Cultura sob ataque: covardia da elite brasileira alimenta a volta da censura

Cultura sob ataque: covardia da elite brasileira alimenta a volta da censura

A temida censura está de volta, como já era de se esperar. Bastaram nove meses de gestação.

Os liberais e neoliberais brasileiros sempre foram gigolôs do Estado e, por isso, morrem de medo de desagradar o governo de plantão.

Agora, com a volta oficial da censura à luz do dia, decretada pelo bolsonarismo nas empresas estatais, a covardia da elite brasileira pode asfixiar também o financiamento privado de projetos culturais por meio da Lei Rouanet.

“Melhor não”, era o bordão que eu costumava ouvir de um diretor do Estadão, depois da saída da censura, em meados dos anos 1970, quando propunha alguma reportagem, vamos dizer, mais polêmica, que pudesse incomodar os generais no poder.

O medo da volta da censura instalava a autocensura nas redações, de onde nunca mais sairia.

Temos agora no comando um ex-capitão mequetrefe, afastado do Exército aos 33 anos, que quer reviver 1964 em 2019.

Não é só o corte da publicidade oficial de governo que ameaça os veículos de mídia, mas também o temor dos anunciantes de empresas privadas aliadas do bolsonarismo.

O índice de otimismo dos empresários com a economia, que era de 89,3%, em dezembro, quando se dizia que bastava impedir a volta do PT ao governo, que tudo ia melhorar, já caiu pela metade (41,4%), segundo a última pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Nada deu certo, então é preciso dobrar a aposta.

“Caixa cria sistema de censura prévia a projetos culturais – Relatórios de seleção devem informar o posicionamento político e conduta de artistas em redes sociais”, informa a manchete da Folha neste sábado.

Segundo a reportagem ouviu de funcionários da Caixa Cultural, “as regras permitem perseguição aberta a certas obras e autores”.

Tudo igual ao que se viu após o golpe do golpe do AI-5 de 1968, que jogou o país nas profundezas da ditadura militar, sem disfarce.

Devagar, devagarinho, o governo afia suas garras para dominar novamente as instituições e implantar o controle militar, agora também evangélico, na produção cultural.

Quando vamos ver, se ninguém fizer nada, como alertou hoje meu colega Miguel Paiva, no Brasil 247, voltaremos àqueles tempos sombrios.

O novo padrão deverá ser o daquelas novelas religiosas da Record TV, um dos braços do Sistema Bolsonarista de Televisão, também conhecido como SBT.

Serão proibidos temas considerados “desagradáveis” pelo capitão-presidente, como as questões de gênero, sexualidade e sobre o período da ditadura militar _ que, segundo Bolsonaro, nunca existiu.

Até o espetáculo infantojuvenil “Abrazo” já foi proibido pela Caixa Cultural porque tem personagens que vivem num país em que não podem falar.

E não poderão falar mesmo, com a criação da censura da Caixa, já adotada também por outras estatais e empresas privadas, temerosas de perder as benesses do governo.

Em marcha batida para o atraso, o governo enfrenta poucas resistências da chamada sociedade civil.

Na mesma edição, a Folha noticia na Coluna “Painel” que o grupo 342 Artes pediu a seus participantes para “judicializar tudo, dar queixas no Ministério Público Federal e provocar as instituições a se manifestarem”. Mas as instituições estão mesmo funcionando, como dizem?

A associação de roteiristas foi escalada para fazer representações contra Roberto Alvim, da Funarte, aquele alucinado que outro dia chamou de “sórdida” a Fernanda Montenegro, e anunciou a entrega do teatro Glauce Rocha, no Rio, ao grupo evangélico Companhia Jeová Nissi.

A maracutaia era tão escandalosa que, na sexta-feira, 19 funcionários da Funarte foram demitidos pelo ministro Osmar Terra, da Cidadania, a quem Bolsonaro entregara o espólio do extinto ministério da Cultura.

Funcionário de terceiro escalão, Alvim passou a tratar diretamente com o presidente Bolsonaro e queria entregar uma verba de R$ 3,5 milhões à própria mulher, a atriz Juliana Galdino, para cuidar da “revitalização de teatros”, mas o projeto foi barrado.

Ao ser nomeado, o ministro Terra, com quem Alvim bateu de frente, confidenciou candidamente que sua única experiência anterior nesta área cultura era tocar berimbau.

É a este tipo de gente que foi entregue a cultura nacional, que está sendo estrangulada aos poucos, com o corte de verbas públicas e privadas, e constantes ameaças aos produtores independentes.

Para Bolsonaro, como ele vinha dizendo desde a campanha, cultura é “coisa de comunistas” e tem que ser tratada na base de porrada.

Daqui a pouco, salas de cinema e teatro serão transformadas em extensões de templos evangélicos, que em vez de ingressos certamente cobrarão dízimos. Ajoelhou, tem que rezar.

Nada acontece por acaso: o ataque à Cultura faz parte de um projeto maior, o único programa de governo apresentado até agora pelo bolsonarismo: a destruição do país.

Bom fim de semana.

Vida que segue.

16 thoughts on “Cultura sob ataque: covardia da elite brasileira alimenta a volta da censura

  1. Koscho, me desculpe, mas censura é impedir alguém de expressar sua opinião e ninguém está sendo impedido de nada.

    O que está sendo cortado é o financiamento (com dinheiro público) de obras com temáticas que eram estimuladas na era petista e, normalmente, fracassavam em termos de público, mas deixavam seus realizadores com o bolso cheio de dinheiro.

    Que usem o dinheiro que ganharam antes ou procurem patrocinadores privados. Os caras não se dizem bons no que fazem? Que ponham isso à prova. Ninguém vai impedi-los, ninguém vai censurá-los.

  2. A verdade é que estamos apenas com nove meses de governo do segundo mandatário dos golpistas, Jair Bolsonaro. Além da mídia alternativa, dando um enfrentamento no papo, pouco existe que se possa dizer esteja abalando o golpe, mesmo com a Vasa Jato do jornalista americano. O golpe segue seu caminho, a censura já se iniciou, como reclama. Como existe alguns instrumentos da Democracia, manipulados pela Justiça também golpista, vai haver aquela guerra de liminar pra lá, liminar pra cá, mas a censura tende a se aprofundar. É bom lembrar que os golpistas, na mão do Sérgio Moro, contam com a “nova” segurança pública, na realidade a mesma, latente na ideologia da direita que voltou ao poder, sem explicitar as barbaridades de que são capazes de cometer contra os cidadãos. Há muita pressão dos opositores ao golpe, especialmente aqueles que não estiveram na linha de frente dando a cara à tapa, diante do arbítrio que se levantava, nos idos de 2013/2016, alguns até na surdina apoiaram os hoje poderosos, julgam que a oposição esteja fortalecida para enfrentar o aparelho repressivo do Estado, agora estabelecido na Lei, unindo as polícias e as Forças Armadas para o enfrentamento, com os sindicatos todos desarticulados e sem recursos. A esperança é que a conjuntura internacional possa mudar a correlação de forças, e enfraqueça o projeto neoliberal que estão tentando implantar na economia, e é o que realmente interessa aos golpistas e aos americano que lhes dá sustentação, mas que não tem até aqui, a não ser para os defensores do mercado, os mercadistas, as pesquisas mostram, dado resultados com condições de respaldar uma sustentação política de longo prazo. Haverá um ponto, que bem avaliado, possa indicar às partes que não valha a pena terçar armas, num confronto mais forte, porque serão muitos os prejuízos para todos. Se assim for, quem deve arreglar são os golpistas. Tudo isso quer dizer que, no momento, é continuar dando uma de João Teimoso, e resistir. Lula livre.

  3. A marcha batida do projeto miliciano de poder militar segue a passo de ganso.
    A “candidatura militar” – assim qualificada em 2018 nos comentários que fiz por aqui durante o processo eleitoral – infelizmente derrotou todas as demais “candidaturas civis”.
    O anti-petismo, a corrupção generalizada, a insegurança pública crescente, a anomia social e a penetração evangélica nas periferias das grandes cidades renderam votos e dividendos populares à extrema direita.
    A extrema-direita encarnou o “projeto de poder” militar-policial – sustentado pelas forças armadas, paramilitares e policiais em franca ascensão no país -, que conserva um terço do eleitorado cativo. As manifestações culturais entraram em rota de colisão com o padrão autoritário-policialesco fermentado pelo fundamentalismo evangélico em expansão continuada no tecido social das classes subalternas. Não será de estranhar se, mais cedo do que tarde, artistas e espetáculos venham a ser apedrejados, fisicamente, e não apenas na esgotosfera das redes sociais. Não podemos desconsiderar que as pesquisas de opinião indicam que há um segmento de fanáticos beócios dispostos a partir para as vias de fato e utilizar a materializar a violência para fazer valer a vontade do “Mau Militar” no poder.
    Ninguém em sã consciência pode pensar que o “Mau Militar” mude sua orientação originária; ao contrário. Cabe à oposição, que até agora apenas tem dado demonstrações de incapacidade de se articular, simplesmente olhar e ver que, se deixar a carruagem seguir adiante, amanhã será derrotada de modo ainda mais duro e, pior, definitivamente.
    O exemplo a ser seguido está às margens do Rio da Prata, onde uruguaios e argentinos souberam deter a ascensão consolidada da extrema-direita.

  4. À parte as estratégias, o chargista Duke ilustrou em seu Twitter o resumo de mais este episódio de House of Mãe Joana, em Carta Capital: “O Brasil tá tão surreal que chegamos ao momento em que Deltan Dallagnol grita ‘Lula Livre’ e Gleisi Hoffmann responde ‘Lula tá preso, babaca!’”.
    A matéria é de Carta Capital cuja manchete da capa é: “Lula Livre?”.

  5. Não há censura no Brasil. Basta produzir obras do agrado da Nova Ordem bolsonariana. Aliás, muito próxima do bolivarianismo chavista*. Quem defender as teorias que afirmam que a Terra é plana, é o centro do Universo e que “Adão comeu a Eva e a maçã de sobremesa**” não terá problemas com o Messias e seus “acepipes” (Royalties para o sr. Weintraub, o ministro da Educação que escreve “incitar” com “s”, paralisação com “z”, suspensão com “ç”, e “haviam” muitas emendas, além de confundir “KafKa” com uma iguaria árabe).
    Outro exemplo é este site. Você publica comentários que contradizem suas opiniões. Exemplo? este comentário. Onde a censura?
    * Na era petista, ouvia-se dizer que “o Brasil vai virar uma Venezuela”. Bem, já somos. Uma ditadura eleita. O sr. Messias é o espelho do sr. Chávez no início de seu mandato. Até na admiração: “Hugo Chávez é a última esperança da América Latina”. Quem, então deputado inútil, disse isso?
    ** Charles Darwin viajou e pesquisou para elaborar sua Teoria da Evolução financiado pelo Estado inglês. Mas esse fato “não vem ao caso”.
    RK, fique tranquilo. Não há censura no Brasil.

  6. Parabéns Ernesto. Foi cirúrgico no seu comentário. Pena que o nobre jornalista não escreve uma linha sobre a diminuição em 22% dos assassinatos. Tudo resultado da administração Moro. Quanto a cultura Ernesto já deu o caminho. Não é por nada que a classe artística idolatra a esquerda que lhes destinava rios de nossos impostos para produções ridículas. Vivemos em um país capitalista, então basta procurar junto aos empresários e largar as tetas dos nossos impostos. Não quero polemizar, mais alguns dias atrás afirmou que vários movimentos sociais estavam se reunindo para combater o Mito? Sem nossos impostos essas ditas sociedades civis preferem ficar em casa do que perder seus dias com os bolsos vazios. Habemus censura??? Vida que segue

  7. Kotscho, se até o COAF se encontra sob censura!
    Se bem que essa censura não deixa de ser reveladora. Leva a crer, supondo, que o capitan é o que na verdade por motivos pessoais, mais teme os registros do COAF.
    E por dois motivos: primeiro, o caso de mudança por sete vezes pulando de um partido nanico a outro. O que acontecia a cada eleição a deputado federal, quando o dinheiro do partido irrigava a sua campanha; segundo, o rolo agora em revelação, da escabrosa maracutaia realizada pelo nanico PSL, a benefício da campanha, de novo, do capitan.

  8. Sugestão de leitura:
    https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/06/15/por-que-o-numero-de-homicidios-caiu-no-brasil-quatro-especialistas-opinam.htm

    “Houve um incremento de 76% de feminicídios em São Paulo”, diz a juíza Claudia Dadico, da AJD. Outro ponto levantado por Dadico é o aumento dos assassinatos por parte de agentes do estado, principalmente policiais militares. No Rio de Janeiro, o primeiro bimestre deste ano registrou recorde de letalidade policial, com 305 mortos – o maior número nos últimos 16 anos.
    Trégua entre as facções
    A diminuição dos conflitos entre as grandes facções criminosas do país é apontada como um fator importante. E isso se deve mais a arranjo interno entre os grupos do que a ação governamental.
    Devagar com o andor…

  9. Prezado Kotscho: A “destruição do país” pelo bolsonarismo já está em marcha e se não ocorrerem Diretas Já! para 2020, com eleição geral em todos os níveis, o anticristo jabuticaba confirmará a profecia de Nostradamus.

  10. Não é surpresa, estes neofacistas apoiarem a censura, todos parecem uma manda à caminho do abatedouro, Portanto, quem já esqueceu ha um tempo não muito remoto do velho, o chavão das elites e da classe média em São Paulo de que o “Sr. Paulo Maluf roubava mais fazia”, estamos voltando à este tempo outra vez.

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