Por que tantos jovens ainda querem ser jornalistas, apesar de tudo?

Por que tantos jovens ainda querem ser jornalistas, apesar de tudo?

Ano após ano, os cursos de jornalismo continuam entre os mais procurados pelos jovens que prestam vestibular.

É difícil explicar esta escolha, diante do tsunami que varreu nossa profissão nos últimos anos, com os passaralhos sobrevoando as poucas redações que restaram vivas.

A categoria está dividida em duas: a dos que já perderam os empregos e a dos que morrem de medo deperder os empregos, o que avilta o exercício de um trabalho nobre, nivelando tudo por baixo.

No vale tudo que se estabeleceu, já não dá para saber quem é repórter e quem é assessor de imprensa. Vejam a reportagem de Ricardo Balthazar publicada na Ilustríssima da Folha deste domingo, que mostra a promiscuidade entre jornalistas e procuradores da Lava Jato.

É emblemática aquela foto que circulou esta semana na internet, com quatro repórteres garbosos, meninos de recado da República de Curitiba, posando para a posteridade, por terem participado acriticamente dos “vazamentos” da Lava Jato, em que recebiam o prato feito preparado por Sergio Moro.

Com a revolução da internet, as redes sociais transformaram todo mundo em emissor e receptor de informações e opiniões, e qualquer idiota acha que pode tomar o lugar dos jornalistas profissionais.

Se eles próprios não se dão ao respeito, fazendo qualquer coisa para garantir o salário no final do mês, alegando que estão apenas cumprindo ordens, como exigir dos outros que respeitem nosso ofício, cada vez mais mal pago, sem garantias trabalhistas?

Já faz algum tempo, quando ministrei um curso de reportagem na PUC de São Paulo, a primeira pergunta que eu fazia aos alunos é essa que está no título: por que vocês querem ser jornalistas?

Poucos tinham noção da realidade do mercado e, mesmo assim, ainda sonhavam em mudar o mundo com suas reportagens.

“Eu resolvi fazer jornalismo porque sempre quis trabalhar na televisão”, disse uma jovem.

Ao lhe perguntar o motivo, ela não se fez de rogada: “Porque eu não gosto de escrever. Só quero ser apresentadora”.

Os outros riram com a pretensão da moça, como se fosse possível exercer qualquer função no jornalismo _ ou em qualquer outra profissão _ sem saber escrever.

Nos cursos de jornalismo que se espalharam como mato pelo país inteiro, casos assim são mais comuns do que a gente pensa, a julgar pelo que se lê, ouve e vê, tanto na mídia tradicional como nas redes sociais.

Quando entrei na primeira turma da ECA/USP, em 1967, mesmo ano em que comecei no Estadão, os colegas gostavam muito de ler e escrever, até porque, uma coisa depende da outra.

Além disso, estavam engajados no movimento estudantil mobilizado na resistência à ditadura militar, tomando contato muito cedo com a realidade do país, e dispostos a mudá-la com seu trabalho.

Assim como hoje, não era fácil conseguir um estágio na grande imprensa, mas quem queria mesmo ser jornalista acabava conseguindo, ainda que o trabalho não fosse remunerado, como aconteceu comigo.

Dei sorte de encontrar professores e colegas de redação no Estadão que me mostraram na prática qual devia ser o compromisso do jornalista com a sociedade para dar voz aos setores mais marginalizados e denunciar a desigualdade social que já campeava no país.

É verdade que fui contemporâneo de figuras como Clóvis Rossi, Raul Bastos, Mino Carta, Cláudio Abramo, Samuel Wainer, Alberto Dines, José Hamilton Ribeiro, Sergio de Souza e tantos outros que dignificavam a profissão e sabiam porque e para que eram jornalistas.

No correr dos anos, não ganhamos outras referências com a mesma estatura. Como ele costuma dizer, Mino resolveu criar seus próprios empregos, abrindo novas revistas e o “Jornal da República”.

Não é querer ser saudosista, mas gostaria que tivéssemos hoje mais profissionais que vieram depois deles, como Eliane Brum, Patrícia Campos Mello e Caco Barcellos, repórteres raros, que mantêm vivo o compromisso com a profissão e podem servir de modelo para quem está chegando agora.

O que aprendi nestes meus 55 anos no jornalismo é que esta não é, ou não deveria ser, uma profissão como qualquer outra.

Exige mais do que conhecimentos básicos e saber escrever: é preciso ter paixão, tesão para fazer de cada pauta uma história única, que pode interessar e ser útil a outras pessoas.

Entre tantos outros motivos, talvez seja por isso que tantos jornais de papel estejam definhando ou morrendo em todo o mundo.

Reproduzir apenas o que já lemos na véspera na internet, sem aprofundar os assuntos, buscando o diferencial apenas nos colunistas, e não na reportagem exclusiva, pode ser um caminho sem volta.

A grande maioria dos jornalistas não está mais nas redações, mas nas assessorias de imprensa, que pagam melhor, ou trabalha por conta própria, cada um com seu blog, fazendo frilas ou se unindo em cooperativas da imprensa alternativa.

Cada um agora pode fazer seu próprio jornal ou programa no Youtube.

O emprego na imprensa como a gente conhecia, com carteira assinada, está acabando _ e não tem volta.

A uberização do jornalismo, sem qualquer regulamentação, é a maior ameaça para a nossa sobrevivência como profissionais de imprensa.

Com as ofensivas do governo contra os sindicatos e os direitos trabalhistas, estamos na base do salve-se quem puder, e acabamos dando alguma razão aos que nos atacam sem piedade nas redes sociais.

Quando um presidente da República se sente à vontade para ofender e humilhar jornalistas quase todos os dias no circo montado no Alvorada, e ninguém reage, estamos vivendo no pior dos mundos.

Nem nos piores tempos da ditadura militar eu tinha visto nada parecido com o que está acontecendo, desde o primeiro dia desse governo, quando os jornalistas ficaram confinados sem água nem comida no dia da posse do capitão presidente.

E, no entanto, neste momento, milhares de jovens estão se preparando para realizar o grande sonho de suas vidas: prestar vestibular para jornalismo, que para mim, apesar de tudo, ainda é a melhor profissão do mundo.

Só não me perguntem a razão. Poderia responder que não sei fazer outra coisa na vida, mas paixões não têm explicação.

Para exercer qual trabalho, a serviço de quem e com qual objetivo eles querem ser jornalistas?

Às vezes me perguntam se sinto saudades de trabalhar numa redação e tento explicar que não dá para sentir saudades de algo que não existe mais.

Já não há mais lugar para o debate de ideias que podem gerar pautas; os que ficaram estão sempre muito ocupados, e aquela algaravia criativa que produzia grandes jornais e revistas, programas de rádio e televisão, simplesmente desapareceu.

Cada vez mais, o jornalismo deixou de ser um trabalho coletivo de utilidade pública para se tornar uma profissão como outra qualquer.

Quando assisto ao “Profissão Repórter” do Caco Barcelos, chega a me dar esperanças no futuro, mas esse programa é uma exceção, um oásis neste deserto de gente, de liberdade e de ideias.

Fica a pergunta no ar: se ele pode, por que outros pelo menos não tentam?

Tem alguma coisa errada quando alguém como a Eliane Brum, melhor repórter do país, vai trabalhar em Altamira, no Pará, como correspondente do jornal espanhol El País.

Eu não me conformo, mas ela não desistiu do seu sonho.

Vida que segue.

 

21 thoughts on “Por que tantos jovens ainda querem ser jornalistas, apesar de tudo?

  1. A questão “não é qualquer idiota tomar lugar de jornalista, ou profissional” (a maioria partidarista que defende um partido político)-, eu comentava agora há pouco com um jurista
    sobre essa questão da volumosa verba de fundo eleitoral, matéria que deveria ser discutida urgentemente na Reforma Política, hoje, me parece beira à margem dos 2 bi para a próxima campanha municipal. – Você se lembra que, /tudo começou com o Mensalão e a Lava jato/…(Que são fatos notórios). O que é um fato notório? E quem estava no poder quando toda a apuração o julgamento por parte do Judiciário começou??? O jornalismo é uma profissão como qualquer outra, o que está faltando é mais criatividade por parte dos profissionais desta área.

  2. Talvez caibam a estes jovens tirar uma vez mais do chão o país que vocês, Kotscho, ajudaram em muito a reerguer. Empreitada árdua esta de vocês depois de um tenebroso período de exceção, em muitos aspectos semelhante ao que vivemos agora. Talvez eles sejam a nova redação, desuberizada, com tempo reconquistado da reflexão e aversão extrema a uma época anterior de fake news e jornalismo de furinho jurídico interessado.

  3. Kotscho, creio que ler muito é essencial para aprender a escrever e, sobre isso, o Paulo Francis dizia que só se aprende a escrever escrevendo todo santo dia e, acrescento, toda santa noite.
    Se o jovem jornalista não é chegado em literatura terá dificuldade para redigir uma simples nota de dez linhas.
    Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, dizia que escrever é conversar com o leitor, arte em que você é mestre, caro RK.
    Sobre a derrocada dos jornais de papel – ou impressos – eles praticamente desapareceram nas pequenas e até em médias cidades dos EUA, onde há pelo menos 40 mil jornalistas desempregados.
    E os erros de Português na Midia?
    Numa rede de tevê uma repórter falou “houveram”, erro repetido mais tarde pelo apresentador de um programa de turismo na mesma emissora.
    “Houveram” está na lista dos dez maiores erros de Português, segundo os especialistas.
    A mesma emissora também não parece preocupada em citar o local exato onde houve, por exemplo, um acidente.
    Dia desses falou de um menino chinês que milagrosamente não morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta.
    Detalhe: o redator não mencionou a cidade onde ocorreu o acidente.
    É estranho até porque a China, com seu vasto território, é um dos dez maiores países do mundo.
    Para terminar: se a vida fosse justa a Eliane Brum estaria em um jornalão ou no Globo Repórter.
    Camarada João Roberto, contrata logo a Eliane.

  4. Falta um Audálio no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
    O Sindicato amarelou, sem uma nota pública sequer quanto ao assediador geral da imprensa e dos jornalistas.

  5. Uma das principais regras para o bom jornalista é a sua capacidade de isenção ou relatar e comentar um fato. Jornalista que adere a um lado dos fatos e a impõe em seu trabalho, deixou de ser jornalista e virou comentarista a serviço de uma das partes.
    Alem disto, temos os veiculos de comunicação nem sempre isentos e que obrigam seus jornalistas a impingir em suas matérias, conteúdos na forma que os interessa, tentando convencer o leitor para a tendencia pela qual ele torce ou lhe interessa. Veja o caso recente da revista Veja, que proibiu o jornalista J.R. Guzzo publicar seu texto porque ia contra os interesses da revista. Jornalista que se preza, faz exatamente o que ele fez: demitiu-se

    1. Pois eu já penso o contrário de você…Se algum jornalista vem com essa conversa de “isenção” e “imparcialidade” sei que ali está um cínico e pilantra, porque estas características não existem no ser humano. Jornalista tem lado sim e seria de bom tom o público saber disso ao ler qualquer notícia.

      1. Se vc é um ser humano e não um bolsonarista, lembro a vc uns ditados da sabedoria antiga: “quem se junta de parece” ou “vc julga os outros de acordo com o que vc é”. É repugnante o seu comentário. Quando chegar a sua reencarnação, vc vai para um planeta beeeem atrasado, daqueles onde os animais, incluindo vc, que deve desprezá-los, bebem água do chão.

  6. Kotscho, comunico aqui que tomei a liberdade de reproduzir integralmente seu texto no meu Facebook pessoal (no meu Twitter, publiquei o link direto do Balaio). Obviamente, com o devido crédito de sua autoria.

    Me identifiquei de imediato com muitos, mas muitos aspectos do quadro geral atualizado do mundo do Jornalismo.

    Tive uma curta carreira, fiz trabalhos que me enchem o coração de afetividade (como a série de reportagens onde acompanhei como é a torcida em jogos do Brasil na Copa do Mundo em lugares inusitados – presídio, seminário, etc.).

    Faço também minha autocrítica. Perdi a chance de trabalhar em uma conhecida rádio de notícias porque esqueci de renovar meu registro profissional no Ministério do Trabalho. Hoje, sempre recomendo a quem me pergunta que fique atento a este detalhe no momento de se formar.

    Você citou bons exemplos de sua geração. Não que a minha geração tenha nomes muito bons com um futuro pela frente. Mas é desalentador vermos nesta era digitalizada matérias (em grandes portais) com apuração capenga e textos sem pé nem cabeça e apresentador de telejornal querendo ser “engraçadinho” durante link ao vivo em cobertura de tragédia com quase 300 vidas ceifadas.

    Sobre a lenta extinção das redações como as conhecíamos, talvez o que melhor se aplica é a boa velha oração (sem pretensão de religiosidade beata, focando na prática filosófica, mesmo) que diz que devemos ter serenidade para aceitar o que não dá pra mudar, mas coragem para mudar o que ainda é possível mudar.

    Como mesmo dizes, vida que segue.

    Grande abraço, Kotscho.

    Leonardo Guedes – jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha) em 2012. Registro profissional 34104/RJ. Tive passagens pelo site SRZD e na Rádio Bradesco Esportes FM.

  7. A propósito do lide da postagem procurei os diferentes sítios jornalísticos sindicais e associativos. Nenhum dos referidos sítios, cerca de uma dúzia, os principais pelo menos, não deram uma linha sequer sobre as devidas providências judiciais pertinentes ao assédio sistemático praticado pelo Líder dos Imbecis contra jornalistas e o jornalismo.
    Uma situação, em particular, chama atenção. Um século e um ano depois, a ABI fundada em 1908 do século passado, encontra-se na seguinte situação:
    “A nova diretoria da ABI busca alternativas para equacionar a grave crise financeira da Casa. Mais um importante passo foi a campanha junto aos associados: 53 sócios pagaram antecipadamente a anuidade de 2020; outros quitaram, ainda em dezembro, o pagamento integral das mensalidades de 2019. Foram arrecadados R$ 23.850,00, para o pagamento de metade do 13° salário dos 31 funcionários”.
    Não só o Líder dos Imbecis atua sistematicamente para quebrar a espinha dorsal dos jornalistas e do jornalismo, como também as entidades supostamente representativas dos jornalistas e do jornalismo estão em petição de miséria.
    Uma ótima notícia para o projeto de poder militar-miliciano em marcha batida rumo a 2022 com vistas a consolidar o sistema autoritário de poder idealizado pela extrema-direita consorciada com a direita e regiamente apoiado pelos empresários de todos os setores, latifundiários, banqueiros e as castas castrenses, militares, paramilitares e policiais em todo o território nacional.

  8. Talvez a matéria do El País dê aos que sonham ou almejam o jornalismo uma razão para as suas vocações voltadas ao papel da imprensa e do jornalista na vida presente e, se vida houver ainda, futura.
    Aos que querem fazer jornalismo e exercer um papel social e político para além de sua própria sobrevivência profissional, não deixem de abrir o link abaixo, onde o verdadeiro jornalismo e o verdadeiro jornalista estão perfeitamente combinados: https://brasil.elpais.com/internacional/2019-12-21/olhos-feridos-das-revoltas-no-chile-senti-o-impacto-no-olho-cai-no-chao-saia-muito-sangue.html

  9. A propósito de Eliane Blum – a melhor jornalista/repórter do Brasil -, segue o seu link no melhor jornal, único passível de leitura no país, que não se rendeu ao Líder dos Imbecis.
    Blum trata dos Marcados para Morrer na Amazônia.
    Mais um exemplo lapidar da combinação do verdadeiro jornalismo com a verdadeira jornalista. Leia:
    “O sangue dos Resplandes encharca a terra
    Desde 2015, a violência em Anapu refletiu o aumento do poder dos ruralistas não só no Congresso, mas também no Executivo. Tudo acontece em cadeia na Amazônia, como em qualquer lugar. Entre 2015 e 2019, houve 15 assassinatos ligados à terra em Anapu, segundo a Comissão Pastoral da Terra ? e 19 segundo a contagem dos movimentos locais. Essas mortes mostraram que os grileiros aprenderam com o assassinato de Dorothy Stang. Nos últimos anos, os pistoleiros têm matado na cidade, em vez de na zona rural, para dificultar a associação do crime com os conflitos agrários. Como parte da polícia parece não ter muito interesse em investigar, a maioria dos crimes segue impunes. Quem precisa estabelecer a relação com as disputas de terra, para estabelecer as conexões de causa e efeito, são entidades da sociedade civil como a Comissão Pastoral da Terra.

    Já em 2018, uma lista de marcados para morrer circulava na cidade como se fosse uma lista de compras de material escolar. Pouco antes de ser assassinado, em 3 de junho daquele ano, Leoci Resplandes de Sousa foi checar se estava na lista da morte. Um dos chefes da pistolagem local garantiu que não. E afirmou, inclusive, que caso estivesse, ele tiraria. Era assim. E segue assim. Não se sabe se este homem mentiu, porque não só Leoci foi assassinado, como também este chefe da pistolagem algum tempo depois. A lista ? ou as listas ? seguem ativas.

    O que aconteceu com a família Resplandes é uma vergonha para o Brasil e para os brasileiros. Trabalhadores rurais em busca de terra, três Resplandes já foram mortos: Hércules, de 17 anos, Valdemir e Leoci, de 29. Todos em 2018. Quando Leoci foi assassinado dentro de casa, depois de voltar da roça, a família fugiu. Vivem assim, fugindo, sem nenhum apoio. E são achados. Em novembro, outro Resplandes foi baleado, mas sobreviveu. Não há certeza de que a tentativa de homicídio esteja conectada com os conflitos por terra de Anapu, mas tudo indica ser bastante possível.

    Iracy Resplandes dos Santos, 53 anos, vive acuada. Claramente está com depressão, mas conta não ter confiança de buscar tratamento. Disseram a ela que a dor pode ser aplacada com tricô. Mas ela começa a tricotar e não consegue continuar. Vive o luto do filho mais velho, do irmão e do sobrinho. Em novembro, atravessou dias e noites no hospital cuidando do filho baleado, temendo a sua morte. Iracy tem dor e tem medo. Tem desespero. Tudo o que sonhou era um pedaço de terra para plantar. Acabou tendo que semear cadáveres. E nada indica que esta semeadura de corpos humanos irá parar”.
    Viva Eliane Blum!

  10. Amigo Kotscho

    O diploma de jornalista foi cassado em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que julgou recurso proposto por uma entidade patronal.

    Na época, o ensino superior estava abarrotado de cursos de jornalismo.

    Sempre foi uma profissão mistificada pelo sonho de jovens que almejavam um dia trabalhar principalmente em TVs.

    Para os urubus de toga que rasgaram o certificado, pessoas com notório saber substituem os jornalistas com maior respeito à liberdade de expressão.

    Nesse período li uma frase que passei a usar em textos sobre o fim do diploma.

    “Se for pelo notório saber, o açougueiro seria um excelente médico legista”, é a frase.

    O fim da regulamentação da profissão foi um retrocesso, como era previsto. Direitos conquistados deixaram de existir. Salários foram aviltados. A qualidade editorial, a pretexto da confusão causada pela Internet, é a derrocada principal de quem quis o fim do diploma.

    Cursos foram fechados. Os que sobreviveram ainda acolhem mais candidatos do que vagas.

    As empresas de comunicação usam e abusam dos estagiários, que vão às redações por remuneração que não chega ao salário mínimo.

    O pior é que esses jovens aprendizes são aproveitados na produção (pauta), principalmente em afiliadas das grandes redes de TVs.

    A grande maioria dos formados tem o sonho desfeito. Volta para o mercado de onde queria se safar. Hoje encontramos jornalistas trabalhando como comerciários, vendedores de bolos e salgados, e pendurados no FIES.

    A par dessa mexida que favoreceu as empresas, o formado que consegue vaga no mercado em disputa com os do notório saber vai para a redação sem qualquer noção sobre a ética jornalista. Algumas faculdades tinham no curso preocupação com o assunto, hoje abandonada.

    Vale citar trecho de um artigo sobre ética escrito pelo jornalista Perseu Abramo. Segundo ele, “precisamos, exatamente, separar o jornalista, empregado e assalariado, do empresário da comunicação, que no Brasil é membro de uma pequena casta que se mantém por privilégios políticos. Obviamente, as empresas de comunicação possuem uma linha editorial, enfiada goela abaixo, de cima para baixo, e quem tem que cumprir essas pautas dirigidas na política é o jornalista, que, muitas vezes, por falta de emprego e medo de perdê-lo, faz coisas que contrariam toda a ética aprendida nos bancos universitários”.

    O certo é que com o fim da exigência do diploma resta aos jurássicos, como eu, a ética. Perdê-la seria o fim de nosso sonho tão bem definido pelo Kotscho em seu artigo, quando escreve que para ser jornalista “é preciso ter paixão, tesão para fazer de cada pauta uma história única, que pode interessar e ser útil a outras pessoas”.

    Ulisses de Souza

  11. As pedras basilares do jornalismo são, fatos, fontes, jornalistas, opiniões e credibilidade.
    Limitado a fatos e versões das fontes, como são, e a credibilidade, para considerado ser, em criatividade não há como competir com a sem limites do ‘jornalismo Tião Aranha’, embasada no livre pensar, factoides, o ouvir dizer, as convicções, as pós-verdades, as fake news e por aí segue o rebolado criativo, desse tempo em que fatos passam à categoria de opiniões, ou seja, do dono, salvas bissextas exceções a dar credibilidade as do dito ou no popular, só pra disfarçar e deixar claro o que está faltando, não é mais criatividade por parte de jornalistas, é vergonha na barata alma Samsa e a consequente coragem que a vida quer.
    Portanto tô contigo, Mestre: para que fazer jornalismo, se em extinção e podendo-se optar por, juiz de VAR, digital influencer, celebridade, sub-celebridade, youtuber ou a joia da volta ao Império, empreendedor verde-amarelo, de bate pronto, podendo começar explorando uma Cidade Tiradentes de ‘pés de bike – 18 x 7’, a entregar fast-food nos bairros On & In de São Paulo, por exemplo, bombando no Brasil virtual da mídia & whatsapp a prometer a economia do Posto Ipiranga agora indo.., mesmo que indicadores, ainda não ‘calibrados’, insistam em inflação a brotar e reservas internacionais a diminuírem em US$ 28 bilhões, nos 4 últimos meses, contrariando a campanha ‘dezembro rosáceo’, da mídia parceira.
    À imprensa, pior que a presença do passaralho é a ausência de credibilidade e alma. Sobe o som:
    “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo… Ninguém segura a jumentude do Brasil. (bis)”

  12. Alo, Cipriano! Alo Setúbales todos! Alô Safras destas e outras plagas!
    Adorei o gesto simbólico do americano David Oliver, em Colorado Springs que após ter alegadamente roubado um banco passou a tirar verdinhas da sacola e joga-las pra todo o lado na rua gritando: Feliz Natal! Feliz natal!
    E nao fugiu não: dizem que teria ido a boteco próximo e ali esperado a polícia chegar.
    Não aprovo o assalto, é claro, mas uma vez que foi roubado – não deixa de ser maravilhoso o simbolismo não muito PC do suspeito e indigitado, Robinhood Oliver.
    O mesmo aconteceu por aqui: a classe midia.média se sentiu roubada pela apropriação de uns
    0.45% (zero virgula) do PIB distribuidos sem cerimonia ao Bolsa Familia e tudo fez para prender o criminoso.

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