A boçalidade triunfante: dois anos depois, fica só a sensação de vazio

A boçalidade triunfante: dois anos depois, fica só a sensação de vazio

23 de abril de 2018, uma segunda-feira qualquer.

Leio os jornais, abro o computador, procuro algum assunto que me desperte interesse e mereça ser comentado, não encontro nada digno de registro.

Olho para a folhinha e me dou conta do tempo que passou correndo, ninguém sabe para onde.

Está fazendo dois anos que um impeachment malaco trocou o governo do país sem consultar o eleitorado.

Está fazendo 16 dias que Lula se encontra incomunicável numa cela solitária em Curitiba.

Nesse meio tempo, depois de tudo o que aconteceu, o que fica é uma imensa sensação de vazio, de falta de futuro.

Raiva, tristeza, indignação, impotência, revolta, inconformismo, os sentimentos foram se misturando e, no fim, não sobrou nada.

Tudo isso para quê? O que sobrou desta corrida maluca num trem fantasma desgovernado rumo ao passado?

O novo governo já acabou e só faltam cinco meses e meio para a nova eleição presidencial, agora liderada pelo candidato “Ninguém” (a soma dos que declararam votar em branco, nulo ou em nenhum dos nomes apresentados pelo último Datafolha).

Diante da boçalidade triunfante dos patos de camisas amarelas, vivemos a normalidade da anomia social e a naturalidade do que é anormal.

Os idiotas e medíocres deixaram a modéstia de lado e assumiram o papel de protagonistas nos grupos das redes sociais.

Nas ruas, reina o silêncio, não há nenhum sinal de que estamos em pleno ano eleitoral.

Já temos quase 20 pré-candidatos e, no entanto, ainda não apareceu nenhum candidato que encarne alguma esperança de que algo possa mudar com a eleição de outubro.

A campanha eleitoral se desenvolve nas sombras, com alianças sendo costuradas pelos velhos caciques de sempre em busca do “novo” para engabelar a galera lavajatista.

Num cenário em que os mais de 30 partidos políticos foram dizimados, o Judiciário assumiu os três poderes e dá as cartas.

Grupos isolados discutem o que fazer para ressuscitar o Congresso Nacional, uma batalha inglória diante das regras do jogo criadas pelos atuais donos do poder para continuar onde estão.

A chamada sociedade civil desapareceu do mapa, não há mais lideranças nem interlocutores confiáveis com alguma ideia boa e nova na cabeça sobre o que fazer com o que sobrou.

Discutem-se apenas nomes na caça do “menos pior”, não há nenhum debate sobre os grandes problemas nacionais, ninguém mais discute um projeto nacional.

Bastaram dois anos para jogar o Brasil novamente na vala comum dos países irrelevantes no cenário mundial.

Já se esgotaram todas as mágicas e jogadas de marketing, o desemprego não cede, a economia regurgita, não há mais grana para comprar votos e aprovar reformas, o rombo fiscal só aumenta.

Daqui a pouco, não haverá mais o que vender na bacia das almas do grande leilão das riquezas naturais que são finitas.

Ao próximo presidente, seja quem for, vai caber apenas administrar a massa falida.

E qual é a saída?, poderá me perguntar quem leu até aqui este breve inventário da situação nacional.

Com a Constituição em frangalhos, apenas 30 anos após a sua promulgação, só nos restaria começar tudo de novo.

Como? Pode ser com a convocação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte.

Mas quem vai convocá-la? O novo presidente ou o novo Congresso que terá, tudo indica, a mesma cara do velho? E quem vai integrá-la?

Se alguém tiver as respostas, agradeço muito.

Por enquanto, é o que temos nesta segunda-feira, lamento muito constatar.

Vida que segue.

Em tempo: o leitor Rodrigo Lima me que alertou que, com as atuais lideranças que temos no país, poderia surgir uma nova Constituição muito pior do que a atual. 

 

14 thoughts on “A boçalidade triunfante: dois anos depois, fica só a sensação de vazio

  1. A Serena falava recentemente desta falta de conscientização do valor do voto dado. Vivemos um falso mundo de IRREGULARIDADES MIDIÁTICAS, que certamente existem, devendo ser identificadas e PUNIDAS exemplarmente, mas indo aos reais culpados, que são aqueles que continuam na jugular do EXECUTIVO, vinculados ao sistema político corrupto e jogo de interesses. Ah, é o jogo da Democracia. “Está bom demais com essa tal utilização!”. Parte daí, atualmente, está cada vez mais difícil se contratar para fazer serviços necessários que sempre foram feitos e da forma correta e honesta. No geral, tá parecendo que o homem está tendo vergonha de ser honesto! Saudades do Rui Barbosa! Ou, como dizia Obama em seu discurso pré-posse: “… Seria bom que no mundo houvesse mais engenheiros e menos advogados… Precisamos FAZER mais e DEIXAR DE FAZER menos…”
    Abraços.

  2. Leio sempre seus textos, mas dessa vez vou discordar de um ponto. Não creio que seja hora de trocar a Constituição, mas sim de resgatá-la do cativeiro em que o Judiciário a trancafiou. O tempo em que foi produzida a nossa Constituição era tempo de anseio por liberdade e direitos sociais. Nosso tempo, como você mesmo disse, é marcado por um anestesiamento gigantesco. Se em 1988 tivemos Ulysses Guimarães, Brizola, e mesmo Lula, hoje temos Temer, Bolsonaro e Alckmin. O golpe escancarou as portas do inferno, que despejou seu esgoto represado. Assim, uma nova Constituição faria esse fascismo ser legítimo. Nem pensar numa coisa dessas!

    1. Rodrigo Lima, muito grato pelo teu comentário.
      Eu não tinha pensado que com os políticos que temos hoje pode vir uma Constituição muito pior do que a atual.
      E se não for para ser respeitada pelo próprio Supremo Tribunal Federal então é melhor não arriscar.
      Tudo que estão mudando é sempre para pior. Você tem toda razão. Ricardo Kotscho

  3. Pois imagine só onde estaríamos se o impeachment não tivesse ocorrido. Seríamos nós brasileiros a fugir para países vizinhos, talvez até para a Venezuela.

  4. O principal culpado de td isso chama se aecio neves q sé comportou como um moleque,,,agora o lula hein poderia ser senador ,deputado e tar no debate mais foi muito inocente achando q o moro não ia prender se era o único objetivo de td,,,aquela foto com o aecio e a turma do temer fz td

  5. Se manifestações populares em praças e avenidas de todo o país -Aos milhões.Podem ser consideradas como “consulta popular em relação ao impedimento da “presidenta”.Então,houve.Quanto á política nacional não existe -OPOSIÇÃO e SITUAÇÃO.Existem conveniências e convivências.De onde surgiu o “grande M.Temer()!.Senão da aprovação e conveniência do líder maior do PT-Lula.

    1. Consulta popular seria através de um plebiscito que traria legitimidade ao processo de impeachment, independente do resultado.
      Fora isso o que resta é o povo desinformado, sem um mínimo de crivo crítico constituído a já famosa massa de manobra.

  6. Kotscho, o Lewandowski permitir que Dilma mantenha seus direitos políticos, contra o que determina a constituição, tudo bem? Quando, afinal, pode, e quando não pode esculhambar a carta Magna? Dependo o lado que beneficia?

    1. José Eduardo, nada é tudo bem. Ninguém nunca pode “esculhambar a Carta Magna”, mas é o que o Judiciário brasileiro mais tem feito nos últimos tempos. E você sabe muito bem quem tem se beneficiado disso.

  7. O artigo excelente de Paulo Nogueira Batista Júnior na Carta Capital – um dos raros economistas lúcidos que não fazem parte da turma da bufunfa – também não vê saída para o quadro atual.

  8. Prefiro considerar que o País não caiu no abismo que foi salva no beiral…
    Não há dúvidas que a Dilma continuasse, estaríamos praticamente em Guerra Civil, brigando para comprar um medicamento ou mesmo um pacote de Cream Cracker…
    Agora vamos eleger um não populista (nem de direita e nem esquerda), que tocará o País em frente…
    Aliás, as experiências populistas levaram nações inteira à miséria, como foi o caso da Venezuela, e o aprendizado disso, que até um País ainda mais suscetível ao populismo, como o Paraguai, não permitiu a volta da turma do bispo fajuto Fernando Lugo, e mesmo no Chile, mesmo a socialista Bachelet tendo feita boa administração, mas pelo apoio dado a maduro, tbm foi despachada. O mesmo vale para o Peru, Argentina e Colombia… Aliás, até no Equador, o presidente que foi eleito apoiado pelo esquerdismo do “bolivariano” Correia, tbm já mudou de lado…
    Só as viúvas dos que se beneficiaram do sistema, ou daqueles que fecham os olhos para as roubalheiras em nome de uma utopia arcaica, que se contentam ver o povão sendo “contemplado” por pão e circo, e em sua maioria felizes, é que lamenta que o Brasil não seja uma grande Venezuela.
    Não há modelo mais similar ao do petismo do que o chavismo, então o abismo era o nosso destino!
    Vida que segue tentando se recuperar da enganação…espero que em uma década possamos superar esta crise!

  9. Mestre, consideradas a ‘situação’ e a anunciada recuperação que não chega e não cessa de ficar tudo fechando, que tal aproveitar que a ‘Casa mais vigiada do Brasil’ (depois da de Lula) se encontra fechada e começar a recuperação de fato, reabrindo-a e colocando nela, até 07/10, os
    candidatos a presidente, incluído Lula, e mais:
    Marinhos, OFF e um Civita, pelo ‘PIG’.
    Generais, Villa Boas, Mourão e Etchegoyen.
    STF, Janot, Moro, Dalanhol, Santos Lima, Tacla e ‘padrinho’.
    Temer, Padilha, Angorá, Eduardo Cunha, Serra, FHH, Aécio, Doria, Geddel e Paulo Preto.
    Um Setúbal ou preposto pela “Casa das Garças banqueiras” e Skaff preposto pelos demais.
    Dirceu, Genoíno, Lindbergh, Pimenta e Suplicy.
    Com produção, transmissão, condução técnica e normativa, etc., a cargo da BBC, com garantia de não intervenção da ‘embaixada’ e do NSA. Auditoria do Intercept com apoio de Snowden e Assange. Sem edição e acesso gratuito 24 horas.
    Aí deixar rolar pro povo apreciar personagens que mexem com suas vidas e destinos e ir eliminando-as, até chegar-se a dois candidatos, que participam da eleição final pelo TSE.
    Afinal alguém tem que recomeçar a cumprir a Constituição, né, não, dona ‘Benta Carneiro’?

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