Em 60 anos de carreira, Jô Soares de todas as artes é um gênio da raça

Em 60 anos de carreira, Jô Soares de todas as artes é um gênio da raça

Mudando um pouco de assunto, pois ninguém aguenta mais ouvir nem o nome daquela figura abominável, hoje quero falar bem de alguém, depois de ficar dois dias sem internet.

Aproveitei para terminar de ler o segundo volume do “Livro de Jô – Uma autobiografia desautorizada” (Companhia das Letras) e fiquei impressionado com a quantidade de coisas que este camarada fez na vida, sempre com a maior competência.

Televisão, cinema, teatro, música, pintura, rádio, jornalismo, livros _ acho que ele só não trabalhou em circo, mas ainda dá tempo.

Jô Soares é um cara inqualificável.

Não por falta de qualidades, ao contrário. Mas pelo excesso, em todas as latitudes.

À medida em que avançava na sua história, contada em parceria com o jornalista Matinas Suzuki Jr., com uma incrível sucessão de nomes, lugares, cenas, conquistas e algumas mancadas, que ninguém é de ferro, mais admirado ficava com sua incrível memória e a capacidade de se dedicar simultaneamente aos vários ramos da cultura, além de se divertir com ele mesmo.

Se tem alguém que pode ser chamado de gênio da raça na minha geração é ele.

Todos nós conhecemos muita gente que é genial naquilo que faz, mas não conheço outro que tenha um conjunto de obra tão impressionante.

Para vocês terem uma ideia, e verem que não estou exagerando, na contra-capa do livro tem um mini-resumo da sua trajetória na primeira pessoa:

“Foram sessenta anos de vida profissional, 28 anos de entrevistas, 14 426 conversas, cerca de 1300 dias de programas de humor na TV, trezentos personagens, 43 anos fazendo one-man shows, dirigi 24 peças de teatro e atuei em onze, foram dez filmes como ator e um como diretor, oito exposições como pintor, um show como músico e cantor, quinze programas de televisão como redator, nove livros, contando com este.”

Desconheço algum assunto que ele não domine como demonstrou em todas as entrevistas que fez ao longo desse tempo.

Duas vezes fui convidado para ir ao seu programa e me senti logo à vontade como se estivesse na casa de um amigo com quem converso todo dia.

Não sei se ele vai lembrar, mas demos boas risadas quando fui falar sobre um livro que dois jornalistas (Mauro Júnior e José Roberto da Ponte) escreveram sobre meu trabalho como repórter.

Lá pelas tantas, Jô colocou num telão algumas fotos que estão no livro e me pediu para contar quem eram aquelas pessoas ao meu lado e lembrar onde foram tiradas, em que circunstâncias, etc.

Como não enxergava bem de longe (ainda não usava óculos multifocal), me atrapalhei todo e fui chutando.

Numa das fotos, eu estava ao lado de uma moça bem pobre, mal vestida, suja de barro, com meu caderno de anotações na mão.

“Isso aí acho que foi durante uma reportagem na Transamazônica…”, arrisquei.

“E o que a Sonia Braga está fazendo nesta foto?”, mangou Jô, com a platéia caindo na risada.

Aí me lembrei: Sonia Braga estava caracterizada, filmando “Gabriela”, em Parati, com Marcelo Mastroianni, e eu a entrevistava entre uma cena e outra.

Em outra foto, tinha um monte de homem posando no aeroporto, e bati de primeira:

“Essa é a equipe do Estadão embarcando para a Copa do Mundo na Alemanha, em 1974”.

Jô não perdoou: “E o que o Lula está fazendo nessa foto?”.

Pois era a comitiva do PT embarcando para uma viagem à Europa antes da campanha presidencial de 1989…

O pessoal ali morrendo de rir e eu sem saber onde enfiava a cara.

Parecia até coisa combinada para fazer graça na entrevista.

Podia ser o assunto que fosse, mesmo com convidados que enxergam e ouvem bem, o que não é o meu caso, o Jô sempre conseguia fazer seu público rir.

Afinal, por muito tempo, antes do talk-show de fim de noite no SBT e na Globo, ele vivia disso…

Por falar em Lula, tivemos dois desencontros, que ele cita no livro, quando eu trabalhava como assessor do ex-presidente.

No primeiro, entrevista agendada, o candidato voltou no bagaço de uma viagem durante a primeira campanha, em 1989, e me pediu pra desmarcar em cima da hora.

Isso é a pior coisa que pode acontecer num programa de entrevistas, eu sei. Dá pra imaginar o que eu ouvi do Jô.

Da outra vez, estava tudo acertado para uma entrevista, quando Lula já era presidente, e não vinha falando com a imprensa.

Sem eu saber, naqueles dias Lula tinha encontrado o Ratinho num churrasco na Granja do Torto, e resolveu ali mesmo dar uma entrevista para ele, antes do programa do Jô, que ficou enfurecido com a história.

E, com toda razão, desmarcou a ida de Lula ao programa porque exclusividade nesse metiê é sagrada. Acho que até hoje ele não me perdoa pelo que aconteceu.

Mas muito melhor do que eu ficar lembrando destas histórias é ler os dois livros de memórias desse, literalmente, enorme artista brasileiro.

Vai ser muito difícil surgir outro igual.

Por isso, é muito bom poder falar do Jô Soares de todas as artes e saber que vivemos no mesmo país, tão degradado nos últimos tempos.

E vida que segue.

 

13 thoughts on “Em 60 anos de carreira, Jô Soares de todas as artes é um gênio da raça

  1. Prezado Kotscho: Como você lembrou que “vivemos no mesmo país, tão degradado nos últimos tempos”, seria muito melhor para o fígado ver de novo as entrevistas do Jô Soares nos seus “28 anos de entrevistas, 14 426 conversas” do que as entrevistas “daquela figura abominável” dadas, diariamente, no cercadinho da baia do Palácio do Planalto.

  2. Jô Soares – Muito talento.Um dos pioneiros da televisão brasileira -Responsável em boa parte pela popularidade deste veículo de comunicação.

  3. Jô e Fernanda Montenegro, retratos de um país pujante. Pena que os hipermoralistas amarelecidos, intolerantes, sem nenhuma graça e sofisticação, desejem outra coisa, um país desbotado, sem imaginação: a fala de Bolsonaro na ONU, as sentenças persecutórias do Moro, os tuítes da família imperial da Barra, as inacreditáveis investidas de Ernesto, Damares, Weintraub e, claro, a pedra filosofal olavista

    1. Falando em Fernanda Montenegro, imperdível assistir “A Vida Invisível” de Karim Aïnouz que vai representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
      Lembremos que hoje, “Mariguella” estaria estreando nos cinemas de Norte a Sul, mas a “Ancine” da Era Beócia atuou nos meandros da legislação da legislação do áudio-visual para tornar o guerrilheiro urbano, outra vez, um “clandestino”. O filme, não se sabe até quando, teve a sua exibição “suspensa”, de fato foi proibida.
      A participação especial da nossa Diva é exuberante em sua singeleza.
      Seria ótimo ver e ouvir o Jô entrevistando Wagner Moura, Fernanda e, também, a Carolina Kotscho, por conta de “Hebe” cuja estréia, também, é hoje.

      1. Grata pela sugestão. Sabe que sim, influenciada pelo teu comentário, pensei quase o mesmo: um Roda Viva, livre para ser independente, com Wagner Moura, Fernanda, Carolina, Sônia Braga, Chico, Caetano, todos lançando perguntas para o Jô. Poderia ser o pontapé inicial de um movimento de aglutinação de forças.

  4. Caro e prezado grande repórter RK, merecida homenagem ao Jô, sem dúvida um gênio da raça.
    Triste a ausência dele na televisão.
    Lembro de uma história que o Jô contava envolvendo o Stanislaw Ponte Preta e o comediante Pagano Sobrinho.
    Sérgio Porto, o Stanislaw, pegava um avião da ponte aérea no Rio e vinha para São Paulo apenas para bater papo com o Pagano Sobrinho.
    Os dois se encontravam no antigo Feijão Gordo, esquina da São Hoão com a Ipiranga, onde tinha uma comida que a gente saboreava lambendo os beiços.
    Quem faz isso hoje em dia?
    Coisas de amigos ou de um Brasil que não existe mais.
    Eles faziam parte de uma civilização que o vento levou, e está na cara que plagiei a escritora Margaret Mitchell.
    Paciência de Jó e cultura de Jô.
    Talvez seja uma boa dica para melhorar o pensamento.

  5. Pois é, dr.Kotscho. Pois eu aproveito o ensejo para relembrar que, aos 13 anos de idade, assistindo um programa humorístico que eu nem sabia que existia, da TV-Rio canal 13, que provavelmente era estréia,num sábado à tarde, e que naquele dia era ambientado numa Feira Livre, percebi um comediante novo, até meio magrinho mas que já era muito engraçado, naquele canal repleto de grandes comediantes.Fiz questão de saber o nome do indigitado cômico e, não sei se no mesmo dia ou talvez pouco tempo depois, fiquei sabendo que se tratava de um certo obscuro Jô Soares.Tive um palpite que aquele cara ia longe e que valia a pena acompanhá-lo (Por sinal, neste mesmo ano, 1959, ele fazia o hoje clássico “O Homem do Sputnik”, de Carlos Manga).Quantos tipos fantásticos nestes 60 anos: o Professor, o Militar Entubado, Don Gardelón, o Burocrata Neurastênico, o Coronel (com Chico Anísio), tantos outros…

  6. Lula da Silva, desculpe:
    O tempo, a Razão, o bom senso e a História estão do teu lado.E mais o povo que nao esteja preso à CasaGrande.
    Inteiramente.
    Eles todos são um zero, zerissimo, perante todos esses entes citados.
    Fique onde o colocaram, fique onde está.

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