13 de dezembro de 1968, redação do “Estadão”: começava a longa noite do AI-5

13 de dezembro de 1968, redação do “Estadão”: começava a longa noite do AI-5

Era menino ainda, mal tinha completado 20 anos, e entrara no jornal no começo do ano anterior.

Mais jovem repórter de um dos maiores jornais do país, era aluno da USP e fazia a cobertura dos confrontos quase diários dos estudantes com a polícia.

No começo de outubro de 1968, uma dessas batalhas durou 12 horas e se espalhou pela cidade.

Jornalistas também eram presos e espancados. Quando eu tentava defender uma estudante, PMs atiçaram um cão pastor contra mim e levei uma mordida na perna.

Assim que cheguei ao jornal, formou-se uma rodinha à minha volta.

Até Júlio de Mesquita Neto, o dono do jornal, quis saber o que estava acontecendo.

“Por que esse menino foi se meter com a polícia?”, queria saber.

Acho que foi nessa cobertura que caiu a ficha. Até então, eu era o que se podia chamar de “jornalista alienado”, muito mais interessado em ver os jogos do meu São Paulo e aproveitar a noite paulistana, muito efervescente naquela época.

Chico Buarque, com quem eu havia estudado no ginásio do Colégio Santa Cruz, também era um jovem que estava começando a carreira e dava algumas canjas nos barzinhos da Galeria Metrópole, na avenida São Luiz.

O pior da ditadura ainda estava por acontecer, sabíamos todos, como eu conto no meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto – Uma vida de repórter” (Companhia das Letras).

Na noite de 13 de dezembro de 1968, eu estava na redação terminando de escrever uma matéria, quando todo mundo correu e se aboletou em torno da mesa de Clóvis Rossi, o chefe de reportagem.

Na madrugada daquele dia em que o marechal Costa e Silva editou o Ato Institucional Nº 5, o principal editorial do jornal, na página 3, trazia o premonitório título “Instituições em Frangalhos”

Relato no livro:

“Informado por algum dos vários colaboradores do regime infiltrados na redação, o delegado Silvio Correia de Andrade, da Polícia Federal, invadiu a oficina que dava para a rua Martins Fontes, e gritou a ordem:

“Parem as máquinas!”.

Em seguida, determinou aos policiais que o acompanhavam a apreensão de todos os exemplares já prontos para a distribuição.

Pela primeira vez, desde o golpe militar, o “Estadão” deixara de circular.

Logo cedo, os diretores Julio Neto e Ruy Mesquita tinham ido se queixar ao governador Abreu Sodré, um amigo da família nomeado para o cargo pelos militares.

Comunicaram-lhe que o jornal não mudaria sua linha editorial, agora de oposição aberta ao regime, que haviam ajudado a implantar, em 1964.

No começo da noite do dia 13, dois policiais à paisana da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo chegaram à redação para “examinar o noticiário político”.

Era o início oficial da censura prévia.

No silêncio repentino do ambiente sempre barulhento, destacava-se a voz grave do marechal no rádio, que não deixava nenhuma dúvida nas suas palavras, ao detalhar as medidas previstas no Ato Institucional Nº 5.

O Brasil entrava no quinto ato. Era um golpe dentro do golpe _ a ditadura total, sem disfarces, com mais cassações de mandatos, fechamento do Congresso Nacional e fim das liberdades e dos direitos individuais, começando pela censura prévia.

Ao recordar esse episódio muitos anos depois, Oliveiros Ferreira, o chefe da redação, me contou que Carlão (Luiz Carlos Mesquita, um dos diretores mais nosso amigo), só se zangou quando um contínuo serviu café aos censores.

Voltei para a minha mesa e continuei a escrever, como se nada estivesse acontecendo.

Professor da USP, estudioso dos assuntos militares, Oliveiros Ferreira, previu um longo e feroz período de ditadura”.

***

É esse Brasil tenebroso, de dedo-duros, censores e torturadores, que espalhavam o terror e o medo, não só nas redações, mas por todo o país, que o ex-tenente Jair Bolsonaro, reformado como capitão pelo Exército, aos 33 anos, quer trazer de volta, 51 anos depois.

Se ele ameaça até colocar ministros corruptos no pau-de-arara, pode-se imaginar o que fará com o resto da população que não segue as ordens dele.

E ainda tem muita gente no Brasil ao lado desse capitão, cada vez mais enfurecido, querendo ver o circo pegar fogo.

Já não sou mais um menino para correr dos cachorros da polícia e temo a história se repetir _  ao mesmo tempo, como farsa e como tragédia.

Quem diria que no dia 13 de dezembro de 2019, uma sexta-feira, ainda teríamos gente do governo defendendo a volta do AI-5.

É muito assustador! Só quem viveu aquela época sabe os riscos que estamos correndo nas mãos desses alucinados saudosistas da ditadura.

Eles não estão brincando. Parece que essa longa noite nunca acaba…

Bom final de semana a todos, se possível.

Vida que segue.

 

7 thoughts on “13 de dezembro de 1968, redação do “Estadão”: começava a longa noite do AI-5

  1. Oliveiros Ferreira é autor da frase: “A Polícia para os Pobres. A Justiça para os Ricos”.
    O texto vai ao encontro do que usualmente repetia aqui quando o processo eleitoral de 2018 ainda estava em curso e não havia vencedores. A minha tese, ora confirmada, era a existência de uma “candidatura militar” contra todas as “candidaturas civis”.
    E de que a população acabaria rejeitando a “velha política civil” para abraçar a “nova ditadura” encarnada no projeto militar-miliciano de poder.
    A única possibilidade de derrotar tal contubérnio de forças bizarras sob o manto do autoritarismo e da força bruta esvaiu-se quando Lula rendeu-se aos algozes e adotou a tática política de dirigir a disputa eleitoral dentro do cárcere. Uma estupidez colossal.
    As pesquisas confirmam o pior dos mundos: a direita e a extrema-direita têm bala na agulha e cacife na mesa para se conservarem no poder pelos próximos 16 anos.

  2. Muito interessante o texto, que nos traz belas informações sobre aquela noite tenebrosa, principalmente para aqueles que não viveram naquela época dos anos de chumbo, como ele é conhecido nos meios politicos.
    Agora, tirando algum desses imbecis de plantão que muitas vezes sequer sabem o que estão falando, caso do Zero um, não vemos qualquer motivo para nos alarmar sobre a repetição de fatos identicos.
    Mesmo que o presidente Bolsonaro se atrevesse a utilizar qualquer medida incompatível, temos a certeza que ele não terá qualquer apoio dentro das forças armadas, nem mesmo do circulo de militares graduados que fazem parte do seu governo.
    Podemos resumir tudo isto como uma BRAVATA, assim como tinhamos quando o PT era governo e se diziam que aqui seria implantado o comunismo. Definitivamente não há aqui espaço para nenhum nem outro aventura mais audaciosa nem para a direita, nem para a esquerda

  3. Sr. Kotscho, estamos “maus” mesmo.
    Papai Noel fazendo “arminha” junto com o Boçalnaro, que festeja o aumento do preço da carne pois assim o “agronegócio está lucrando”, e se alguém disser a ele que o povo não está podendo consumir o produto, a Maria Antonieta de calças responderá: “Ah, então que comam brioches”. E alguém precisa dizer ao sr. Messias para parar de mentir.

  4. Terrivel.
    Mas clarissimo para todos: os brasileiros tinham só duas alternativas e não havia um terceiro time para torcer. Apenas havia os que se refugiavam no fertil campo das piadas que corriam soltas (mas em voz baixa) sobre a grossura e a, vá lá, insipiência do gal Costa e Silva.
    Vemos agora que Costa&Silva era um refinado sábio perto do se vê hoje no planalto.
    E durou mais 16 anos.

  5. O guarda da esquina (Royalties para o jornalista Sebastião Nery).
    “Pedro Aleixo era o jovem presidente da Câmara Federal, em 1937, quando Getúlio fechou o Congresso e implantou o Estado Novo. Ele denunciou o golpe, pegou a pasta e voltou para Minas para advogar e ensinar.
    Em dezembro de 1968, Pedro Aleixo era o vice de Costa e Silva. O Brasil fervia como hoje. Os estudantes, comandados por quatro jovens (Luis Travassos, presidente da UNE, José Arantes, vice, Vladimir Palmeira no Rio e José Dirceu em São Paulo) ganhavam as ruas em passeatas colossais. E a Câmara negou licença para processar o deputado Marcio Moreira Alves.
    Numa reunião tensa, o ministro da Justiça, Gama e Silva, o inefável Gaminha, tirou da pasta um dos mais brutais textos que o Brasil já
    leu: o AI-5. Magalhães Pinto, Delfim Neto, outros, ficaram calados. Jarbas Passarinho mandou “às favas os escrúpulos”. Costa e Silva perguntou algo sobre o texto. Veio a voz rouca e solene de Pedro Aleixo:
    – Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o País. O problema é o guarda da esquina.
    Um silêncio pesado baixou sobre a longa mesa do Palácio Laranjeiras”.
    Escrevo eu: E os guardas da esquina capricharam. Não decepcionaram.
    E o vice Mourão diz que o AI-5 “não foi tão ruim assim, pois não se cassava ou se afastava alguém todo dia. Sobre tortura e mortes, nada disse.

  6. Amigo Kotscho,
    Peço permissão para também relatar um caso de conscientização política “atrasada”, pois aconteceu comigo.
    Os caminhos são difíceis, tortuosos e demorados.
    Em 1968, no dia fatídico do AI-5, eu gerenciava em Rancharia loja de uma grande rede de eletrodomésticos. Portanto, tinha dinheiro no bolso para as saídas de fins-de-semana.
    Vida bela. Muitas garotas e bebidas. Enquanto isso, jovens da minha idade enfrentavam a ditadura militar, numa luta inglória.
    A família era de classe média. Meu pai, político da Arena. Vereador ligado ao grupo de Paulo Maluf.
    Frequentava o primeiro ano do curso de Economia, da Faculdade de Marília. Curso vago por comodidade.
    Alienado político, aceitava professores enaltecerem o “milagre econômico” da ditadura militar.
    O acaso veio com o ingresso no Banespa. Fui trabalhar em São Paulo, disposto a seguir carreira de bancário.
    Um colega de banco foi fazer inscrição ao vestibular do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em 1971. No prédio da avenida Paulista, ele insistiu para que eu fizesse a minha inscrição. Meio contrariado, fiz.
    Em outubro de 1975, sete anos da promulgação do AI-5, entrei na redação da Folha de S.Paulo para me apresentar ao jornalista Perseu Abramo. Havia sido escolhido em uma vaga para estagiário.
    Dias depois frequentava a sede do Sindicato dos Jornalistas em reuniões de protesto pela morte de Vladimir Herzog. Foi aí que iniciei minha militância política.
    Meu pai tinha orgulho do filho jornalista, na Folha de S.Paulo; mas desgosto por ele ter trilhado um caminho político oposto ao seu.
    A minha politização foi tardia, mas compensada pelo mestre Perseu Abramo, que me ensinou a ética na profissão e conscientização política.
    São mais de 40 anos nessa luta. Perdi empregos, dinheiro, serviços. Muitos processos, mas ainda estou na luta. Faço o que posso.
    Sou indignado por profissão.
    Por isso, mais uma vez peço permissão, agora para reproduzir dois parágrafos do seu texto:
    “É esse Brasil tenebroso, de dedo-duros, censores e torturadores, que espalhavam o terror e o medo, não só nas redações, mas por todo o país, que o ex-tenente Jair Bolsonaro, reformado como capitão pelo Exército, aos 33 anos, quer trazer de volta, 51 anos depois.”

    “É muito assustador! Só quem viveu aquela época sabe os riscos que estamos correndo nas mãos desses alucinados saudosistas da ditadura.”
    A alienação política, principalmente da juventude e do povo pobre, assusta os que lutaram pela democracia.
    E o que é pior.
    Há algum “Joseph Goebbels” por trás do capitão.

    Ulisses de Souza

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