? Vida que segue

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