Os 30 anos da queda do Muro de Berlim, o nazismo e a libertação de Lula

Os 30 anos da queda do Muro de Berlim, o nazismo e a libertação de Lula

Por acaso, se é que acasos existem, liguei a televisão na hora em que estava passando a reprise do primoroso programa do Pedro Bial sobre os 30 anos da queda do Muro de Berlim.

Impossível não se emocionar novamente com aquelas imagens e as entradas ao vivo do próprio Bial e de Sílio Boccanera nas primeiras horas da derrubada dos portões que separavam dois mundos.

Foram muitas emoções nas últimas horas desde que um juiz mandou abrir as portas da prisão em Curitiba onde Lula passou os últimos dois meses.

Era como se aquele pessoal da Vigília Lula Livre, que resistiu bravamente durante 580 dias à espera da libertação de seu líder, tivesse derrubado no fim da tarde de sexta-feira os muros do prédio da Polícia Federal que separavam o ex-presidente dos brasileiros.

No mesmo horário, 30 anos atrás, a invasão dos alemães orientais na Alemanha Ocidental marcava o fim da Guerra Fria e o mundo voltava a respirar com mais liberdade.

Um dia antes, eu tinha entrevistado o sr. Andor Stein, único brasileiro ainda vivo que escapou do Holocausto, depois de passar 13 meses no campo de concentração de Auschwitz, na Alemanha.

É incrível a alegria de viver deste homem de 91 anos, que preza a liberdade acima de tudo, ainda trabalha e viaja pelo mundo, saboreando cada dia como se fosse o último.

A matéria sobre Stern deverá ser publicada nesta segunda-feira na Folha, dia em que ele será homenageado no Memorial do Holocausto, no Bom Retiro.

E o que tem a ver o Muro de Berlim, a libertação de Lula e o milagre da sobrevivência do judeu que foi jogado no vagão de carga de um trem e ficou uma semana sem comer até que as portas fossem abertas?

O que une estes três episódios é o próprio sentido da vida e a certeza de que nunca se pode perder a esperança.

Quando trabalhei como correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha Ocidental, no final da na década de 70 do século passado, ninguém poderia imaginar que dez anos depois não haveria mais Muro de Berlim, e a Alemanha voltaria a ser uma só.

Até outro dia, parecia impossível que a Justiça fosse libertar Lula em respeito à Constituição e me acharam ingênuo por prever que o STF tomaria esta decisão com o voto de Minerva de Dias Toffoli.

Depois de ver parte de sua família desaparecer pelas chaminés das câmaras de gás do campo de concentração, o jovem Stern, de 17 anos, precisava ter um fio de esperança para não enlouquecer, como aconteceu com tantos outros prisioneiros.

E hoje ele continua dirigindo seu carro por onde quer, sem pedir licença a ninguém, de vidros abertos, com a alegria de um jovem de 18 anos que acabou de tirar a carteira, saboreando a liberdade.

Só quem já perdeu a liberdade, nem que fosse por um único dia, e passou fome por dias seguidos, como aconteceu com tantos alemães na Segunda Guerra, com Stern em Auschwitz e depois com Lula, primeiro na ditadura e agora no Brasil quase democrático, sabe dar mais valor aos pequenos prazeres da vida _ sentar com os amigos no boteco da esquina para tomar uma cervejinha com calma, por exemplo.

Foi o que fiz na noite de sábado, para celebrar a liberdade de um amigo injustamente condenado e preso, que agora podia de novo estar com a sua família e a nova namorada.

Fui logo dando um abraço no dono do bar, o seu Zé, cearense de boa cepa:

“Não te falei que o Lula iria sair da cadeia? Você duvidou…”

No que eu falei, dois sujeitos mal encarados, que tinham vindo do protesto da avenida Paulista, onde xingaram o STF por libertar Lula, não se conformaram com minha alegria.

Comentaram alguma coisa sobre Lula, que eu não entendi, e foi melhor assim. Eu não queria brigar com ninguém, só encontrar os amigos e o garçom, depois do ano terrível que passamos.

Logo eles foram embora e eu fiquei pensando como é muito louco esse mundo. Ainda bem que eu não estava de camiseta vermelha

Os alemães orientais arriscaram suas vidas para escapar do comunismo, Andor Stern sobreviveu ao nazismo e, por aqui, aprendizes de bolsonazis chamam de comunistas os que lutam por justiça,  democracia e liberdade, três décadas após o fim da Guerra Fria. Dá para entender?

Vai começar o futebol.

Vida que segue.

 

 

9 thoughts on “Os 30 anos da queda do Muro de Berlim, o nazismo e a libertação de Lula

  1. Parabéns, Mestre, expressou tudo…, a civilização impede a barbárie.
    Sem tréguas e concessões, combatamos, o preconceito, a intolerância, a Violência e o Ódio.

    VIVA a LIBERDADE e a VIDA!

  2. Amigo Kotscho
    Sexta-feira à noite, amigos me ligam do bar que frequentava assiduamente.
    O verbo no pretérito é para indicar que meu fígado não aguentou as cervejas que este jornalista tomou ao longo da vida.
    Voz conhecida, conservadora e de direita; “Lula Livre, Lula Livre, seus amigos querem comemorar com você”. Ao longe, um coro repetia “Lula Livre”.
    A resposta foi automática: “Vocês são falsos, pois querem apenas que eu vá pagar a cerveja”.
    Não fui para não reacender velhos debates de botequim. Como aqueles que participei no “sujinho”, ao lado da Folha, na Barão de Limeira.
    Aliás, se fosse o caso de comemorar, teria sentado à mesa do bar do Melão, amigo, corintiano e lulista.
    Convite recusado, fiquei em casa, mas a emenda foi pior que o soneto.
    Meu nome foi citado em algumas provocações nas redes sociais. Evito debater nesse local, depositário de imbecilidades. Foi inevitável. Aumentou o número de bloqueados na minha conta.
    Parafraseando meu amigo: Vida que segue.
    Ulisses de Souza

  3. kotscho, ficamos aqui pensando em vossência considerar dizer a seu amigo de loonga data para repensar uma coisa ou duas. Animal politico, claro que ele iria faze-lo de qualquer forma. Maisporem assim mesmo considerar se nao seria mais efetivo calibrar alguns petardos e simplesmente silenciar mais em outros fronts pela razao simples de que o adversario tem o costume de se enforcar sozinho, sempre que tem corda suficientemente grande por perto.
    É isso.

  4. São momentos históricos distantes nas datas, mas exemplos em significados. Nós brasileiros merecemos um ministro da justiça com conteúdo, postura e ação de ministro. Não um coisnha que atropela as leis. Depois de tantas demonstrações às claras da perseguição dele ao lula, taí mais uma para os conselheiros da magistratura não duvidarem daquele então juizinho (sic). Mas os conselheiros devem estar de férias porque trablham muito e não têm tempo para verificar o que vale e é necessário à sociedade que lhes paga os 60 dias de vancances. Lula deve desmascará-lo esse coisinha que escorrega no vernáculo protegido pela gestora. Lula tem toga, farda e tv contra ele. E pior, ofusca todos. Essa é uma das motivações de suas raivas contra o metalúrgico

  5. Há muita gente considerando melhor o mundo antes da queda do Muro.
    Há de se anotar que a queda do Muro de Berlim dá-se na alvorada do neoliberalismo comandado pela dupla Reagan/Thatcher.
    Nem tudo cheira a flores com a queda do Muro de Berlim, porque todos os indicadores de violência, racismo, desigualdade social e degeneração ambiental pioraram, bem como aumentou o desemprego em massa e a exclusão social ao qual se somou o terrorismo de fundamentalistas religiosos e a expansão do crime organizado em escala global.

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