Eliane Brum envia SOS de Altamira ao Balaio: a matança continua

Eliane Brum envia SOS de Altamira ao Balaio: a matança continua

Recebi agora e transcrevo abaixo o pedido de socorro enviada ao blog pela amiga Eliane Brum, repórter do jornal espanhol El País, baseada em Altamira, no Pará, no coração da Amazônia:

“Kotscho, meu amigo tão querido (e valente)!

Não sei mais, meu amigo, o que fazer para que as pessoas acordem para a ação. Acho que esses gritos intermitentes nas redes sociais servem para aplacar a angústia _ que não pode ser aplacada, porque temos mesmo que entrar em pânico _ e não movem nada.

Aqui dormimos com uma morte _ ou melhor, não dormimos, às vezes a gente passa a noite com insônia pensando no que fazer _ e, aí, quando acordamos, já tem outra morte. Ou outra ameaça, ou outro recuo. Falo em “nós” porque somos poucos, mas há gente boa lutando aqui.

Não suporto mais escutar pessoas avisando: “vão me matar”. E eu sei que vão mesmo. E não consigo fazer nada para impedir.

Mas é isso. Seguimos. Estou com muito medo deste recesso de Natal, quando as poucas instituições que ainda funcionam parcialmente fecham as portas e também as ONGs entram em férias coletivas.

Os brancos vão descansar, e os coloridos levam tiro.

Desculpa o desabafo. Eu ando assim, furiosa. A fúria me impede de adoecer de Brasil.

 

Abraço forte, estamos juntos.

Eliane”

**

Depois de ler tanta angústia expressa em tão poucas linhas, que mais eu poderia dizer?

Força, Eliane, aguenta firme aí porque o mundo precisa conhecer esse massacre de gente, bichos e matas que está acontecendo na Amazônia.

Te cuida, mas não desanime.

 

Abração,

 

Ricardo Kotscho

 

14 thoughts on “Eliane Brum envia SOS de Altamira ao Balaio: a matança continua

  1. Kotscho, lendo o texto, me fez lembrar o diálogo com um bolsonarista, durante um churrasco em minha casa, meses antes da eleição. Por ser muito próximo, o bolsonarista em questão não se acanhava em fazer arminha, e repetir as estultices do inominável, não havia argumentos que o fizesse aceitar algo diferente do que acreditava ser a solução para todos os males do país, e eliminação dos petralhas esquerdistas. Disse a ele o que penso, em 1964 bateu na trave, mas dia o Brasil tera que passar por um governo fascista e fazer o acerto de contas com seu passado, o que ele rebateu de bate pronto, também estamos ansiosos que este dia chegue.

  2. As pessoas também alertavam Chico Mendes.
    Ele respondia que precisava enfrentar a situação porque não havia outro jeito.
    Eliane deve acautelar-se, porque não há uma “força-tarefa” combatente da “corrupção ambiental”.
    Até porque a PF, a Receita e o MP ao talante do Ministério da Justiça não dispõem de nenhuma força-tarefa, nem de quaisquer ações cooperadas e combinadas para enfrentar a “corrupção ambiental” cujo epicentro é o próprio Ministério do Meio Ambiente.
    Blum, como Mendes, não deve ignorar os sinais que pairam sobre os marcados para morrer.
    Se há uma máfia extremamente poderosa, bilionária e com tentáculos em todos os ministérios, tal máfia é a máfia das madeireiras e mineradoras ilegais, que comandam o “cangaço verde”, sempre associadas ao narcotráfico amazônico e aos garimpeiros de quem são cúmplices e aliados no processo do controle dos territórios dos povos da floresta.
    Diferentemente de Kotscho, e ao contrário dele, o que tenho a recomendar a Blum é que saia daí rápido, procure apoiamento em organismos internacionais, defina e estipule com os jornais que se interessem pelo jornalismo investigativo amazônico uma estrutura profissional com proteção e segurança indispensáveis à tarefa.
    Se há algo que Blum não deve fazer é operar de forma voluntarista e isolada, porque servirá de carne fresca para os bicos dos corvos cevados pelos donos do poder amazônico, dentro do próprio setor público e, sobretudo, do setor privado.
    Cuidado, Blum. Muito cuidado.
    Não vale a pena, por mais digno que seja, o seu quixotismo magnificamente bem intencionado.
    Cuide-se. Já!

    1. Eliane, o q Netho disse é completamente verdadeiro. Assim como esposas maltratadas têm que tomar consciência de que o caso delas pertence à sociedade, você é pertencente à sociedade e, se for morta, muitos anos passarão antes que outra pessoa tome o seu lugar. Fora que viver nesse estresse tira a força e produz doenças, impedindo sua dedicação.

  3. Amigo Kotscho
    Os verdadeiros democratas estão de mãos atadas.

    Não há pra quem apelar.

    O desabafo de uma jornalista, sentindo-se impotente, nos deixa muito mal.

    Ela, corajosamente, sempre foi a esperança de um povo que começa a ser dizimado no desastroso governo fascista do capitão.

    Nas trevas, sempre há uma vela acesa para indicar o caminho.

    No dia seguinte ao da invasão da PUC, em São Paulo, tudo parecia perdido.

    Líderes estudantis estavam entre os cerca de mil pessoas presas pelo coronel Erasmo Dias.

    Diante das ruínas da PUC, autonomia universitária ferida, surge a luz na voz calma, forte e respeitada de dom Paulo Evaristo Arns.

    Sua denúncia ecoou em todo o planeta, que se horrorizou com o que estava acontecendo no Brasil durante a ditadura militar.

    Nesta escuridão atual há de surgir uma luz, uma voz de comando, como a de dom Paulo.

    E, mais uma vez, me aposso de uma frase do artigo do Kotscho;

    “Força, Eliane, aguenta firme aí porque o mundo precisa conhecer esse massacre de gente, bichos e matas que está acontecendo na Amazônia.”
    Ulisses de Souza

  4. Ao SOS de Altamira, ‘radicalizar com Bolsonaro’ é a resposta óbvia do post anterior, que não carece explicação e menos ainda expor-se razões, pois escancaradas e sabidas estão, e pior, perigosamente adiado, facilitando a missão da classe dominante em utiliza-lo para seus interesses, mesmo que angustiada pelo duplo risco do fio da navalha que o fortalece estabelecer imperial estado de exceção, se não reagir-se a tempo: um Saddam full até na prole.
    E ‘pacificar o Brasil’, o que vem a ser, Mestre?
    Novamente conciliar com a classe dominante, garantindo-lhes a segurança dos direitos da Casa Grande e as reformas do Posto Ipiranga, com concessão de migalhas à Senzala, visando juntos evitar-se que a república democrática lavajateira desmorone, com riscos às classes que hoje não os correm?
    Ué! Conciliação como essa, em condições melhores, não era o que o PT, quando governo, fazia com essa’gente de bens’ até considerarem que o Brasil com futuro, brotando, ameaçava o Brasil do passado que os garante e dessem o golpeachment que, para desassossego deles também, terminou em Bolsonaro ‘presidente’?
    ‘Pacificar’ o Brasil é manter a desigualdade, o atraso e a violência que garante essa anacrônica classe dominante, sem o ‘bodenaro’ na sala? É isso?
    Pois ‘RADICALIZAR’ com Bolsonaro, não é fazer o que desejam, apontar-se ‘dedos’, ódio e violência como ‘eles’, e sim como ensinam, Ghandi, Mandela e extensa procissão histórica nessa linha, disponíveis a inteligência dos que sabem ‘o que a vida quer da gente: CORAGEM’, a única defesa que diante da barbárie permite-nos a possibilidade do amanhã digno e civilizado.

    1. Belíssimo comentário, caro Dias. Mas o fato concreto é que até agora ninguém topou “radicalizar” com Bolsonaro, que continua destruindo o país impunemente.
      Não basta querer, tem que criar as condições para um grande movimento popular capaz de enfrentar esse desastre, como foi feito no final da ditadura militar.
      Ali não se radicalizou, mas se uniram todos os democratas contra o inimigo comum. E só Lula é capaz de fazer isso, mas não pode ser uma ação só do PT.

      1. Concordo, urge pressão acima até que as lideranças mexam-se em direção de criar-se movimento único, com comando centralizado, suprapartidário, ecumênico, com nome, cor e organização/comunicação descentralizada, via redes sociais, interligando em cadeia todos os chamados ‘blogs sujos’ e quem mais vier, para construção, continuidade e crescimento, do movimento para resgatar o Brasil.
        O primeiro ato não deve ser o único, para marcar e organizar o lançamento no TUCA, com discursos de praxe dos que hoje pouco mexem-se, a não ser para ir ao único ato no TUCA, e sim o primeiro de outros tantos para encaminhar a construção e a continuidade do movimento, até com atos no TUCA se necessários.
        O Movimento na rede é a via para botar o Movimento na rua.

        1. É isso aí, Dias: primeiro é preciso organizar o movimento de resistência junto com todas as lideranças democráticas e a ajuda das redes sociais, para depois colocar o bloco na rua.
          Fora isso, é falar com as paredes, ou seja, só fazer discurso para o público interno.

  5. Como não calou fundo, “Kotscho, meu amigo tão querido (e valente!), talvez “Fuga”, de Fernanda Torres, ontem na Folha, faça calar por aqui, Mestre, a compreensão do óbvio e/ou o silêncio do manifesto do álibi da garantia.
    Seguem excertos:
    “Quem não luta adota os valores do inimigo – e os de Hitler eram inaceitáveis” (sobre a geração de Camus)

    “(…) Camus fala de ontem, mas parece o agora.” “”(…) Aquele que quer dominar é surdo. Diante dele, é preciso lutar ou morrer. Por isso os homens de hoje vivem no terror.””

  6. Organizem ,urgente, uma força tarefa do bem e expulsem estes canalhas da região. Tem que ser um grupo de homens corajosos e armados. Há que separar os homens dos meninos! Até quando vamos ficar inertes?
    É preciso uma mulher de coragem, para que os covardes se levantem?

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