Hebe, Pelé, Boni, Lula: o Brasil é um país sem peças de reposição

Hebe, Pelé, Boni, Lula: o Brasil é um país sem peças de reposição

Calma, os quatro personagens do título nada têm a ver um com o outro.  Poderia ter citado outros, aleatoriamente.

São apenas exemplos que usei para ilustrar um tema em que há tempos venho pensando e também preocupa meu amigo Adriano Silva, que me pediu para escrever este texto: o Brasil é um país sem peças de reposição, como um velho calhambeque cubano.

Hebe faria 90 anos na última sexta-feira. Existe no horizonte da TV brasileira alguém que possa ocupar o seu lugar?

Os outros três estão vivos, mas também não deixaram herdeiros em suas áreas de atuação.

Para onde a gente olhar na atual paisagem humana brasileira, nos deparamos com um deserto de gente, lideranças e talentos que façam a diferença e saiam do lugar comum.

Vamos pegar a música, por exemplo. Depois de Chico, Caetano e Gil, Tom & e Vinicius, o que tivemos para ficar na história?

Da igreja ao futebol, dos banqueiros aos sindicalistas, do teatro à política, da televisão ao jornalismo, da advocacia ao cinema, acontece o mesmo.

Os grandes nomes lembrados em primeiro lugar são todos do segunda metade do século passado. Poucos deles sobreviveram.

Quem apareceu com autoridade para falar em nome da igreja católica depois de dom Hélder e dom Paulo?

Em lugar de Pelé, eu poderia ter citado Garrincha, mas depois deles quem poderia ser chamado de gênio do futebol? Neymar?

Se você tiver que citar o nome de um grande banqueiro, quem vem à lembrança, depois de Amador Aguiar e Moreira Salles?

Qual foi o grande líder sindical que surgiu depois de Lula? E quem sobrou para ocupar o lugar dele como líder político de esquerda?

No campo oposto, a direita ficou tão órfã de lideranças que o mercado foi buscar um capitão reformado meio esquisitão para ocupar o vazio e voltar ao poder.

No teatro, depois do Oficina e do Arena, de Guarnieri, Boal e Martinez Correa, quem?

Apareceu alguém com a genialidade de Gláuber Rocha depois dele e da turma do Cinema Novo?

Quem pode ser apontado como sucessor de Boni, nome de guerra de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o homem que inventou a televisão brasileira como ela é até hoje?

Da mesma forma, permanecem as marcas de Cláudio Abramo e Alberto Dines nos jornalões paulistas e cariocas, que eles revolucionaram nos anos 60. Vale o mesmo para o Mino Carta no ramo das revistas.

Para quem já teve juristas como Raymundo Faoro e Sobral Pinto, qual o nome do atual STF que pode ser comparado a eles? O Fux?

Antes lembrados por qualquer transeunte, quem sabe hoje os nomes dos presidentes da UNE, da CNBB, da ABI, da OAB, e por aí vai. O que restou da chamada sociedade civil?

Quando se olha, então, para o Congresso Nacional e o ministério bolsonariano, e se compara com outros tempos, dá vontade de chorar.

Não se trata de ser nostálgico ou saudosista e repetir aquele vulgar “no meu tempo era melhor”, porque eu também sou deste tempo de agora.

A falta de peças de reposição acabou nos levando à tragédia de viver num país sem lideranças, em nenhuma latitude, capazes de se confrontar com as viúvas de 1964, agora legitimadas pelo voto popular. E Lula vai completar um ano na prisão de Sergio Moro em Curitiba.

No atual desfile de fardas e togas pelo centros do poder de Brasília, tem alguém que possa ser lembrado daqui a 50 anos?

Os nomes por mim aqui citados de memória podem ser trocados por outros, à vontade do leitor, mas dificilmente vai aparecer algum mais jovem, de outra geração.

Minha geração ganhou e perdeu muitas batalhas, mas produziu lideranças respeitáveis e lembráveis, que reconquistaram a democracia e a liberdade, agora novamente ameaçadas.

Bom domingo, vida que segue.

 

26 thoughts on “Hebe, Pelé, Boni, Lula: o Brasil é um país sem peças de reposição

  1. Minha resposta: sim, essas pessoas são insubstituíveis. Mas isso não quer dizer que não tenha surgido gente boa. Acho que podemos olhar para as novas gerações sem tanto preconceito. Na televisão e no rádio, por exemplo, ainda há quem lute por um espaço digno. Há sim bons programas e há quem ainda aposte neles. Fazendo propaganda em causa própria, acredito que o Momento Papo de Mãe preste um excelente serviço público ajudando as famílias brasileiras na criação dos seus filhos. E agora a rádio Capital abre espaço para falar sobre feminismo, violência doméstica e direitos da mulher. Quando no passada tivemos isso? É hora de lutar ainda mais e não de saudosismos. Beijos, pai. Assista ao Momento Papo de Mãe todos os dias (hoje a maior audiência da TV Cultura) e ouça o Capital Mulher todos os sábados que você verá que há esperança.

  2. Detalhe: Hebe foi uma apresentadora de TV extraordinária, sem dúvida. Mas o que fez pelo país? Pelé foi um grande jogador, mas incapaz de reconhecer uma filha fora do casamento.
    Lula teve tudo para ser um grande presidente e ficar para a história, mas derrapou no meio do caminho.
    E Boni foi um bom funcionário nas empresas onde trabalhou (e há controvérsias)…
    São esses os grandes nomes tão insubstituíveis da nossa história? Fica aqui para reflexão.
    De que ou de quem realmente sentimos saudades???
    E o que estamos fazendo hoje para um futuro melhor?Fica, inclusive, minha pergunta diária: cadê a oposição séria e organizada? Enquanto estiver perdendo tempo com a nomeação do Zé de Abreu, ficaremos na mesma.

        1. Acho que vc não entendeu o texto do seu pai. Ele está se referindo a importância que essas pessoas tiveram, Pelé como atleta, Boni como profissional da televisão, Lula como sindicalista, etc. É claro que, assim como você e eu, os citados pelo Ricardo , por serem humanos, são passíveis de defeitos.

    1. Foram gigantes sim, mariana, cada um em sua área.
      Quanto aos defeitos posso falar dos de JFK, Churchill e os outros, só nao vou conseguir do JC Nazareno.
      E não foram substituidos como voce bem sabe. Quanto a Lula onde derrapou que houvesse alternativa politica e socialmente factivel, repito, factivel e viável? Nao o merecemos, isso sim. A engenharia só é admiravel quando a obra ainda não acabou.

  3. Acrescento a esta lista o nosso campeão Ayrton Senna, parece insubstituível até então, o que dá impressão que falta ideologia, afinco. Hj tudo está centrado no poder, dinheiro e cada um por si,mas como vc diz vida que segue,e tem que seguir, bora mito começar governar esse país.

  4. É mais uma questão de óptica. Daqui a 50 anos o nome do RK será lembrado como um grande jornalista. Não é obrigado aceitar tudo que lê. Até lá, não haverá mais cinzas de quem escreve, nem de quem tenta entender. Ninguém é perfeito em tudo que faz: – será que o Pelé-jogador teve o mesmo sucesso do Pelé-pai? Tim Maia e Raul Seixas tiveram no mesmo patamar de sucessos; porém, por um questão de escolha, sou mais o estilo musical do Raul. Em 1979, quando estive em Pernambuco, perguntei ao pai da Campanha da Fraternidade
    sobre a honestidade do seu ‘grande líder’, ex-sindicalista, nesta época, depois, postulante ao cargo de presidente, se Ele era, realmente um homem honesto de verdade, e o Dom Helder prontamente me respondeu, de viva voz, pausadamente, que, esta resposta somente a História iria me responder – futuramente ao final dos tempos. Cada um tira a sua conclusão da sua maneira. Conheci todos acima citados pelo articulista. E tenho o defeito, ou virtude, de pesquisar sobre todas as pessoas que me despertam a curiosidade. Pesquiso em várias áreas do conhecimento. Conclusão: a personalidade e o valor de uma pessoa tem que ultrapassar o seu próprio nome e limite. Escrevo pra trazer mais luz – jamais ofender as pessoas.

    1. Cito quatro: Lula, Lula, Lula e Lula;
      mais 4: Pelé, Pelé, Pelé e Pelé.
      Os 4 últimos marcaram 1248 gols…
      Os 4 primeiros tiraram da miséria 36 milhões de irmãozinhos.
      São 375 mil brasileiros… por mês!
      Inacreditáveis 4 milhões e meio por ano.
      Pelé marcou gols de placa para o povo de Lula. LULA marcou para o povo de Pelé… o maior golaço que o planeta social Terra já aplaudiu.

  5. É mesmo.
    E voce não falou em Paulo Freire, nem daria para citar tudo mesmo.
    Mais Paulo Brossard.
    Ou Darcy Ribeiro… e terá mais.
    Vou acabar acreditando na tese de que quanto mais complexa, afluente ou semi afluente, mais imersa em tecnologia se torna uma sociedade, mais ela elege, erige e reverencia mediocridades.
    Não precisa, pela lógica, ser assim. Apenas está factualmente sendo.

  6. Sem educação não vai ter reposição. A escola publica foi destruida, e a escola particular não forma conhecimento, e sim lideranças para ganhar dinheiro. Desculpe o pessimismo mas não vai ter solução sem investimento na educação.

  7. Kotscho, para os bolsonaristas,
    milicianos são “bandidos do bem”, é dessas hostes que estão saindo as pecas de reposição. Que deus tenha piedade desta nação.

  8. Prezado Kotscho: Como resposta à sua pergunta se “No atual desfile de fardas e togas pelo centros do poder de Brasília, tem alguém que possa ser lembrado daqui a 50 anos?”, diria com tranquilidade que não e tem mais. Como não sou um idiota e muito menos um dos 57 milhões de seguidores que elegeram o “capitão”, tenho entendido muito bem o que ele vem dizendo e dispenso interpretações de outros milicos de plantão. Essa de acabar com as lombadas eletrônicas é mais uma estupidez comunicada pessoalmente pelo presidente e que só vai aumentar o número de boçais no volante em alta velocidade, para acabar de vez com a pouca segurança que existe nas vias públicas para os indefesos pedestres. Mas, também, o que se pode esperar mais desse governo medíocre?

  9. Concordo com quase todos, exceção feita a Hebe, uma pessoa racista, que defendeu varias vezes no seu programa que a empregada doméstica deveria passar um tempo sem ganhar nada, pois estava aprendendo, ademais sempre apoiou Maluf, e se viva fosse, com certeza estava engrossando as fileiras de Bolsinaro, já Boni, foi o mesmo que proibiu Jó Siares de fazer propaganda na Globo quando este saiu de lá para o SBT, esse mesmo Boni foi visitar Castor de Andrade na cadeia na década de 1980, e tb apoiou a Ditadura Militar. Tanta gente para o senhor falar: Jânio de Freitas, Sócrates, José Trajano, Xico Sá, Juca Kfouri e mais uns três ou quatro

    1. Raildo, como escrevi no texto, citei aleatoriamente brasileiros que marcaram época em suas respectivas atividades.
      E sugeri que cada leitor fizesse a sua própria lista.
      Aplaudo todos os nomes que você indicou, meus amigos e colegas de redação.
      Hebe nunca foi racista.
      Para elogiar uns, não precisamos esculachar os outros.

      1. Lembra do “ Cansei” em 2007 propagado por Hebe. Assista programas dela da década de 1980 que verá o quanto ela era racista, e quanto o que ela achava das empregadas, dê uma pesquisada no YouTube . Mas o senhor é um cara do bem!

  10. Eu de novo: dia desses o senhor escreveu aqui que umas das melhores coisas que aconteceu na tv foi a aparição de Tatá Werneck. O que ela faz mesmo além daquejes trejeitos ridículos copiados do que tem de pior na tv americana?

  11. Ricardo, junto a Chico Buarque, Caetano, Gil Tom e Vinicius gostaria de acrescentar ainda, Milton Nascimento e Elis Regina. Com relação a todos os outros, impossível. E falando em militares e representantes da direita no poder, e descontando o fato de ter sido partícipe e co-autor da ditadura que infelizmente por si só é uma terrível mancha em sua reputação , nenhum de hoje sequer lembra Camilo Castelo Branco. Um inimigo, mas de capacidade reconhecida.

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