Como faz bem rever um Roda Viva de 1988 com o bispo Pedro Casaldáliga

Como faz bem rever um Roda Viva de 1988 com o bispo Pedro Casaldáliga

Para quem perdeu a fé no nosso jornalismo depois de ver o Roda Viva de segunda-feira com Glenn Greenwald, quero lembrar que nem sempre foi assim. E não precisa ser.

Por uma feliz coincidência, fui rever hoje a entrevista com dom Pedro Casaldáliga, de 1988, postada pela minha filha Mariana Kotscho no meu Face e no dela, que foi reapresentada pela TV Cultura na série “Roda Viva Retrô – Entrevistas Inspiradoras”, em fevereiro de 2018. Me fez muito bem voltar um pouco no tempo.

Não é porque eu estava na bancada, mas aquele programa foi mesmo um inspirador exemplo de jornalismo, debate respeitoso de ideias e de crenças, com bom humor e momentos de muita emoção e polêmica.

Casaldáliga, hoje com 91 anos e sofrendo do mal de Parkinson, um dos expoentes da Teologia da Libertação e bispo de São Félix do Araguaia, onde continua vivendo, apesar de todas as ameaças, estava no centro de uma polêmica com o Vaticano que queria cortar as suas asas e lhe pedira um “silêncio obsequioso”.

Mas esse homem nunca foi de guardar silêncio e soltou o verbo no programa, denunciando todas as injustiças dos grandes donos de terra contra posseiros, índios e agentes pastorais na sua região.

Éramos oito na bancada (hoje são apenas cinco), de diferentes pensamentos políticos e experiências profissionais, todos ainda jovens, mas já bem vividos na profissão.

Com a moderação do Augusto Nunes (então diretor da sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo), estavam lá:  William Waack (editor chefe do Jornal da Tarde, ex-global e hoje na CNN); Sergio Rondino (editor de política do Jornal da Tarde); Alex Solnik (da Folha da Tarde, hoje meu colega no portal Brasil 247); José Carlos Bardawil (da Istoé); Jan Rocha (correspondente da BBC); Marco Antonio Moraes (chefe de redação da TV Globo em São Paulo), Dermi Azevedo (da Folha) e eu, que era repórter especial do Jornal do Brasil em São Paulo.

Foi mesmo uma agradável roda viva de conversa, que certamente ajudou os telespectadores a conhecer melhor a vida e a obra deste bispo que batia de frente com o papa João Paulo 2º e a União Democrática Ruralista (UDR), de Ronaldo Caiado, hoje governador de Goiás, antigo líder da bancada ruralista no Congresso.

Perguntou-se a dom Casaldáliga tudo o que era possível nos 90 minutos de programa, sem deixar nada de lado, deixando o entrevistado falar, sem tomar partido nas respostas.

Afinal, o Roda Viva era uma espécie de entrevista coletiva, em que o repórter pergunta e o convidado responde, deixando para que cada um forme a sua própria opinião em casa _ exatamente o contrário do que aconteceu na segunda-feira.

Claro que nestas três décadas de intervalo _ na época, eu tinha 40 anos, menos do que as minhas filhas têm hoje _ mudaram os jornalistas e os bispos, o Brasil e o mundo, mas isso não quer dizer que naquele tempo os repórteres eram melhores ou piores.

Temos hoje excelentes jornalistas em todas as redações, mas nenhum deles foi convidado para entrevistar o editor do The Intercept que denunciou as maracutaias da Lava Jato.

Não sei quais foram os critérios para escolher uma bancada de desconhecidos, tão despreparados, mas foi algo esquisito.

Os cinco repórteres, se é que podemos chamá-los assim, passaram o tempo todo fazendo os mesmos questionamentos, como num interrogatório policial, demonstrando um pensamento político único, de hostilidade ao entrevistado, que defendeu seu trabalho com altivez e fez uma profissão de fé no jornalismo.

Não se trata de comparar gerações, já que muitos daquela época continuam em atividade. E nós naquela época também éramos jovens.

Também não gosto dessa história de velho dizer que “no meu tempo era melhor”, essas bobagens.

Todo tempo pode ser bom, só depende da honestidade e da competência de quem exerce o sagrado ofício de informar a sociedade e fazer perguntas de seu interesse, com toda liberdade.

Quando fizemos a entrevista com dom Pedro, o país tinha acabado de sair da ditadura e havia uma grande demanda por conhecer melhor os personagens da nossa história recente, vetados pela censura.

Por isso mesmo, mais do que nunca, precisamos defender essa liberdade e a democracia, combater a intolerância, aceitar a diversidade e lutar por nossos direitos duramente conquistados.

Esta série do “Roda Viva Retrô” deveria ser exibida nas escolas de jornalismo para que os jovens tenham referências da profissão que vão exercer, assim como a entrevista de segunda-feira para mostrar a eles o que não devem fazer.

A primeira regra é que repórter nunca se deve achar mais importante do que o entrevistado para fazer beleza na televisão.

E vida que segue.

 

8 thoughts on “Como faz bem rever um Roda Viva de 1988 com o bispo Pedro Casaldáliga

  1. Sinceramente Ricardo…eu não consigo imaginar que uma criatura realmente do bem, uma pessoa moralmente sadia, possa ainda dar valor a esta operação denominada de Lava Jato, todos nós temos um limite de insensatez.
    Quanto aos dois programas, dá para se ver bem a decadência em que nos colocaram.

  2. Prezado Kotscho: “Al indio anónimo” de Pedro Casaldáglia. “Eras tierra, pasión, memoria, mito, culto en la danza y fiesta en el sustento. Pero ellos te imputaron el delito de ser otro y ser libre como el viento. Te hicieron colectivo anonimato sin rostro, sin historia, sin futuro, vitrina de museo, folclor barato, rebelde muerto o salvaje puro. Y, sin embargo, sigues siendo, hermano, ojos-acecho al sol del altiplano, huesos- murallas en los tercos Andes, raíces-pies en la floresta airada, sobreviviente sangre congregada por todo el cuerpo de la Patria Grande.”

  3. Há momentos na vida de especial deleite. Faz a gente pensar na felicidade que se delega ao próximo.
    Pedrinho, o Bispo!
    Homem simples, um Davi de inestimável mensagem cristã, atual e mostrando que o sacrifício da cruz não foi em vão.
    Que os mensageiros dos púlpitos do aqui e agora, sigam o exemplo de Casaldáliga, que carregou no Brasil, a cruz em defesa dos pobres.
    Dom Pedro, jamais viveu na superfície dos acontecimentos. Mostrou discernimento cristão, enfrentou o Vaticano e pôs o Brasil no mapa da Santa Sé.
    Acreditou em Lula e no imperativo de melhorar a qualidade de vida e a História do povo brasileiro.
    Aula de Jornalismo!
    Verdadeira Bíblia a ser empunhada pela noviça imprensa, a serviço de seus interesseiros patrões.
    Dá-lhe Ricardo, dá-lhe Balaio do Kotscho.

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