Na internet, o povo informa o povo, sem intermediários: a velha mídia perdeu

Na internet, o povo informa o povo, sem intermediários: a velha mídia perdeu

“Felizmente, a internet provê o que a tevê omite” (José Roberto de Toledo, no final de um texto antológico da revista Piauí no online, com o título “Um protesto histórico, menos para quem vê tevê”.

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Nossa cabeça pensa e o coração sente conforme o lugar onde os nossos pés pisam.

Essa velha lição, que aprendi muito cedo como repórter, não vem sendo muito respeitada ultimamente.

Em lugar do repórter, a televisão brasileira escalou helicópteros e drones para esconder de nós as maiores manifestações antifascistas já vistas no país, organizadas pelas bravas mulheres brasileiras neste sábado, que já passou para a história.

Animado com o que estava vendo nas redes sociais desde cedo, com textos, áudios e vídeos produzidos por cidadãos sem carteirinha de jornalista, corri para a televisão querendo ver mais ao vivo.

Pensei em encontrar uma cobertura oceânica, como aquelas que as emissoras faziam durante os protestos de 2013 e 2016, em que praticamente só mostravam as manifestações o dia todo e derrubavam a programação normal.

Nada disso. Desta vez, havia alguma ordem superior, quem sabe divina, para minimizar a dimensão do movimento #EleNão,  em defesa dos direitos da mulher, da democracia e da liberdade, contra as ameaças das milícias boçalnaristas.

Durante todo o dia, ganhou mais destaque nos noticiários de TV a tragédia da Indonésia, que abriu o Jornal Nacional, do que a grande festa cívica e suprapartidária que a gente só pode acompanhar na internet.

Tentaram até igualar o grito da mulherada que se espalhou por todos os cantos do país, com algumas carreatas de carrões e motos importadas organizadas pelos agroboys das milícias em redutos rurais.

Com imagens fechadas de helicóptero vindo do mar para a praia de Copacabana, num esforço de reportagem, mostraram algumas centenas de gatos pingados em apoio ao capitão reformado (afastado do Exército com 32 anos), para dar ideia de multidão que não havia.

Multidões se espalharam o dia todo no Rio, em São Paulo e em todas as grandes capitais, um mar de gente nas ruas e praças gritando, cantando e dançando, na mais bela festa democrática desde a campanha das Diretas Já, em 1984.

Posso falar isso porque eu estava lá. Voltei no tempo àquela época em que eu era enviado especial da Folha e, muitas vezes, o único repórter acompanhando os comícios nos rincões mais distantes do país.

Quando não havia ainda internet, celular, tablet e todas essas traquitanas da pós-modernidade, tinha que passar a matéria do dia de um orelhão ou da casa de algum morador próximo ao comício.

Só havia um jeito das pessoas se informarem sobre aqueles acontecimentos que mudaram a história do país já nos estertores da ditadura militar: esperar a Folha sair no dia seguinte.

Dar ampla cobertura a tudo relacionado às Diretas Já foi uma decisão editorial da direção do jornal, logo encampada com gosto pela maioria da redação, que se engajou na campanha pela volta da democracia com eleições diretas para presidente da República.

Televisões, rádios, jornais e revistas da grande mídia minimizavam, distorciam ou simplesmente ignoravam o que estava acontecendo quando o povo perdeu o medo de sair às ruas para reivindicar seus direitos.

Só quando a campanha já tinha conquistado o país, e não havia mais como esconder o que estava acontecendo, é que a concorrência soltou seus repórteres nas ruas.

É verdade que naquela campanha só havia um evento por dia, o que facilitava a cobertura, e agora as manifestações foram simultâneas, em praticamente todas as cidades do país, grandes ou pequenas, onde houvesse homens, mulheres, crianças, idosos, brasileiros, enfim, dispostos a dar um basta!, gritando sem pedir licença.

Mesmo que quisessem, as grandes corporações de mídia não teriam condições físicas e técnicas para acompanhar tudo. Afinal, não existem tantos repórteres profissionais no Brasil.

Mas, agora, há milhões de repórteres anônimos com seus celulares, espalhados por toda parte do país, para nos mostrar ao vivo cada detalhe das manifestações, sem intermediários, ali do chão da festa, ao vivo, como escreveu o Toledo em seu belo artigo na Piauí.

Este 29 de setembro vai ficar marcado como o dia em que o poder da comunicação mudou de poucas para milhões de mãos.

Nos tornamos todos emissores e receptores de informações, por todos os meios, sem intermediários, sem editores nem chefes, para dizer o que pode ou não ser mostrado.

Embora ainda queiram influir no resultado, os velhos barões da mídia perderam o poder de decidir monocraticamente em quem podemos ou não votar, já não elegem nem derrubam candidatos.

Somos todos agora multimídia, online, full-time, ninguém mais segura o grito parado no ar, que agora chega aos ouvidos e às consciências de toda gente.

Valeu, lindas e valentes meninas do Brasil!

Com dificuldades para andar, sem conseguir ir até vocês, vocês vieram até aqui em casa pela internet, e pude ver esta beleza de festa com meus próprios olhos afundados o dia todo no computador.

Acho que já posso vender meu velho aparelho de TV. Mas quem vai querer comprar?

Bom domingo.

E vida que segue.

 

15 thoughts on “Na internet, o povo informa o povo, sem intermediários: a velha mídia perdeu

  1. A diferença entre uma TV ou um veiculo da Midia com uma fábrica de parafusos é que a fábrica , caso deixe deteriorar seu produto, em dois ou tres anos é expulsa do mercado sem dó.
    A Midia ao contrario, se deteriorar e prostituir seu produto – a informação –
    não tem problema: porque Midia continua sendo apenas uma caixa de re$$onância dos outros.

  2. Caro e prezado grande repórter RK, hoje é o dia da secretária e, como é óbvio, milhares de mulheres que protestaram contra o Coiso e o fascismo são secretárias.
    Parabéns, secretárias; parabéns mulherio do nosso Brasil varonil.
    Agora, para rir um pouco, vou ler editoriais da Velha Mídia.
    Kotscho, certos editorialistas fazem concorrência desleal aos humoristas. Não pode.

  3. Caro Kotscho, não precisa vender teu aparelho de TV. Faça como eu fiz há alguns anos investindo R$ 10,00 em um cabo HDMI e transformando tua TV em monitor do computador com 42 pra mais de polegadas. Pra gente velha como nós e de vista cansada dá até pra prescindir dos óculos !!!
    Ah !!! E o mais importante: Desconecte a antena !!! Essa merda não serve mais pra nada.

  4. Como atrás do trio elétrico, Mestre, só não vai ou vê o que acontece, quem já morreu ou não quer ver. Como por exemplo a mídia monopólio, autoproclamada de oposição (ao PT).
    Melhor assim, pelados, escancararam a tremenda irresponsabilidade no uso de concessão pública em desfavor da sociedade ao desinformarem-na escondendo informação. E pior, falharam no intento de esconder o mega protesto das mulheres, com as multidões presentes sendo acompanhadas por milhões de brasileiros, via, redes sociais, mídias ninjas, coletivos, anônimos, etc., tecendo a rede de informação cívica e popular formada para tapar o buraco deixado por quem tinha a obrigação de prestar esse serviço a sociedade e não o fez, por interesses não confessos.

  5. Ricardo…
    A partir de ontem, a eleição tomou um outro caminho.
    Não são mais o Haddad, o Ciro , o Ackmin contra o Bolsonaro.
    São as mulheres do Brasil contra o Bozo, e eu te afirmo, elas não entraram nesta pra perderem esta eleição.
    O Bozo esta literalmente fudido
    e ai daquele que tentar impedir que elas tomem posse.

  6. Pois é, Kotscho, tb acompanhei como fotógrafo o Diretas Já e daqui de Portugal mandei mensagem pro meu filho pra se mamdar pra Cinelândia e testemunhar um evento histórico. Histórica é tb a forma como a mídia, so ignorar o evento? entregou os pontos à internet. Nada mais será como dantes. Juntem no mesmo pangaio Globo, Estadão, Folha, Band, Record, etcetal e joguem no lixo. Pena para os jornalistas que certamente teriam vontade de cobrir como vc e eu cobrimos as Diretas e ficaram na frustação. Bola pra frente e todo respeito pelo Lula, que intuiu tudo isso.

  7. Sensacional ! Os meios de comunicação do país assinaram definitivamente sua sentença de morte. Nem a Folha de hoje deu aos fatos de ontem a cobertura merecida, diminuindo seu impacto com noticias ainda não comprovadas contra Haddad.

  8. Ainda temos um povo que sabe o que quer,e quando se achar intimidado e injustiçado vai COMCERTEZA sair às ruas e cobrar o seu direito de participar das decisões do País.

  9. Caro Ricardo Kotscho, a nossa chamada “grande Imprensa” que alguns bloguistas progressistas denominam de “PIG” esta precisando fazer uma reciclagem e uma autocrítica sobre sua atuação junto à sociedade. Nesse momento se encontram totalmente desmoralizadas e sem respaldo junto a opinião publica. Pelo Zap, pude verificar a grande rejeição à grande imprensa, principalmente a Rede “Golpe” de Televisão. O seu silêncio com relação ao movimento #ELENÃO, causou um verdadeiro repudio a atuação da grande imprensa na cobertura dos fatos.

  10. Prezado Kotscho: Em resposta a essa sua colocação e pergunta “Acho que já posso vender meu velho aparelho de TV. Mas quem vai querer comprar?”, entendo que você não deveria vender a TV porque ela continua sendo uma fonte de informação e também para não perder os debates entre os candidatos a presidente da república e suas estratégias nesse veículo de comunicação. No debate de ontem à noite, por exemplo, era visível o papel de escada do ex-tucano (aquele que está com a cara do Coringa do Batman) para o tucano titular (aquele sem tempero, sem sal, como diria minha avó), tentando atacar o Haddad. Aliás, diga-se de passagem, mais uma vez o Haddad foi muito bem no debate, usando o seu tempo para explicar os quatorze anos de governo democrático e popular e o que ele pretende fazer se for eleito. Lembrando o saudoso Betinho “A democratização das nossas sociedades se constrói a partir da democratização das informações, do conhecimento, das mídias, da formulação e debate dos caminhos e dos processos de mudança.”

  11. Kotscho, nenhuma dúvida que a mídia digital, via redes sociais e os blogs independentes, fazem ressonância e sepulta os barões da mídia eletrônica. No entanto, há que se registrar que gera muita contra-informação pelas chamadas fake news. Urge mecanismos para barrarem essa prática, disseminada principalmente pelos radicais.

  12. O que me preocupa neste processo é a capacidade de manipulação mais leviana que as redes sociais praticam e a dependência que nos causam. Hoje o Facebook utiliza o algoritmo que vai nos mapeando e estratificando para vender um produto ou nos vender como produto.

  13. #Ele não, serviu também para mostrar o lado que a velha mídia já tomou.Como disse o velho marinho:”o que a globo não mostrou,não aconteceu”.Esse grupo tornou-se o Ministério da Verdade do “1984”.Seus colegas nem originais conseguem ser.Seguem religiosamente o script orwelliano,afinal tem as contas,o leite das crianças…..

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