Moro vira bate-pau do capitão: Lula não pode entrar nessa dividida

Moro vira bate-pau do capitão: Lula não pode entrar nessa dividida

No Fantástico de domingo, a Globo mostrou qual é o jogo: colocou na sequência os ataques de Bolsonaro e Lula à emissora para mostrar que os dois são iguais e ela é isenta.

Daqui para a frente, como já fez no fim de semana, a tendência da imprensa é mostrar que os dois são igualmente radicais e perigosos e a salvação do país é o “centro democrático” pregado por FHC, Doria, Huck e companhia bela.

Lula não pode entrar nessa dividida porque é muito mais que eles todos juntos e agora pode falar diretamente com quem interessa: sua excelência, o eleitor brasileiro, sem dar bola para a torcida das milícias virtuais.

É natural e humano que em seus dois primeiros discursos o ex-presidente desabafasse toda sua indignação, após passar 19 meses preso injustamente, graças a um conluio da Lava Jato com a mídia.

Agora, o que todo mundo espera de Lula é apontar caminhos para tirar o Brasil do buraco e reacender a esperança.

Bolsonaro já escalou o ex-juiz que virou ministro da Justiça para bater em Lula, enquanto o capitão e se resguarda como “grande estadista” que pensa ser.

O que eles querem é exatamente isso: que o ex-presidente morda a isca e radicalize nos seus discursos, para atiçar os militares e seus fanáticos seguidores.

Numa operação casada, articulam no Congresso a volta da prisão em segunda instância, que foi derrubada na semana passada pelo STF.

Depois de transmitir ao vivo na Globo News os dois discursos após a sua libertação, já apagaram Lula do noticiário.

Todos os comentaristas já foram convocados para criticar a “polarização” e montar o jogral “contra a impunidade”.

É isso que vai dominar os noticiários nas próximas semanas, como fizeram na campanha pela aprovação da reforma da Previdência.

Correm contra o tempo antes que Lula consiga novamente mobilizar a oposição e formar uma frente democrática de resistência ao arbítrio e à perda de direitos.

O jogo é pesado e não adianta alimentar ilusões.

Quem derrubou Dilma e elegeu Bolsonaro, ou seja, a grande aliança do “centro” com a extrema direita, vai se unir novamente para evitar que o PT catalize a insatisfação popular já nas eleições do ano que vem.

Os ventos mudaram. Fracassaram olimpicamente os protestos do fim de semana contra o STF e Lula, convocados pelos movimentos MBL e Vem Pra Rua, aquela mesma turma dos patos amarelos que marchou contra Dilma e bateu panelas contra a corrupção.

Lula já esta outra vez com a agenda lotada e marcou sua primeira viagem ao nordeste no próximo domingo, para participar do Festival Lula Livre no Recife, que já estava programado quando ele ainda não tinha saído da prisão.

Segundo a direção do PT, como informa o Painel da Folha, “a expectativa é que o evento seja transformado em um ato de comemoração pela liberdade do ex-presidente e que ele aproveite o palco para agradecer e falar ao povo nordestino”.

Se o governo quer guerra, a melhor resposta de Lula é fazer uma grande festa popular no Recife.

Afinal, foi lá, na campanha de 2002, numa conversa ao pé do palanque, que um petista anônimo lhe falou para ser mais “Lulinha, paz e amor”, em vez de atacar os adversários.

Lula gostou da ideia, amenizou seu discurso, e foi eleito presidente pela primeira vez.

Chega de tristeza, a esperança voltou.

Vida que segue.

 

21 thoughts on “Moro vira bate-pau do capitão: Lula não pode entrar nessa dividida

  1. Será preciso combinar com os russos e os hunos.
    Sem falar que a Polícia de Moro e a Receita do Ipiranga já devem estar realinhando os mandados de busca e apreensão relacionados às centenas de anexos das colaborações estimuladas pelos delegados federais. Nessa hora sobram esbirros e tartufos ansiosos por prestarem serviços sabidamente recompensados, conforme a rápida ascensão funcional a altos cargos da burocracia pelo entorno dos burocratas que gravitavam na órbita lavajateira.
    Lula será um alvo ainda mais fácil porque de ora em diante estará mais exposto do que nunca.
    Não apenas ao fogo inimigo, mas também ao fogo dentro do campo de forças que imagina ainda ser o seu.
    Lula deixou de ser, depois do desastre dilmista e da prisão consentida, a unanimidade indiscutível que um dia logrou alcançar.
    Sua densidade eleitoral retornou ao patamar de 89, porém sem o bônus da vantagem moral que a bandeira da estrela vermelha portou: a ética na política.
    Um Velho barbudo já disse que, na segunda vez, a história se repete como tragédia.

  2. Ver a “saindo pela chaminé” e seguir em frente, sem acertar as contas com os carniceiros, até beira o incompreensível.
    A reportagem mereceria uma chamada destacada na primeira página. A Folha não o fez.
    Sinal da banalização dos tempos e da mediocridade das editorias.
    O Velho Frias teria feito a chamada destacada no lado esquerdo, primeira, no alto.
    Belíssima reportagem.
    Digna de uma página inteira.

    1. A frase do último brasileiro sobrevivente de Auschwitz continua reverberando noite madrugada adentro.
      A última lembrança…
      …”minha mãe saindo pela chaminé”…
      Alegria de viver depois disso chega a ser algo perto do ‘nonsense’.
      Talvez seja essa a razão de alguns definirem a loucura como uma espécie de alegria.
      Fica na boca a sensação inimaginável de se mastigar um rolo de arame farpado.

  3. A América Latina se tornou uma verdadeira panela expressão prestes a explodir.
    Ora para a direita, como na Bolívia. Ora para a esquerda, como no Chile.
    No Chile, a população saiu às ruas para reivindicar uma nova Constituinte.
    Na Bolívia, fascistas evangélicos tramaram o golpe em nome de Deus.
    No Brasil, a direita vai provocar o quanto puder o ex-presidente Lula a fim de oferecer pauta para a imprensa golpista, que tem mostrado o caminho que vai seguir.
    STF e Congresso terão papel importante nessa jogada, cujo resultado os militares de pijama, sequiosos, aguardam para sair cair da cama e procurar as armas e a farda.
    Enquanto isso há tucanos famintos, como sempre querendo bicar e ficar com o melhor pedaço.
    Lula sabe o que faz. O “Lulinha, Paz e Amor” não cabe mais em quem ficou quase 600 dias em uma solitária.
    Precisa, com rapidez, unir todas as tendências de esquerda e beliscar em volta no grupo da turma de centro esquerda.
    Caso contrário, o capitão-presidente e as milícias, inclusive a evangélica, podem usar a bíblia e em nome de Deus e baixar o pau sob a Lei de Segurança nNcional.
    Olho no bate-pau do capitão-presidente.
    Nunca é demais!
    Ulisses de Souza

  4. Se não derem certo as tentativas de pautar a prisão em segunda instância como emenda à constituição, diante de empecilhos do interesse de centenas de parlamentares escaldados, as falanges antipetistas já têm data marcada e momento acertado para devolver Lula ao cárcere. Quando ” In Fux We Trust” assumir a presidência do STF e Celso de Mello for substituido por um ministro “terrivelmente evangélico” e paladino dos justiceiros.
    Lula Livre da Silva até 2020.
    2021 são outros quinhentos e oitenta dias.
    Direita e extrema-direita mostraram que não brincam em serviço sujo.
    Lula e o PT não deveriam cantar de galo, porque a vitória pode ser parente de Pirro.

  5. Se Lula continuar inteligente como sempre foi, vai se concentrar em falar de assuntos importantes para o Brasil e deixar Bolsonaro e os filhos para lá. E do Moro só falar em relação aos processos contra ele, Lula. Desabafos demais podem se virar contra ele…

  6. Perfeito, Mestre.
    O suspeito moro, cada vez mais suspeito, e o bando lavajateiro, ficam por conta do STF e da Vaza Jato do The Intercept.
    O bolsomilicialaranjista fica por conta própria e dos rebentos Zeros, pois imbatíveis no quesito tiro, modalidade ‘no pé’, com a militância a repercutir a pirotécnica esbórnia e a questionar, ‘Cadê Queiroz?’ e ‘Quem matou Marielle?’
    Mas, além da harmonia e evolução, rumo a praça da Apoteose para congraçamento com a esperança de tantos, a globomarinho e a economia chilena do Posto Ipiranga, colada à responsabilidade do capetão, é missão exorcizadora de Lula.
    A globomarinho é câncer a devorar o país, portanto, prioridade máxima, pois se não anulada, o Brasil sem futuro não sai do atraso e a Mangueira não entra na Avenida para fecundar essa classe dominante xucra, engravidada pelo virtual falo imagético da globomarinho, com a hereditária semente da mediocridade, do patrimonialismo de estado e da dependência.

  7. A tese da polarização é obscena, muitas já disseram isto aqui. Polarização, se existir, tem duas variantes. por um lado, a barbárie representada pelo bolsono-queiroZene, que queima qualquer floresta e adversário na sua frente, pelo olavismo-a-jato, que limpa-e-apaga seletivamente. Por outro lado, muito ameaçada nos dias de hoje, há a civilização no seu oposto, com um lugar importante reservado também ao PT, que nunca ameaçou com uma Lei de Segurança Nacional socialista ou um AI-5 de esquerda. Um partido que, a despeito dos seus não poucos erros, incluiu sem nunca desrespeitar o moderno estado constitucional de direito.
    Outra polarização tem numa ponta a linha dura dos militares, alimentada por uma gororoba insossa: uma receita que une Samuel Huntington requentado, conversão tardia ao Olavismo e Banonninho com churrasco. Noutra ponta estão as Forças Armadas modernas, a quem desagrada profundamente esta celebração retrô da ditadura, a quem incomoda a aniquilação por nada da sua consistente imagem internacional anterior, angariada no compromisso com Direitos Humanos, na defesa da Constituição e na competência em missões de paz e de cooperação.

  8. Prezado Kotscho: É isso mesmo, como você bem disse, o “Lula não pode entrar nessa dividida” e deve trabalhar, com outros partidos da esquerda democrática, o PC do B, o PSOL, entre outros, para que “o PT catalize a insatisfação popular já nas eleições do ano que vem” junto com eles. Por enquanto é muito trovão para pouca chuva. Mas sabemos qual é o potencial da maldade do centro, da extrema direita, das grandes mídias familiares quando se juntam. Todo o cuidado é pouco. Vamos nos organizar. “O futuro pertence àqueles que se preparam hoje para ele.” (Malcolm X).

  9. Lula é um preso político recém libertado do estado paralelo de exceção, disfarçado de normalidade institucional; estado reforçado por uma eleição pouco ou nada limpa depois das revelações da vaza-jato. Só um caminho: exílio. Caso contrário, ele será sequestrado de novo por esta gente autoritária que nos faz passar vergonha no mundo, ou via uma mutreta como esta PEC ou via outro ardil que sem dúvida lançarão. Além disso, em alguns estados a PM não protegerá, como é devido, os deslocamentos, comícios, carreatas e outras formas legítimas de manifestação. Receio pela integridade física de Lula e dos manifestantes.

  10. Lula precisa ter um encontro secreto com PUTIN e XI JINPING em uma embaixada aqui no Brasil . Essa articulação mudaria os rumos da atual realidade, tanto na América Latina como no mundo. É só aproveitar A Nona Cúpula dos BRICS acontece no Brasil esta semana.

  11. Há muitos interesses na desestabilização da América Latina e muitos dispostos a colaborar em troca de um punhado de moedas. O Brasil corre grande risco. É fundamental usarmos mais a inteligência e menos a emoção. O jogo é pesado e não podemos nos dar ao luxo de errar. Lula sabe disso. Espero que todos os atores que o acompanham também.

  12. Eita, mestre, desejas a volta do “Lulinha paz e amor”? Há poucos dias atrás teve um post aqui mesmo contra o “excesso de diálogo” no Brasil e, na ocasião, achei que você concordava com a posição do Safatle…Mas só que não! O confronto não depende do Lula e sim do contexto histórico e cabe aos personagens inseridos neste contexto saber aproveitar o momento, algo que a Dilma não soube durante as manifestações de 2013. Espero que Lula tenha aprendido a lição e não me apareça amanhã de braços dados com alguns dos articuladores do golpe…

    1. Caro Cleibson Carlos, eu não desejo nada, não quero ter razão. Só quero ser feliz e ter um pouco de paz para não perder as esperanças.
      De política, quem entende é o Lula. Ele teve mais votos do que eu, como sempre me dizia…

  13. Há por aí uma discussão interessante: livre, Lula jogaria a lava-jato no colo de Bolsonaro. Livre e ainda mais incisivo o ex-presidente cimentaria de novo o anti-petismo, antes disso tão rachado (“quem diria”) que foi dar no PSDB ou foi bater na porta do programa Roda Viva.
    A hipótese de boa procedência merece escrutínio exigente. Descontada a loucura balbuciante de precaver-se como chefe de estado contra o fantasma do general melancia e o Deltan-meio-PSOL, valeria perguntar se em algum momento a lava-jato se descolou do Moro e se este gêmeo bivitelino de Bolsonaro algum dia teve luz própria? A lava-jato SEMPRE esteve no colo de uma alternativa pela (extrema) direita ao arco de centro-esquerda no poder por mais de uma década. Pensando ainda nesta operação, seu representante sênior e aposentado do MP confessou de público a adesão política. E os métodos, depois de uma fase inicial promissora, sempre foram aqueles de uma ditadura maquiada, que na sua esquizofrenia legitima a si mesmo por chegar ao poder pelas urnas ou chegar na carreira através de concurso.

  14. Império “milicial” em curso. Fora da carreira militar, se não pode ser Heleno ou Villas-Boas, pode ser outra coisa compensadora: Imperador, Napoleão da Barra. Não é conosco da esquerda, em sentido amplo, a bronca, é com o passado insepulto da interrupção de uma carreira militar lá atrás. A aliança com a linha dura do exército não visa proteger o país da imagem espelhada de um Chile convulso, dos comunistas e terroristas imaginários que povoam o cérebro da família imperial (sem Mourão por perto), visa isto sim reformar as Forças Armadas para devolver com juros uma suposta injustiça de antanho, é um acerto de contas ultradireitista com o passado. Refém desta fabulação o país tropeça em si mesmo.

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