A tragédia do óleo: vozes silenciadas que precisam ser amplificadas

A tragédia do óleo: vozes silenciadas que precisam ser amplificadas

Foto: Hugo Muniz

A melhor parte desta vida de repórter são as pessoas que a gente conhece por esse Brasilzão afora.

Semanas atrás, dei um depoimento ao cineasta Wilfred Gadêlha, que faz parte dessa excelente nova safra de diretores pernambucanos, para uma série de documentários que ele está fazendo sobre o Nordeste dos anos 1960 e como está hoje.

Hoje, recebi desse jovem com nome-germano-nordestino um apelo para participar na campanha de crownfunding (ver no final do texto) criada para ajudar o jornalismo independente a contar as histórias da grande tragédia do óleo nas praias da região, que não são contadas na mídia tradicional do sul do país. .

Como não tenho mais condições físicas para viajar e ando meio duro, aproveitei para pedir a ele para escrever um breve depoimento sobre como os nordestinos estão convivendo com este crime ambiental que até hoje não tem responsáveis.

Com alma de repórter, Gadêlha foi ver de perto as consequências dessa tragédia para a vida das pessoas que dependem do mar e das belas praias para ganhar a vida.

Transcrevo abaixo o texto que ele me mandou com presteza, porque há um sentimento de urgência para amplificar as vozes das vítimas diante do descaso do governo federal.

É a minha forma de contribuir.

***

Vozes silenciadas que precisam ser amplificadas

Por Wilfred Gadêlha

 

Nos últimos dias, percorri mais de 2 mil quilômetros pelo litoral de quatro Estados nordestinos acompanhando de perto como a tragédia do óleo derramado nas praias da região afetou o cotidiano das pessoas que vivem direta e indiretamente do mar. Não fui atrás de engravatados de palavras empoladas, mas de quem sofre na pele – muitas vezes literalmente – um dos maiores desastres ambientais por que o País já passou. Em meio ao caos desinformativo provocado pelas autoridades federais, fui ouvir as vítimas: o pescador, a marisqueira, o vendedor ambulante, o garçom.

 

Acompanhei ainda a corrente de solidariedade que se formou, como uma ciranda à beira-mar, todos de mãos dadas, para remover as manchas de petróleo das praias. Gente que sabe que não pode esperar pela reação do governo federal. Porque o tempo das manchas é um. O tempo de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles é outro. O tempo deles é o do descaso, da mistificação, do desprezo por milhões de pessoas. O tempo de quem está na ponta é o do medo, da fome, do desespero.

 

Gente como dona Cristina, que tem uma barraquinha há 20 anos na praia de Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, que está impossibilitada de ganhar seu sustento por conta da irresponsabilidade de quem deveria ter agido muito antes. Ou como dona Marina, que, após comer um peixe contaminado, passou dias vomitando e com diarreia, mas tinha que estar em seu quiosque de acarajé na Praia do Forte, no litoral norte baiano, porque é disso que ela vive. E ninguém vai fazer isso por ela.

 

O drama ainda não tem hora para acabar. O óleo vem, volta, é limpo, mas faz questão de retornar, como um pesadelo em looping que nunca termina. Agora, o óleo está indo em direção ao sul. Está na iminência de chegar a Abrolhos, arquipélago que é um parque nacional marinho. Diante da imobilidade proposital de Brasília, o Nordeste padece, como sempre padeceu, nas mãos sujas de óleo dos homens brancos de terno e gravata. Como escrevi, num dos textos da série “No Rastro do Óleo”, publicados pela revista Fórum, não somos fortes porque Euclides da Cunha assim o disse. Já o éramos antes e seremos por muito tempo. Porque a gente aqui não tem força porque acha bonito. A gente tem força porque é preciso ter.

 

Por isso, precisamos que você, que lê este texto, nos ajude a contar essas histórias. Porque essas histórias não estão sendo contadas pela mídia tradicional. Porque só o jornalismo independente é capaz de ouvir essas vozes silenciadas, com aquele sotaque que muitos ridicularizam. Essas vozes somos todos do Nordeste. Para apoiar a campanha de crowdfunding, basta ir a este link:  https://www.catarse.me/no_rastro_da_tragedia_nas_praias_do_nordeste?ref=project_link

 

O Nordeste agradece.

 

Wilfred Gadêlha é jornalista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Atuou como repórter e editor de periódicos como Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, cobriu assuntos como o terremoto do Haiti, a visita do papa Bento XVI ao Brasil, cúpulas Brasil-União Europeia e esteve nos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, além de publicar textos em IstoÉ, O Estado de S. Paulo e O Globo.

 

É autor do livro Pesado – Origem e Consolidação do Metal em Pernambuco, que já está em sua segunda edição. Escreveu o argumento e o roteiro e conduziu as entrevistas do documentário Pesado – Que Som É Esse Que Vem de Pernambuco?

***

Depois de passar a vida rodando por todos os estados brasileiros, meu sonho ainda é ir morar no Nordeste, onde encontrei os brasileiros mais alegres e solidários.

Tenho saudades de João Pessoa, a capital que não perdeu o encanto de cidade pacata e aconchegante, onde o dinheiro é apenas uma moeda de troca, não um objetivo de vida.

Ali ainda se pode viver bem com pouco.

Espero que salvem esta beleza de lugar e sua gente, nem que seja com as próprias mãos, como já estão fazendo.

Bom final de semana a todos.

Vida que segue.

 

 

9 thoughts on “A tragédia do óleo: vozes silenciadas que precisam ser amplificadas

  1. Prezadas(os)
    estamos vivendo dias sombrios em nosso querido país do futuro. Dá a impressão de que estamos assistindo a um filme de suspense com roteiro bem construído e um enredo de dar inveja em Tarantino, ao deixar os espectadores sem fôlego, roendo as unhas, presos na poltrona. Ninguém se atreve em se movimentar ou fazer barulho. A tensão é grande. Não há mocinho, só bandido, porém o filme terá um final. Alguém arriscará um palpite sobre o final do filme? o mocinho aparecerá e salvará a pátria amada? não sei, talvez nosso fim será o mesmo dos dinossauros, ou Mariguelas, ou Lamarcas, ou Gracilianos, ou de centenas de pessoas anônimas que tombaram nas masmorras, ou, por fim, como um bando de covardes que fugiram da luta eminente.

  2. Neste lamentável episódio, o governo demorou para responder à altura da gravidade do problema, com muita gente batendo cabeça. Nesta seara, o que não faltou foi palpiteiro, oportunistas e até magistrados, que pela sentença que deu, não sabe o que é colocar um prego na parede mas resolveu DETERMINAR, sob pena de elevadas multas se não o fizesse, que o governo colocaria em 24 horas , boias de contenção para o óleo. Só não sabia o infeliz que a matéria não é um óleo que boia na superfície, mas sim , um material viscoso que navega na profundidade e só aparece nas praias quando as águas arrebentam.|A esquerda então não perdeu tempo, como se ele estivesse no comando, nada daquilo estaria acontecendo.
    Enquanto isto, a Marinha e a Policia Federal, trabalharam em silencio e hoje (embora tardia)já trazem uma resposta condizente com os fatos. Tudo indica que foi um navio tanque de bandeira grega, talvez transportando petróleo venezuelano em condições um tanto precária e escondido.
    Lamentamos muito o ocorrido, mas tal qual o governo – e alguns de seus ministros – que foram reprovados na tarefa, também os críticos de plantão só serviram para esparramar o óleo ao invés de ajudar limpar. Até parece que o Brasil não é o seu pais

  3. A foto comove, o crime estraçalha e a coragem alimenta a esperança. A gente chora com esses Verdadeiros heróis de um ideal. Sabedoria de Mestre a ensinar que Ecologia é a harmonia da vida. O homem é o maior problema ecológico de existe. Em nome da Mãe Natureza, obrigado pelo exemplo, heróis vivos do Nordeste brasileiro. (A Wilfred Gadêlha e seguidores)

  4. Caro jornalista e seus seguidores hipócritas. Tenho um vídeo do Jô Soares ganhando troféu impresa fazendo um discurso sobre a censura da Globo e o silêncio da esquerda e dos idiotas úteis. Censura é a única forma de jornalismo que conhece.v vida que segue

    1. Até que enfim aparece o Maurício, aqui, com um comentário sério. Esse pessoal seguir deste colunista deveria mesmo ver a entrevista do Bial com o escritor israelense, Harari, no you tube, ou mesmo por conseguinte, ver a entrevista de Bial com o neuro Stevens Rehen. Feito isso, talvez falariam menos besteiras.

  5. Prezado Kotscho; Concordo com o Gadêlha que “O tempo de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles é outro. O tempo deles é o do descaso, da mistificação, do desprezo por milhões de pessoas.” É típico de um governo autoritário. A ditadura está aí. O golpe foi dado. Ele aconteceu em primeiro de janeiro de 2019 quando os militares chegaram ao poder. Duvido que se colocarem “um soldado e um cabo” para fechar o STF vai ter resistência, porque acho que nenhum ministro tem uma lurdinha debaixo da toga para reagir. Reedição do AI-5? Mero detalhe. O recado já foi dado. Se o povo for para as ruas vão baixar a borracha e vai ficar por isso mesmo, sob os aplausos dos 57 milhões de canalhas que colocaram o anticristo jabuticaba no Planalto, junto com seus apoiadores e associados. Ruptura? Saída? Cassação do deputado golpista, cassação da chapa presidencial e convocação de eleições gerais, junto com o calendário eleitoral de 2009, pode ser o caminho mais sereno. Isso tudo, logicamente, se as instituições estiverem funcionando, como vivem pregando alguns aos quatro ventos.

  6. Prezado Kotscho: Corrigindo o comentário que fiz. É calendário eleitoral de 2020 e não de 2009, mesmo porque não sou um peixe e errei. “O peixe é inteligente, ele tem medo do óleo”, diz secretário de Pesca do governo.

  7. 600 dias decorridos de ‘investigação’ sem nenhuma apuração conclusiva dos mandantes e da logística que configurou o “modus operandi” dos sicários. Marielle é objeto de um bate-boca de duas autoridades paridas pelo estado onde a corrupção foi elevada à categoria de arte e as milícias são sua obra-prima. Da mesma forma que o clube mais endinheirado no Brasil não indenizou os atletas cremados no ninho do Urubu até hoje, nem a Vale, aos mais de 200 mortos soterrados, as populações praieiras ficarão a ver navios vazando óleo ao longo da costa atlântica. As instituições brasileiras não funcionam; exceto para inglês ver.

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