A felicidade finlandesa, os velhos amigos e os ciclos da vida

A felicidade finlandesa, os velhos amigos e os ciclos da vida

Cronista bom é aquele que escreve o que a gente também sente. Flagra nossos pensamentos e angústias, escracha o que apenas pressentimos.

Foi o que pensei ao ler a coluna “E se?”, publicada neste domingo, na Folha, pelo jovem Antonio Prata, filho dos meus bons amigos Mario Prata e Marta Góes, enteado de outro chapa, o Nirlando Beirão, um mineiro europeu.

Nesta família de craques do bem escrever, Antonio começou seu texto assim:

“Lá pelo fim da festa, no meio de mais um papo deprimente, e idêntico a tantos outros que venho tendo nos últimos meses, cujo título poderia ser “como diabos o Brasil degringolou desse jeito e agora meu Deus será que um dia a gente sai do atoleiro?” (…), e por aí vai.

Leiam o resto no jornal ou no online, vale a pena.

Tinha acabado de ler a reportagem “Finlândia lidera ranking mundial da Felicidade”, de João Perassolo, também na Folha (página A20), que mostra a importância dos amigos para o bem viver.

Uma coisa foi puxando a outra e resultou no título desta minha cronica de domingo.

Por coincidência, sexta e sábado reencontrei velhos bons amigos, que não via há tempos.

Como pouco tenho saído de casa, com dificuldades de andar cada vez maiores para vencer um ou dois quarteirões, tenho visto pouca gente além do meu bar da esquina, bem aqui ao lado.

Na verdade, tenho visto menos amigos não só por conta das dificuldades de locomoção, mas também por outras razões.

A quantidade de amizades parece seguir nossos ciclos de vida: vai aumentando com o tempo e, a partir de um determinado momento, começa a declinar por causas naturais, entre elas a partida dos que vão embora mais cedo.

Já perdi boa parte dos meus amigos de ginásio, colegas dos meus primeiros tempos de redação e outros que ficaram pelo caminho nos últimos tempos, em razão de divergências políticas inconciliáveis nestes tempos intolerantes e delirantes do bolsonarismo em marcha.

Amigos que sempre respeitaram as diferenças _ sou são-paulino e petista, nesta ordem _ passaram a se estranhar comigo, não só ao discutir futebol, mas também porque eu me recusava a mudar de lado ou não assumir lado nenhum, como muitos deles fizeram nas últimas eleições.

Eram relações bem antigas e alguém há de perguntar se a política justifica o rompimento, mas a questão não é só ideológica. Refere-se mais a princípios e valores que me são muito caros.

Não posso me imaginar mudando de time ou de partido, mesmo nos piores momentos.

São formas diferentes de encarar a vida, que se acirram em momentos de crise profunda como esta que estamos vivendo, e da qual fala Antonio Prata em sua coluna.

Mas prefiro falar dos cada vez menos amigos que ficaram e com quem conversei neste fim de semana.

São pessoas que muitos de vocês devem conhecer _, um maestro, um político, artistas e jornalistas _ mas vou preservar seus nomes porque podem não concordar com o que estou escrevendo.

O resultado do Relatório Mundial de Felicidade, divulgado no último dia 20, que aponta a liderança da Finlândia e deixa o Brasil em 32º lugar, pode ser explicado por vários motivos, além da renda per capita e da vida saudável.

A boa convivência com amigos e os parentes próximos é o principal deles, segundo um dos editores do relatório, John Heliwell, de 80 anos.

“Os finlandeses são especiais em coisas mais profundas e duradouras, felizes com suas vidas como um todo. Não se orgulham, não falam de si mesmos e não ostentam”.

É exatamente o contrário do que vemos por aqui, onde abundam os tipos autobiográficos, aqueles que ostentam suas conquistas amorosas, profissionais e financeiras, e não costumam ouvir o que os outros falam.

São donos de sapiências variadas e verdades absolutas, que agora podem ser contestadas com uma simples consulta ao doutor Google.

Curioso é que pessoas vitoriosas e admiradas em suas atividades são as mais simples. Gostam mais de contar causos com histórias dos outros, brincar com seus próprios defeitos e falar da vida com leveza, sem a eterna competição do ganhar e perder.

“Eu não quero ter razão, só quero ser feliz”, ouvi certa vez de não sei quem, e guardei como um belo ensinamento.

Claro que é cada vez mais desafiador ser feliz com tantas desgraças, tragédias e misérias à nossa volta, e a gente tem que fazer uma força danada para sair do atoleiro em que nos metemos.

Responder à pergunta do cronista da Folha não é fácil. Ele elenca mil fatos aleatórios e imprevisíveis que, se não tivessem acontecido, poderiam, cada um deles, ter mudado toda a história.

Dá para comparar com desastres ferroviários em que quase nunca um só fator é determinante, mas um conjunto que se soma para provocar o acidente.

Assim é também nas relações humanas, em que se gasta mais tempo procurando os culpados do que as causas, para evitar que se repitam.

Com o tempo vivido, acabamos ficando mais exigentes, menos pacientes, priorizamos a qualidade à quantidade em tudo o que fazemos.

No caso dos finlandeses, por exemplo, tem um detalhe importante para explicar seu bem-estar longevo, como disse o pesquisador John Helliwell: eles vivem num dos países mais frios do mundo, o que os leva a ficar mais tempo em casa com a família ou numa taberna com os amigos.

Vivem mais para dentro do que para fora, ao contrário de nós, brasileiros, principalmente os do Rio para cima, onde o calor empurra as pessoas para a rua e torna as relações mais fluidas na busca do prazer, pulando de bar em bar, de festa em festa.

Neste já ocaso da vida, tive a sorte de morar ao lado de uma taberna antiga, a Tabacaria Ranieri, do amigo Beto, e ser aceito naquela confraria onde as amizades são preservadas por longo tempo.

Lá posso fumar, beber e jogar conversa fora, sem ter nem que atravessar a rua.

A maioria desses amigos é bem conservadora, diverge das minhas posições políticas e do que mais penso, mas todos lá me respeitam.

Tem de tudo: advogados, artistas, grandes e pequenos empresários, operadores financeiros, fazendeiros, executivos, e quase todos fumam charuto, enquanto eu continuo fiel ao meu velho cigarrinho.

Faz muito tempo já que não dirijo mais, o que também limita minhas andanças, mas não sinto falta disso.

Já viajei pelo Brasil todo e por meio mundo a trabalho como jornalista, e menos a passeio. Conheço mais gente e lugares do que jamais sonhara.

Quero agora só um pouco de paz e ganhar o necessário para pagar as contas, o que se torna cada vez mais difícil no nosso país.

A situação dos velhos amigos que encontrei no jantar de sexta e no almoço de sábado não é muito diferente da minha, mas não ficamos só falando dos achaques da saúde, médicos e remédios.

Até conseguimos dar algumas boas risadas, e é isso que importa.

Pensando bem, já estou quase virando um finlandês…

E vida boa que segue.

 

25 thoughts on “A felicidade finlandesa, os velhos amigos e os ciclos da vida

  1. Mestre querido, descobri que quanto mais sábio mais isolado vive o ser porque em vez de chafurdas na cultura líquida decadente ele busca as respostas dentro de si. Tudo que nos rodeia importa mas as soluções estão no nosso interior onde nos encontramos com Deus ou o que o valha. Finlandeses se buscam por dentro. Te amo brasileiro e universal com sua sabedoria heróica. Eu sempre vou te ler por toda minha vida vou te ler…

  2. Kotsho, de minha parte a ruptura se deu quando o inominável prometeu fuzilar, prender ou exilar, aí deixou claro que não sou adversáriospoliticos, mas inimigo a ser aniquilado, portanto como inimigos também serão tratados. Não divido o ar que respiro ou um gole de agua com um bolsomion. Sobre futebol, meu colorado dos pampas ao homenagear o inominável com a camisa 10, perdeu um sócio.

  3. Caro Kotscho, além de tudo o que foi dito, nessa semana li uma frase do Pepe Mujica que também pode ser usada para explicar a infelicidade :”Dentre os animais, o ser humano é o único capaz de y
    tropeçar várias vezes na mesma pedra”
    Não sei dizer qual é a melhor, se a crônica do Antônio Prata ou se essa tua sobre a crônica dele, o que me remete à certeza de que nas próximas vidas seremos amigos de novo ainda que um renasça na Finlândia e o outro no Burundi. Isso porque ninguém nos toma a alma.
    Fiquei feliz de tua felicidade.

  4. Obrigado pelo texto, um bálsamo. Que leituras, evocações e encontros com amigos, alimentem a sinergia grupal, inspirando mensagens de Ricardo Kotscho, um autor feliz.

  5. Está difícil mesmo ser feliz nesse momento tão nebulosos no país, é preciso respirar fundo e seguir em frente, tomar um café com alguém que gosto já me faz muito bem. Como vc não deixo de ser petista, com uma diferença sou corinthiana.

  6. Prezado Kotscho: Entendo perfeitamente seu sentimento quando você relata que “Já perdi boa parte dos meus amigos de ginásio”. Eu também perdi, além de outros que não são do ginásio. Mas, por incrível que pareça, foi através de um comentário que fiz num post seu sobre um memorável 4 a 3 que o Corinthians ganhou do Palmeiras na década de 70, que um amigo do marista Colégio Nossa Senhora do Carmo, de quem não tinha notícia há mais de 40 anos, entrou em contato comigo. Estamos tentando marcar uma pizza com outros ex-alunos maristas dessa época. E torço, sinceramente, para que aconteça a tal pizza e que não exista “divergências políticas inconciliáveis nestes tempos intolerantes e delirantes do bolsonarismo em marcha.” Porque, cá entre nós, não dá para conversar, e muito menos comer uma pizza, com bolsonaristas. No mínimo o que pode acontecer é uma engasgada com a de “mozzarella” ou voar os saborosos triângulos para cima dos outros.

  7. Kotscho querido,
    sou deu devoto leitor, inclusive votaria a seu favor uma cadeira de imortal da ABL, que acaba de eleger nosso Loyola Brandão…
    Só pra não perder apiada, mais do que uma reflexão sobre suas palavras, sugiro que, antes do Bozo voltar do encontro com o BiBi Netaniau alguém levanta um cartaz na frente deles:
    “CIRCUNCISÃO JÁ!!!”
    abraços do devoto leitor desse seu Balaio

  8. Prezado Kotscho,
    Me senti amparado por sua crônica. Também não mudei de lado e nem abri mão de meus princípios e sonhos de um país mais justo e feliz.
    A frase “Não quero ter razão, eu quero é ser feliz” é do Ferreira Gullar. Ele confirmou isso numa entrevista que li há um bom tempo .
    Abraço,
    Zépaulo

  9. Kotscho, eu admiro tudo que você pensa e escreve e me identifiquei demais com essa frase, copiada de seu texto acima: “Não posso me imaginar mudando de time ou de partido, mesmo nos piores momentos”. Parabéns.
    Por oportuno, sou petista e santista.
    Abraços.

  10. Prezado Kotsho, bela reflexão sobre a vida e o passar do tempo.
    A frase “eu não quero ter razão, só quero ser feliz”, foi dita pelo poeta Ferreira Gullar já na fase derradeira de sua vida…

    Forte abraço!

  11. Prezado Ricardo,
    “Curioso é que pessoas vitoriosas e admiradas em suas atividades são as mais simples.”
    Acho também que as pessoas mais simples são mais compreensivas e vivem melhor o mundo.
    Abs.

  12. Caríssimo Kotscho: hoje você lavou e enxaguou minha alma! Sinto-me exatamente assim! Acabei de fazer 71 anos. Há muito sou sua fã: assistia o jornal da Record só para ver você e o Nirlando, com seus comentários excelentes e o português de dar gosto. Agora leio o 247. Obrigada por extravasar o que a gente sente! Abraços, Eliane Mey.

    1. Obrigado, Eliane. Em breve , starei de volta ao vídeo, no Youtube, ao lado de Ricardo Carvalho, velho repórter como eu para contar o que está acontecendo. Hoje gravamos o primeiro piloto.
      Quando for ao ar, aviso os amigos aqui no Balaio. Abraços

  13. Caríssimo Kotscho! Você é daquelas pessoas que “não conhecemos”, mas ao ler suas crônicas sinto como te conhecestes há longo tempo. O BALAIO é o meio que encontrei para expressar meus pensamentos “modestos” sobre alguns assuntos. A exemplo de Roger Federer, você continua “batendo um bolão”. Saúde e Vida longa, amigo!

  14. Kotscho, com você bem diz, “cronista bom é aquele que escreve o que a gente também sente”. É o teu caso : sinto exatamente o que você descreve na crônica de hoje (e em outras também). Principalmente concordo com a passagem “a questão não é só ideológica. Refere-se mais a princípios e valores que me são muito caros.”

  15. Caríssimo Kotscho
    Eu incluiria a Eslovaquia porque lá foi inaugurada um bebedouro de cerveja em praça pública, rsssss.
    Mas brincadeiras à parte, você que viajou muito pelo Brasil nas campanhas do nosso grande presidente, Lula sabe que o povo nordestino é muito mais feliz que o do sudeste, apesar da vida muito dura que tem.
    Penso que aí tem um componente de comportamento que o nordeste se viu (mais) livre, que é da ambição, diferente lá e cá.
    Amplexos alvi-verdes (rssss) e petistas!

  16. Mestre Kotscho

    Vou fazer 64 anos em maio. Divido a vida entre Maringá (PR) e Balneário Camboriú (SC), com incursões por João Pessoa, Natal, Maceió, Fortaleza. Jampa, confesso, é a minha preferida no Nordeste. Quanto aos nordestinos, ô gente arretada de boa!
    Sou jornalista aposentado e historiador. Resumo minha filosofia de vida em poucas palavras já ditas aos borbotões:
    Nem mais, nem menos. Somente o suficiente.
    Afinal, ninguém usa duas cuecas (ou calcinhas) por vez, não almoça – e nem janta mais de uma vez. E nem usa mais que um par de sapatos ou tênis simultaneamente.
    Bora, então, viver a vida combatendo o Circo de Horrores Bolsonaro sem ódio, nem balas e muito menos qualquer desejo de extermínio contra quem pensa diferente de nós.
    Fundamental é viver cada dia da melhor forma possível, sem frescuras e muito menos ódio. E, de preferência, viver de compartilhada, claro.
    Respire fundo, conte até 20 e, Eureka: você está vivo!
    Duvido que alguém aponte um motivo de felicidade maior do que este.
    abraço.
    corintianamente, luiz carlos rizzo

  17. Kotscho, já escrevi aqui neste blog/boteco que sempre leio seus textos e compartilho no Facebook mas quase não comento. Gosto muito, são redondos, não agridem. Gostaria de escrever assim pois quando escrevo o texto só tem quinas só arranjo inimigos.

    Reli este texto da felicidade finlandesa, vou decorar, não pode ser esquecido. Dei risadas também. Coloquei o link no WhatsApp para um amigo avesso a redes sociais ler, frequentador de boteco, só poderia ser, embora avesso ao PT, um defeito grave.

    Um abração, do leitor cativo deste Balaio.

    Luiz Brasileiro

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