Diálogo de surdos: esquerda e direita falam só para bolhas de convertidos

Diálogo de surdos: esquerda e direita falam só para bolhas de convertidos

Em entrevistas e discursos, é sempre a mesma coisa, sem novidades: esquerda e direita se equivalem na mesmice das mensagens, falando para os já convertidos.

Como os dois lados têm o apoio de um terço do eleitorado cada um, segundo as pesquisas, sobram 40% que estão esquecidos e já nem prestam mais atenção.

A maioria silenciosa, que decide eleições, apenas assiste bestificada a esse diálogo de surdos.

Nas redes sociais, todos os levantamentos mostram um massacre da extrema-direita, cada vez mais radicalizada: são idiotas falando para idiotas empoderados pelo bolsonarismo.

A esquerda está numa encruzilhada, e não se trata só de ter os mesmos recursos humanos, tecnológicos e financeiros para montar estrutura semelhante.

O problema é o conteúdo: para lutar com as mesmas armas, a esquerda analógica teria que abrir mão de princípios e partir também para a baixaria, que é o que rende cliques e audiência, alimentando os algoritmos da selva da internet.

É impossível concorrer no mesmo nível com Bolsonaro, Weintraub, Araújo, Salles, Damares e esse bando todo que não tem o menor compromisso com os fatos e com o país.

Mesmo que quisesse, onde a esquerda iria encontrar similares para rebater as atrocidades e barbaridades dos atuais ocupantes do poder?

Bolsonaro já avisou que é preciso destruir tudo o que está aí para começar a construir do zero uma nova sociedade, e a sua equipe de vândalos sem controle cumpre esta missão à risca.

Sim, trata-se de inominável loucura, mas eles fazem isso com método, distribuindo os papéis para cada um, e obrigando todo mundo a falar deles o dia inteiro.

Já me propus várias vezes a não falar mais do capitão e seu desgoverno, mas é impossível.

Por suas palavras e atos, eles decidem nossas vidas, criam uma nova realidade, mudam leis a seu bel prazer, fazem-nos reagir às ações mais insanas para acabar com direitos e implantar uma nova ordem, baseada no fundamentalismo político, miliciano e religioso.

A esquerda estava acostumada a polarizar com o PSDB, que também é analógico, e está perdido em seus labirintos, com prazo de validade vencido.

Agora a disputa não é mais feita em comícios, palanques e atividades partidárias à luz do dia, mas nos subterrâneos ainda desconhecidos da guerra virtual.

As lideranças de oposição estão com os mesmos discursos de antes das eleições e do tsunami provocado pela assunção da extrema direita sem partido.

Dividida e sem novas propostas para tirar o Brasil do buraco, a esquerda alterna-se entre o vitimismo e o salvacionismo, incapaz de apresenta qualquer nova proposta, uma ideia original que seja, para tirar o país do buraco e devolver esperança ao povo.

Dia após dia, é sempre mais do mesmo, cada um gritando para um lado, e daqui a pouco vamos completar um ano dessa insanidade, em marcha batida para o caos econômico e social.

Um dos mais lúcidos e raros pensadores brasileiros, o teólogo e filósofo Leonardo Boff, em artigo publicado hoje no Brasil 247, pergunta-se, perplexo:

“O que virá depois do conservadorismo atroz da direita? Será mais do mesmo? Mas isso é muito perigoso, pois podemos ir ao encontro de um armagedom (o fim do mundo bíblico) ecológico-social pondo em risco o futuro comum da Terra e da Humanidade”.

Parece que ninguém mais está parando para pensar nesta desgraceira que avança sob nossos olhos.

Se a Amazônia bate recordes de desmatamento e queimadas, o napoleão do Planalto limita-se a dizer que esse é um problema “cultural”, e não há o que fazer para parar as moto-serras.

Se as investigações sobre o assassinato de Marielle estão chegando ao seu filho Carlucho, o 02 chefe da milícia virtual, o capitão tem a coragem de dizer, como fez hoje:

“Parece que à esquerda não interessa resolver o caso Marielle. Interessa continuar usando a morte dela em causa própria”.

O que dá para responder a uma imbecilidade dessas?

Mas também não dá para ignorar o método existente nesta loucura, repetindo discursos de antigamente, que não comovem as bolhas atômicas do bolsonarismo, nem mobilizam os descontentes.

“Estamos imersos numa angustiante crise civilizatória que ganha corpo nas várias crises (climática, alimentaria, energética, econômico-financeira, ética e espiritual”, escreve Boff.

Que caminhos a esquerda tem a propor para sairmos de todas essas crises, além de combater as injustiças e iniquidades praticadas pela Lava Jato?

Num ponto, direita e esquerda se encontram: ao olhar para trás e evocar o passado, dos tempos da ditadura ou da democracia, respectivamente, num festival de nostalgia que não deixa espaço para discutir o futuro.

De Lula se espera que nos próximos pronunciamentos apresente ao PT, no Congresso Nacional do partido neste final de semana, em São Paulo, as bases de um projeto nacional, voltado às novas gerações, para manter acesa uma chama de esperança.

O Brasil não merece ficar nas mãos desses trogloditas saídos das tumbas da ditadura.

Vida que segue.

 

21 thoughts on “Diálogo de surdos: esquerda e direita falam só para bolhas de convertidos

  1. Caro Kotscho:
    você tem razão: a esquerda está perdida. Não tem nem discurso, está mais fragmentada do que antes, parece ter desistido ante um tsunami de atrocidade social imposto por um grupo muito em articulado.
    Abraços,
    josé maria

  2. Prezado Kotscho: A recente notícia veiculada pelos jornais de que o presidente Bolsonaro quer transferir os ossos das valas de Perus para Brasília (de um cemitério clandestino da extensa obra da ditadura militar iniciada em 1964) parece apontar para a previsão de Nostradamus sobre a vinda de um terceiro anticristo, depois de Napoleão e de Hitler, e que, para surpresa de muitos, estaria aqui mesmo no hemisfério sul. Essa macabra notícia nos leva a pensar em mais uma ação canalha desse governo para, salvo melhor juízo, destruir as provas e a memória dessa triste época, agora pelas mãos de um anticristo jabuticaba. Isso revela outra linha de ação desse governo fascista, que instalou um golpe muito bem engendrado e que sustenta certa lógica quando vem apresentando, já há algum tempo, vários sinais escabrosos no sentido de acabar de vez com estado brasileiro. Vejamos, então, alguns desses sinais. Quem deu a senha que iria abrir as pernas para a mineração? Aí aconteceu a tragédia de Brumadinho. Foi por acaso? Quem deu a senha que iria abrir as pernas para a grilagem de terras? Aí aconteceram as queimadas criminosas na Amazônia. Foi por acaso? Quem deu a senha que iria abrir as pernas para os interesses conservadores, predatórios e eleitoreiros do sudeste e sul brasileiro? Aí aconteceu a sabotagem com o derramamento de óleo nas costas do nordeste brasileiro. Foi por acaso? Esse governo federal tem condição moral e política para governar por mais três anos? Não seria melhor uma reforma política já, via Congresso, com cláusula de barreira para os partidos, mandatos de cinco anos, sem reeleição, em uma eleição geral para todos os cargos eletivos, coincidindo com o calendário eleitoral de 2020? Isso seria sonhar demais ou vamos ter que ir protestar nas ruas, munidos dos nossos míseros estilingues do amor? Obviamente, o que antecederia a essa espinhosa e difícil missão, via o Congresso, seria o início do processo para a cassação da chapa presidencial militar eleita que cospe todo o dia, sem nenhum pudor, seus ódios viscerais sobre a constituição brasileira. Será que temos outra saída?

  3. O Brasil saiu dividido da última eleição presidencial. Era tudo que a direita fascista e seu séquito digital queriam. Rotularam um lado à esquerda e outro à direita, mas esse arco permite muita acomodação no buraco negro existente entre os dois polos políticos.
    Considerar o governo do capitão como sendo de direita é simplório demais. Ele, os filhos, os subservientes e milicianos executam um projeto fascista, de extrema-direita.
    Lula livre levou mais desânimo à esquerda, que acreditava em seu messianismo para salvar a democracia e levar multidões às ruas.
    O ex-presidente aglutina multidões de seguidores ouvintes, principalmente no nordeste. É a voz da esquerda, mas segue maculada pela pecha de “ladrão” repetida abusivamente nos fakes espalhados pelo exército fascista, muito atuante nas redes sociais. A voz de Lula não ecoa na mídia brasileira.
    O grau de insanidade de boa parte da população parece irreversível. É um campo fértil para pastores, a “Jim Jones”, provocarem um suicídio cultural. A escalada evangélica já registra exemplos bem sucedidos na política. É mais do que um alerta.
    No seara religiosa não escapa nem a Igreja Católica, principalmente quando seus fiéis deveriam estar ao lado das propostas do Papa Francisco. O tumulto em uma missa que, no Rio, comemorava o Dia da Consciência Negra, é um exemplo. O grupo que tentou impedir a celebração era formado por jovens.
    O cenário não é dos melhores. Os sindicatos foram empastelados pela burocracia. Os movimentos sociais encolheram e serão dizimados aos poucos. MST, MSTS, UNE começam a dar murros em ponta de faca. Isolados, movimentos negros, indígenas, LGBT e de mulheres cumprem apenas o papel de denunciar as atrocidades cometidas diariamente contra essa população.
    A esquerda deve estar à espera de um fato dentro da crise econômica que possa levar multidão às ruas para protestar contra governo. Vai esperar em vão!
    A direita fascista sabe fazer política. Está diariamente nos noticiários com as suas tresloucadas maluquices impostas pelo governo do capitão.
    A esquerda precisa se reinventar e se aproximar do centro, do buraco negro da política brasileira.
    Um bom momento é a eleição municipal do próximo ano e a melhor caixa de som seria fazer um número razoável de prefeitos e vereadores de esquerda. As vozes desses agentes políticos, mesmo que equivocadas, ressoam verdadeiras. É só não errar e levar à comunidade uma política diferenciada em defesa daqueles que costumam passar quatro anos na filantropia.
    O PT, por exemplo, teve sucesso em raras prefeituras paulistas. Em cidades grandes e médias. Avassaladores, o PSDB e MDB dominam até hoje a maioria das prefeituras, embora os partidos enfrentem um ostracismo nunca visto.
    Nas eleições presidenciais, o capitão venceu na maioria dos municípios paulistas, com índices acima de 70% dos votos.
    As exceções foram raríssimas.
    No Pontal do Paranapanema, Haddad venceu nos pequenos municípios de Sandovalina, Marabá Paulista e Teodoro Sampaio. Resquícios da luta pela terra. Neles há assentamentos agrários.
    Os responsáveis foram eleitores de mãos calejadas, moldadas na peleja, cujos ouvidos podem ser maculados com mensagens fascistas. Precisam de apoio político e organização, e não de panfletos.
    A reinvenção da esquerda deve começar pelas pequenas coisas.

    Ulisses de Souza

  4. Mas o isolamento na Internet tem motivos diferentes. Eu acredito que a graça está em enfrentar quem pensa diferente. E a maioria do pessoal mais à direita é igual, tanto que você pode entrar nos seus sites e dizer o que quiser. Na esquerda a censura é a norma. O máximo que se tem é, como aqui, uma situação em que alguns comentários são liberados e outros não.

    Quem receia argumentos contrários é porque, mesmo inconscientemente, admite a fragilidade dos seus. Assim, o esquerdista em geral se refugia na sua bolha e foge dos ambientes que não pode controlar, deixando-os aos adversários.

    Outro motivo para o predomínio da direita é numérico. Para interagir nas redes é necessário ter Internet e saber escrever. E o petismo talvez tenha 30% dos votos, mas estes se concentram na base da pirâmide, onde até o analfabetismo é um problema. Do ensino fundamental para cima a maioria é antipetista.

  5. Caro Ricardo Kotscho

    O Lula sinaliza pela primeira vez o desejo de não se candidatar em 2022.
    Na entrevista que concedeu ao The Guardian, o ex-presidente Lula indicou que pode não ser o candidato do PT à Presidência da República em 2022, mesmo que recupere seus direitos políticos. “Em 2022 eu estarei com 77 anos. A igreja católica, com seus 2.000 anos de experiência, aposenta seus bispos aos 75”, disse.
    Se isso acontecer, vai ser um tapa de “luva de pelica” na cara do “cabeça quente” de Ciro Gomes (PDT)
    Tenha uma ótima tarde!

  6. Caro Ricardo Kotscho

    Estão comentando nas redes sociais, que depois que o Partido a ser criado por Bolsonaro, o Aliança para o Brasil, adotou o numero 38 (sugerindo um três oitão) para sua legenda, os internautas estão sugerindo uma música de Bezerra da Silva para a comemoração da aprovação da legenda: “Você com um revólver na mão é um bicho feroz, sem ele anda rebolando e até muda de voz”. É rir para não chorar!
    Sem armas nas mãos de civis, é vida que segue…

  7. Foram raras as vezes em que li um artigo com tamanha lucidez e agudeza. Foi no âmago do enfrentamento do que estamos vivendo nos dias atuais, e como a esquerda patina com a era da pós-verdade, sempre tendo como referência a era industrial, em que ainda não imperava o reinado das redes sociais e as nuances que ela traz. Muitos aplausos!! Brilhante!

  8. Leonel Brizola dizia que Fernando Collor de Mello era filhote da ditadura (ou ditabranda, como diria a Folha). Mas ela teve outras crias: Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, os militares ministros em seu entorno, e netinhos também… como essa praga se prolifera!!!!

  9. Seu texto é muito bom antes dos 4 ou 5 últimos parágrafos. A partir dali há uma recaída. Erros graves cometidos pelos três poderes da República e pelo empresariado acavalados na corrupção precisam ser analisados com transparência. Desse debate pode surgir um novo acordo nacional. Como está, no “me engana que eu gosto” caminhamos para a polarização de quem não une com quem desune. Opinião pessoal.

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