Estamos apenas no 74º dia da nova ordem unida: sobrou alguma coisa boa para contar?

Estamos apenas no 74º dia da nova ordem unida: sobrou alguma coisa boa para contar?

Um dia de cada vez, 

Com uma noite no meio,

De ano em ano vou enganando o destino

E mesmo de saco cheio 

Levo minha vida de menino

***

Desisto.

Desde cedo, estou procurando por todo canto alguma história boa para contar aos caros leitores do Balaio para espantar o baixo astral.

Ao final de mais uma semana trágica e tormentosa, com o massacre de Suzano e a prisão dos milicianos amigos acusados do assassinato de Marielle e Anderson, lamento informar, mas não sobrou nada.

Não achei nem mesmo uma pílula noticiosa falando bem de alguém que tenha ajudado uma velhinha a atravessar a rua.

Na quinta-feira, ao saber que o presidente crazy-fake faria mais uma live nas redes sociais, até pensei que seria possível ouvir dele algum plano, qualquer um, que seja bom para o país.

Mas o capitão gastou seu tempo falando de novo da importação de bananas do Equador e dos problemas de trânsito, e aproveitou, claro, para falar mal da Folha.

Em que mundo esse homem vive?

Na véspera de mais um aniversário, já chegando aos 71, um verdadeiro milagre de sobrevivência para quem fez a primeira cirurgia aos 8 meses de idade, abro a janela do tempo e só encontro coisas boas num passado nem tão remoto.

No meu caso particular, o inferno astral que antecede os aniversários já dura um ano inteiro, sem nenhum sinal de que vá acabar tão cedo.

Fico pensando no que fizemos com nosso país para detoná-lo em tão pouco tempo.

Uso de propósito a primeira pessoa do plural, e não a terceira, porque acho que somos todos responsáveis, sim, por ação ou omissão, para chegarmos a esse ponto de completa anomia social.

Em que momento essa desgraça aconteceu, quando demos esse cavalo de pau que nos levou à ruína e à beira do abismo?

Desde o golpe de 2016, o Brasil deixou de ser um país admirado e respeitado no mundo inteiro, para se tornar este alvo permanente de chacotas e deboches na mídia internacional.

Viramos párias, uma nação desmoralizada no mundo civilizado, que ninguém mais leva a sério.

Agora querem trocar os embaixadores para melhorar nossa imagem no exterior, é inacreditável. Como se isso fosse possível, e houvesse mágicos disponíveis para essa missão.

Com o chanceler aloprado que temos, vai ser mais um motivo de galhofa e de vergonha.

Somos desgovernados à distância pelo guru da Virgínia, um caçador de ursos que orienta os filhos do capitão.

Em apenas 74 dias de poder da nova ordem unida, não sobrou pedra sobre pedra e, pior, não nos permitem mais nem ter esperança de dias melhores.

Para quem acha que isso é coisa de velho ranzinza, recomendo a leitura atenta da coluna de Fernanda Torres, que é de outra geração, publicada hoje, na Folha Ilustrada, com o singelo título “Cama”.

Termina assim: “Para não desesperar, continuo fazendo a cama”.

E que faço eu, que nem minha cama sei arrumar?

Estou aqui apenas cumprindo tabela, com as filhas bem criadas e vendo os netos crescer, mas me preocupo muito com o futuro deles, apesar de nada mais poder fazer para lhes deixar um país melhor.

Continuo aqui escrevendo todos os dias, a única coisa que sei fazer, mesmo sabendo que as palavras perderam a serventia.

Por uma imposição do meu ofício de repórter, não posso inventar histórias para agradar aos leitores, mas é exatamente isso que mais fazem nossos atuais mandatários: mentem, mentem tão descaradamente que devem até acreditar no que falam.

E tem muita gente que acredita, para continuar se iludindo com o Mito, este ser estranho e assustador, que até agora não tem a menor ideia do que está fazendo na Presidência da República que lhe caiu no colo. Parece assustado até agora…

Incapaz de juntar duas frases com sentido sem tropeçar nas letras, como mostrou durante toda a campanha, foi na mão dele e da sua tropa de celerados paisanos ou de pijama que entregamos nosso destino.

Descobri com o tempo que escrever é um permanente conversar com nós mesmos, ainda que nos dirijamos a terceiros, sem saber exatamente aonde queremos chegar.

Chegar ao final de um texto sem encontrar uma saída, um alento qualquer, dá uma sensação, ao mesmo tempo, de vazio e de fracasso, já que sempre me proponho a buscar coisas boas para contar, alguma história inspiradora de pessoas que, mesmo remando contra a maré, ainda lutam para viver num país melhor e mais justo para todos.

Já não basta denunciar todo dia as barbaridades cometidas pelos inquilinos do poder, que agora se acham donos, e a inação da sociedade civil, que poderia se opor a eles.

Eles estão cumprindo uma missão, como repete sempre o chefe da tropa _ e nós?

O que nós podemos fazer para sair desse buraco sem fundo em que nos metemos?

Por onde recomeçar? Faltam-nos nesse momento lideranças, bandeiras, referências, interlocutores, projetos de país, um plano de voo qualquer.

Para onde se olha, é só desalento e perplexidade diante das maluquices em série produzidas em Brasília, que sufocam o Brasil e nos deixam paralisados.

De onde saem tantos cretinos e desatinos, tanto ódio e tanto mal, tanta sede de vingança e covardia, tantos descalabros, perseguições e bizarrices?

Em que tocas toda essa gente se escondia antes de assumir o poder, em todas as latitudes, em todos os níveis de governo?

Como viviam, o que faziam, o que comiam, o que liam, o que conversavam, como se relacionavam com seus vizinhos, o que pensavam da vida?

De repente, parece até que o país foi invadido por extra-terrestres numa guerra de extermínio.

Aonde querem chegar, qual é o objetivo?

Se alguém tiver respostas para minhas tantas dúvidas, a esta altura do campeonato da vida, por favor, me mande de presente.

Com tantos enterros a que já assistimos este ano, não há clima pra festa, mas ainda dá pra tomar uma cervejinha com a família e os amigos, lembrando que um dia já fomos felizes, sem sair daqui.

Vamos abrir os trabalhos?, como sempre diz meu querido irmão Alemão, aquele boa vida. Tim-tim.

Vida que segue.

 

19 thoughts on “Estamos apenas no 74º dia da nova ordem unida: sobrou alguma coisa boa para contar?

  1. Mas tem, sempre tem.
    O crédito fica com a adolescente, que faz parte do time das craques, do qual a sua Bebel seria a meia-armadora, a jovem sueca Greta Thunberg, que passou a fazer protestos rotineiros em frente ao parlamento da Suécia contra o aquecimento global. Hoje haverá manifestações no país convocadas por ela, aqui no Brasil.

  2. Minha esperança é uma espécie de autofagia desse “sistema”. Eles irão se devorando, como uma cobra comendo seu rabo. Minha preocupação é o que restará. A oposição consegue praticar “pequenas autofagias” de quando em quando, ao invés de se unir e crescer.

  3. Mas tem o Marcelo Luna, do jet ski, o baixinho que surfa ondas gigantes em Nazare –
    Portugal e onde mais as houver.
    Nas horas vagas – e terriveis horas para as vitimas – salva dezenas delas em SBC arriscando a vida.
    O Marcelo é de cinema.

  4. O PSL fascista veio para finalizar o trabalho em curso: destruir o Brasil, obra que iniciaram com o Golpe de Estado. A pergunta que fica é: devemos nos abater? Podemos nos abater? Ou devemos levantar a cabeça e enfrentar a fera fascista que ameaça todos os poros dessa sociedade? Ainda resta tempo pra lutar e enfrentar, por mais desalentador que esteja o clima desse país…

  5. VOO CEGO
    ………………..
    Verdade nua e crua.
    Chute no saco.
    Cerol na linha do horizonte.
    Pandorga de pijama em parafuso.
    Pipa sem vareta.
    ……………………..
    Bolsô é capucheta.
    Desencanto engole vento.
    Kotscho endoidou.
    Quer plano de voo.
    Crasso erro.
    ………………….
    Elementar meu caro.
    Presidente é Boing 737 Max 8.
    Não decolou, não decola mais.
    Sem piloto, sem asas,
    sem turbina, sem pista,
    sem passageiros… sem competência.
    …………………..
    Alemão… boa vida, tim tim!
    ………………….
    (Ousasse Embraer comprar a Boing,
    não veríamos o aviãozinho de papel,
    voo cego, 28 anos no Congresso,
    sem chegar a lugar nenhum).
    ………………..
    Brasil em voo cego!

  6. Prezado Kotscho: Se “Na quinta-feira, ao saber que o presidente crazy-fake faria mais uma live nas redes sociais” você tinha alguma esperança de ter alguma boa notícia, se prepare porque para essa semana que entra vai ser o festival das notícias nas redes (anti)sociais porque o “capitão” está indo pentear o topete dourado do seu ídolo, o presidente americano. Que “negócio” virá desse encontro? Não nos esqueçamos de que “Apesar dos alertas, o Brasil elegeu para governantes fantoches despreparados e entreguistas a serviço dos interesses estrangeiros que desejam rapinar o país e seu povo.”, como bem lembrou no post “Brasil: a metáfora da barbárie” no blog https://perrengasprincesinas.blogspot.com o autor Mário Sérgio de Melo.

  7. Sobrou alguma coisa boa para contar? SIM. De minha parte, tenho devolvido, com o mesmo ódio que ouvi há algum tempo, que todo eleitor do Boçalnaro é um idiota, imbecil, cúmplice do desastre ou no mínimo, irresponsável. Sim, porque sabiam que o cara era desqualificado, sem controle emocional, sem ideias ou moral (e agora todos sabem, ligado à facções criminosas e corrupto). E mesmo assim, essa grande parcela da sociedade o elegeu, tendo outras inúmeras opções. Portanto repito: sobrou uma grande oportunidade de apontar o dedo para esses eleitores (imbecis) que elegeram Boçalnaro e jogar-lhes na cara que os culpados são eles, embora todos nós sejamos vítimas. Eu sei que o que sobrou é bem pouco, mas tem sido meu oxigênio nos últimos dias. E até agora, o silêncio tem sido a resposta desses imbecis, porquê sabemos que tem coisas que não adianta negar.

  8. O manjado picareta Dalagnoll esta levantando um espantalho PREVENTIVO para a Midia – que encomenda hein!!- ao dizer que os julgamentos passados da vara vazajateira podem ser anulados… Ta na cara o jogo e o “medo”dele.
    Tera ele o pesadelo que, a rigor as alegadas corrupções que levaram Lula a prisão podem sim, em ultima analise ter uma conotação eleitoral e foi por essa circunstancia conspiratória que o capitão Koiso chegou a vitoria. Vitoria q hoje envergonha a nós tupiniquins e ainda enriquece o anedotário mundial.

  9. Há anos me alimento com suas palavras. Elas jamais vão perder a serventia. Precisamos das suas palavras pra não perdermos a esperança. Felicidades!

  10. “Em que momento essa desgraça aconteceu, quando demos esse cavalo de pau que nos levou à ruína e à beira do abismo?”

    Precisamente ao cair da noite de 06 de junho de 2013, Mestre, quando na Praça Ramos, em São Paulo, o MPL, como fazia desde 2005, iniciou a passeata da primeira jornada de 2013 contra o aumento de tarifas no transporte público e a Globo transmitiu-a ao vivo, durante o JN, prosseguindo com os ‘tradicionais’ entreveros com o choque, ao vivo, durante os intervalos da novela, de forma inédita e impensável, pelo fato que antes nunca a Globo dera qualquer destaque ao MPL, quanto mais ao vivo. Liguei então o desconfiômetro sabendo que alguma coisa se movia fora da ordem e não era o MPL.
    Concomitante, a campanha institucional da Fiat, ‘Vem pra Rua’, há dias sendo divulgada intensamente pela mídia, prosseguiria, junto com as ‘inéditas transmissões ao vivo’ da sequência do movimento.
    O resto, ‘todos’ sabem ou desconfiam, restando apenas ligar-se os pontos e julgar-se os responsáveis pela tragédia em que mergulharam o país, quando a democracia for restabelecida.

  11. Sr Kotscho. Tudo certo. PÔ! A barra tá pesada. Mas. Pense. Faça um retrospectiva na história desta republica de “ordem e progresso”. Quantos ‘cavalo de pau’ foi dado. Estamos à beira do ‘abismo’ sempre.

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