De onde brotam tantos “analistas políticos”? Como são criados? Onde vivem?

De onde brotam tantos “analistas políticos”? Como são criados? Onde vivem?

Outro dia, aqui mesmo, notei a profusão de filósofos na cena política nacional nos últimos tempos.

Mas não são só eles que dominaram os programas de entrevistas na TV e colunas em jornais e revistas, em espaços antes ocupados por jornalistas.

Temos também os onipresentes “analistas políticos”, assim apresentados sem maiores explicações de onde são, o que fazem, de onde vieram.

Há uma explicação simples para esta este fenômeno: em sua grande maioria, eles trabalham de graça, em troca apenas da divulgação de seus nomes e das suas atividades.

Se fosse o caso, até pagariam para aparecer, como já aconteceu em outros tristes tempos.

Nem precisariam ser tantos, já que todos falam as mesmas coisas e se revezam em bancadas e poltronas para defender o livre mercado acima de tudo e a reforma da previdência.

Parecem ter saído todos do mesmo ninho do pensamento único do Instituto Millenium e dos cursos de Olavo de Carvalho.

Quando se diz de onde são, predominam o Insper e a Fundação Getúlio Vargas, sempre preparados para comentar com absoluta convicção qualquer assunto, do incêndio na Notre Dame aos desabamentos na Muzema, dos embates entre STF e PGR às desventuras do Brexit.

Afinal, são apenas analistas, embora sejam apresentados genericamente como “especialistas”.

Todos devem ter passado por baterias intensivas de mídia training, tal sua desenvoltura para não deixar nada sem resposta.

Raramente contam alguma novidade ou baseiam suas opiniões em informações sobre o que está acontecendo naquele dia.

Suas teses são permanentes, resistem a qualquer fato novo.

Nestas conversas entre amigos, moderadas por apresentadores igualmente amestrados, não há contraditório, raramente surge alguma polêmica.

Aquela receita antiga de ouvir sempre “os dois lados” de uma questão já não vem ao caso.

Claro, há raras e honrosas exceções, como a do professor Mario Sergio Cortella, que insiste em ter suas próprias opiniões, e Mario Sergio Conti, que sempre nos surpreende com suas boas entrevistas.

Entre os convidados habituais, de vez em quando aparece uma cara nova como vi esta semana no Jornal da Cultura.

É um jovem, cujo nome não me lembro, que começa a sorrir com todos os dentes antes mesmo de ouvir a primeira pergunta, mais liberal do que Paulo Guedes e implacável com a oposição.

Poderia perfeitamente ser um líder do governo da “nova política”.

Nada é capaz de mudar o discurso dos “analistas políticos”, arrancar deles alguma emoção diante das tragédias diárias.

Comportam-se como se estivéssemos vivendo na mais absoluta normalidade, em pleno Estado de Direito, com emprego para todos e a economia bombando.

Falam com absoluta fleugma, como se o Brasil fosse um país nórdico, onde a felicidade geral só depende agora da aprovação da reforma da Previdência. O resto é detalhe.

Com o país de ponta cabeça, lembram um velho realejo que toca sempre as mesmas músicas para o mesmo periquito mesmo quando não há platéia.

Estão em todos os canais, abertos e fechados, e são tantos que já não dá para saber quem ali é convidado ou contratado da emissora.

Foi a fórmula com baixo custo de produção que as empresas encontraram para fazer jornalismo com menos jornalistas, assim como os bancos em breve poderão operar sem bancários.

Jornalistas profissionais neste novo mundo são um perigo, porque sempre podem descobrir coisas que não deveriam e causar problemas.

Enquanto isso, o bolsonarismo vai ditando a pauta e montando sua própria rede particular de comunicação, na velha e na nova mídia, escolhendo a dedo empresas e jornalistas para falar aos seus seguidores.

Com esses “analistas políticos” e o que sobrou de imprensa livre, para não se aborrecer, melhor mesmo cada um produzir suas próprias análises.

É o que tento fazer cotidianamente neste Balaio, com toda liberdade, graças a Deus. Prefiro errar sozinho do que entrar na onda do pensamento único.

E com a ajuda de vocês, claro, meus caros leitores.

Vida que segue.

 

27 thoughts on “De onde brotam tantos “analistas políticos”? Como são criados? Onde vivem?

  1. Ricardo,
    te escrevo por aqui pq não achei p onde enviar… negócio é o seguinte: naquela sua carta p o Lula tem uns “Ninguém Faz Nada” que me machucam… manda teu email em pvt p a gente conversar… tem uma peça de teatro e teu nome tá no meio.
    Abc

    1. Caro Regensteiner, é claro que sempre alguém faz alguma coisa, dentro das suas possibilidades.
      Mas, o que resta, no frigir dos ovos, é que nada muda, o Lula continua preso e o país afunda. De que peça você está falando? abs

  2. Kotscho:
    post lúcido, esclarecedor para os que acreditam ainda nos “comentaristas”, “analistas”, “especialistas”, “convidados especiais” et caterva que infestam os meios de comunicação. Ainda falta fazer um diagnóstico desmascarador sobre o astrólogo olavo de camargo.
    Abraços,
    josé maria

  3. Uma característica das opinião próprias do Mario Sérgio Cortella são as interjeições entre duas dessas opiniões, aquele “-Hãããn…” Coisa pra balançar nosso Balaio…
    Pra não falar do azédo do Azevedo nem do Todo Poderoso Pondé!
    abraço
    Paulo Caruso

  4. Caro amigo Kotscho,com tantos analistas/especialistas vendendo soluções genéricas para todos os males do brasil, estão pareçendo aqueles vendedores ambulantes especializados em “garrafadas” que curam tudo,de dor de cabeça a dor de cotuvelo,tudo com o mesmo “remédio” a mesma garrafada!
    São tão especialistas em saúde, quanto estes que voçê citou são especialistas generalidades!!
    São novos charlatões que vivem de ver palestras na internet e ler livros de auto-ajuda para poderem se apresentar como profundos conhecedores de quase tudo,que no fundo é quase nada!!
    E dessa maneira vão colecionado seguidores na internet ,tão vazios quanto eles mesmos!!
    É a vitória da estupidez sobre a razão!! Até quando?
    É o brasil caminhado rapidamente em direção ao caos cultural e civilizatório!!
    Força Amigo! Estamos juntos na resistência!!

  5. “Nestas conversas entre amigos, moderadas por apresentadores igualmente amestrados, não há contraditório, raramente surge alguma polêmica”
    Você está se referindo aos “especialistas acima” ou às entrevistas da trupe Bozo com o SBT e Record?

      1. Eu entendi, Kotscho. Só fui irônico e tentei ilustrar (dando nome aos bois) aos especialistas, sejam ou não jornalistas. Record e SBT, infelizmente, aderiram à essa estupidez de seguir quem está na frente, mesmo que seja o Bozo descendo a ladeira.
        Gostaria de saber sua opinião sobre a liberação das entrevistas do Lula. Abraço e parabéns pelo blog, de altíssimo nível.

  6. Caro Ricardo Kotscho, tenho reparado que nos últimos tempos não só os mencionados “analistas políticos” estão repetindo, feito papagaios, a “importância fundamental”, a salvação do Brasil e o fim de todas nossas mazelas sob a ótica do mercado e da reforma da previdência, com a contribuição diária dos comentários dos chamados jornalistas da chamada grande mídia, vide Gerson Camarotti, João Borges, Eliane Catanhêde, Cristiana Lôbo, etc, etc, etc. Parece-me que esses jornalistas estão falando de uma país tão distante que as vezes acho que estou assistindo a um filme de ficção. Será que eles não tem amigos, parentes, pais, irmãos, irmãs, vizinhos, enfim, alguma pessoa com o pé no chão para lhes mostrar pra onde realmente estamos caminhando?

      1. Kotscho e Joper, há algum tempo consegui falar com a tal Cantanhede do Estadão e Globo News e perguntei por que ela perseguia tanto Lula, Dilma e o PT e sabe o que ela me respondeu? -“faço isso para defender os pobres, que são minha maior preocupação”. Saí sem olhar para trás.

  7. Mensagem educativa de Ricardo Kotscho. Com 3/4 de século na experiência de vida, participo, sabendo da importância deste Blog. Há fonte que emburrece “sem querer querendo”. Curioso, contemplo o espelho. Eis o aprendiz de leitor, seguidor e comentarista, ciente da responsabilidade. O cotidiano taí pra ser lido. Pra mim, quando a fonte é boa, é água de beber. No Balaio cabe tudo e o contraditório também. Post contextual, didático e pedagógico, fonte para seminários nas Universidades que “formam” os futuros analistas políticos. Ficarei atento à “tela especialista” em explorar estagiários doutores sem salários.

  8. Na pequena parte do mundo que me cabe, penso que seus achados, “estalos”, vão de encontro, por um caminho muito peculiar, ao que há de mais avançado na reflexão política contemporânea. Algo ausente nas análises especializadas na mídia televisiva e jornalística? Terreno minado aqui, pois quem palpita como convidada parece não poder fugir de uma atribuição forçada de racionalidade ao quadro atual. Ninguém começa fora desta ficção de normalidade, sendo obrigada apresentar o absurdo de forma palatável. Como se no auge do nazismo, uma emissão radiofônica começasse assim: “o governo redirecionou verbas para ampliar e tornar mais eficazes as operações de Treblinka, Dachau e Auschwitz, segue o comentário do nosso analista junior sobre a modernização da máquina de eliminar a impureza racial”.
    Como vocês dizem saborosamente em São Paulo: o governante “se superou”.

    1. Aqui tem governante? Se tem, Serena, só a perversa elite dominante usufrui do voto de 57 milhões de deslumbrados. Desempregados e biqueiros já superam este total. Esse eleitor aloprado, pau mandado da extrema direita, despareceu nas pesquisas de aprovação à Brasília. Nas ruas, ninguém sabe do presidente. Aonde está o povo que votou nele? Com todo respeito, ganhou passaporte diplomático e foi conhecer Auschwitz, afinal recebeu recomendações de perdoar os assassinos de 6 milhões de almas.

  9. Sempre tive essa curiosidade de saber de onde aparecem essas tais figuras as vzs fico penssando como eles além de saberem de tudo ,eles tem soluçao para tudo e como se fossem pessoas Mágicas são como gênios que opinam sobre tudo mais nao são chamados para resolver nada apenas convencer as pessoas eles falam para quem penssa igual a eles

  10. Prezado Kotscho: Você tem razão: “Enquanto isso, o bolsonarismo vai ditando a pauta e montando sua própria rede particular de comunicação […]” e enchendo de fake news os jornais nas suas variadas plataformas porque vira e mexe não tem nada de consistente para dizer. “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.” (Luis Fernando Veríssimo).

  11. Para analistas puliticus citados no Post, não se pode mudar as perguntas. As respostas vem prontas de casa e “deferidas” pela mídia. Analistas sem salário provam que a Lei áurea foi abolida. Audiência é quase sempre menos traço. Difícil garimpar nesse segmento. Só dá ouro de tolo. O texto de hoje é uma TCC. Irreparável denúncia-análise, corajosa leitura quem é do ramo.
    Dirigir programas com analistas puliticus, implode qualquer currículo. Bate na madeira. Feliz Páscoa para todos.

  12. >se nao houver uma boa reforma da Previdência, já se sabe, o Brasil afundará no Atlantico. Mas PODE ser salvo desde que o Oleo Diesel aumente
    pra já 6%.
    >O Gurubú, os Estadozunidos da America e Israel , nesta ordem sao nossos melhores benfeitores e amigos.
    >o ‘PostIpiranga’ ja tem todo o esquema para vender a Petrobras, a Goiababrás e a propria Embrapa, esta para a Bayer (herdeira e substituta da MONSANTO )

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