Terra de ninguém: a República da Farda & Toga ocupa o vazio da política

Terra de ninguém: a República da Farda & Toga ocupa o vazio da política

Em meio à derrubada de quiosques e barracas de comerciantes na praça Miami, na favela da Vila Kennedy (que nomes sugestivos!), com escavadeiras avançando sobre o ganha-pão dos pobres, na “operação  de ordenamento urbano” promovida pela Prefeitura do Rio, a pedido da Polícia Militar, acompanhada por tropas das Forças Armadas, a mulher desesperada começa a gritar no meio da confusão mostrada na TV:

“Como vou sustentar a minha família agora?”.

Numa cidade de podres poderes falidos com intervenção militar na segurança, em que ninguém responde pelo Estado, a pergunta dolorida da favelada ficou sem resposta.

Quem foi o responsável por esta barbaridade cometida contra uma população indefesa, sem ordem judicial, que se vira como pode para levar comida aos filhos?

As máquinas e os funcionários empregados na operação eram do prefeito Marcelo Crivella, o bispo omisso que não cuida da cidade e gosta de viajar, e agora age sob a proteção dos homens de farda, sem que ninguém de toga tomasse uma providência em defesa dos pequenos comerciantes.

Quem vai pagar pelos prejuízos e pelos dias parados dos donos das barracas e dos quiosques destruídos?

Em dezembro de 1968, Pedro Aleixo, o vice-presidente civil do general Costa e Silva, foi o único a discordar do Ato Institucional Nº 5 que jogou o Brasil nas profundezas da ditadura.

Com a destruição completa do Estado de Direito, Aleixo disse a Costa e Silva que a partir daquele momento o maior problema passava a ser o guarda da esquina investido de poder.

Ainda não chegamos a este ponto, mas estamos caminhando celeremente para um estado de anomia social e de desordenamento institucional.

Ninguém sabe mais quem manda em quem, qual é a lei que está valendo, o que pode e o que não pode ser feito pelo guarda da esquina, o funcionário da prefeitura ou o juiz de plantão.

Em política, não existe espaço vazio, ensinam os velhos sábios. Se os políticos e os partidos não se dão ao respeito, a turma da Farda & Toga rapidamente ocupa o vazio dos paisanos.

Com a falência da autoridade do prefeito e do governador, o espaço foi rapidamente ocupado pela intervenção militar decretada por um governo central em final de mandato cercado de denúncias de corrupção.

Sem conseguir aprovar as reformas por ter perdido o controle do Congresso Nacional, o mesmo que derrubou Dilma Rousseff, o presidente Michel Temer convocou as tropas e criou um Ministério da Segurança para mostrar a força que já não tem para governar o país.

A judicialização da política e a politização da Justiça cuidam do resto.

“No contexto da cadeia de poder e de autoridade do Brasil hoje, a judicialização da política se tornou inevitável, porque não há uma força política capaz de liderar uma superação do processo de crise”, constatou, dois anos atrás, o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília.

De lá para cá, este processo se acentuou e o sistema político-partidário foi engolido pelas togas da Lava Jato, que ocuparam o espaço vazio e se tornaram um superpoder acima dos outros.

O resultado disso está bem definido na abertura da coluna de Josias de Souza em sua coluna deste sábado no UOL, sob o título “Partidos mudaram de ramo e viraram prostíbulos”:

“Os partidos políticos brasileiros, como se sabe, estão em crise. Perderam a função. A própria política caiu em descrédito. Não há mais debate de ideias. Pouco importa que legenda está no poder. Muita gente pediu uma reforma política. Pois ela chegou. Os partidos legalizaram a infidelidade, instalaram uma porta giratória na entrada, reservaram R$ 2,6 bilhões do Tesouro Nacional para a compra de mandatos e mudaram de ramo. Os partidos viraram prostíbulos”.

A truculenta ação policial-militar na Vila Kennedy e a porta giratória da Justiça, em que ora um togado manda prender e, em seguida, outro manda soltar, cada um de acordo com a sua própria lei, faz com que agora a confiança que a população tinha nas Forças Armadas e na Justiça lavajatense também esteja ameaçada.

Depois disso, o que restará? Se a nova República da Farda & Toga ruir, o que virá?

Faltam menos de sete meses para as eleições de outubro e não se vê no horizonte nenhuma força política capaz de pacificar e unir o país.

Caminhamos no escuro sem porta de saída à vista. As soluções mágicas e os golpes de mestre estão se esgotando.

Vida que segue.

 

15 comentários em “Terra de ninguém: a República da Farda & Toga ocupa o vazio da política

  1. Kotscho, você que participou do grupo Tortura Nunca mais (1995), sabe que o irmão do Pedro Aleixo, morreu no RJ, vitima de torturas. Não sei qual a opção política do jornalista citado, se da Direita ou Esquerda, mas ele trabalho com o dono da principal revista do país, que tinha ligação com os naspers, do apartheid, da África do Sul. Só discordo de vocês em um ponto: a “reforma política”, de araque, que aí está foi feita de acordo com o Congresso, e não de acordo com a vontade popular.

  2. Kotscho, complementando o título do teu post: … A REPÚBLICA DA FARDA, TOGA & BÍBLIA, OCUPA O VAZIO DA POLÍTICA. É o RJ, o estado das excrescências, do prefeito “evangélico”, traficante evangélico que põe fogo em terreiro de umbanda. Magno Malta o senador das camisetas contra, contra drogas, contra aborto, contra pedofilia. Há futuro?

  3. O pano de fundo brasileiro equipara-se ao período trágico dos governos colombianos de Michelsen, Barco e Betancourt, muito bem descrito no livro “Dineros Calientes – Los Ginetes de la Cocaina”. A situação colombiana chegou a tal ponto, que as instituições não apenas não deram conta do enfrentamento dos Cartéis, como sucumbiram ao seu poder de fogo, e aceitaram um ‘pacto de corrupção institucionalizado’, que chegou a permitir “repatriação de capitais” nos anos 90(como aquela realizada por Joaquim Levy em 2015/2016), para pagar a dívida externa colombiana. A proposta feita por Pablo Escobar do Cartel de Medellin foi aceita pelo governo para suprir o caixa combalido das finanças colombianas (qualquer semelhança com a ‘repatriação levyana’ não é mera coincidência). Perguntado em entrevistas disponíveis nos documentários da época, sobre se o seu dinheiro era “caliente”, Pablo Escobar respondia: “no, no, son dineros anistiados”. Sabe-se que o Plano Colômbia (agora renovado por Trump com seu parceiro Santos) surgiu pela decisão de Washington de financiar o combate às drogas, dado que as províncias colombianas de Antioquia e Madaglena Medio refinavam o grosso da pasta de coca originária da Bolívia, Peru e Equador, que entravam nos EUA. Atualmente, o Brasil é pivô da distribuição latino-americana das drogas e base de operação das principais organizações mafiosas. Soma-se, portanto, ao quadro econômico depauperado, e às tradicionais mazelas sociais brasileiras, a ascensão dos Cartéis que já colocaram de joelhos a Colômbia e o México, para não falar de El Salvador, Honduras e Nicarágua. Não por acaso, o meteorito representado pelo ex-capitão ganha aceleração ao segundo turno. Se Lula e o PT permanecerem como temos visto até agora, não abrindo mão da cabeça de chapa a um ‘Tertius’, desde que este não esteja encrencado com a Lava Jato nem conste das listas da Odebrecht, ninguém tem como garantir que o ex-capitão, agora integrante da ‘bancada da metralhadora’, não venha a ganhar ainda mais corpo com o apoio do seu ‘ídolo’ do Norte, o destrambelhado Trump, a quem o ex-capitão tem tecido loas sempre que pode. O tal realismo fantástico, no Brasil ganha ares de ‘realismo fantasmagórico’. Porém, não se diga que alternativas inexistem. Lula e o PT ainda tem a faca e o queijo nas mãos. Basta saberem que o queijo e a faca demandam outras mãos. Há um ano atrás, os comentaristas desdenhavam do ex-capitão zureta. Esqueceram que o país ficou zureta com a esbórnia institucional. O país já elegeu um Jânio trepado numa vassoura e um Collor de jet-ski caçando marajás com golpes de karatê. Não deveriam duvidar de um ex-capitão descendo de paraquedas no Alvorada. Ainda há tempo de sobra para evitar que isso aconteça. Não serão os tucanos capazes dessa obra, porque estarão juntos com o ex-capitão no segundo turno, a reboque. Lula e o PT ainda jogam com as brancas.

  4. A respeito das “repatriações de capitais”, como a recentemente promovida pelo ex-ministro Joaquim Levy, que transformou o país na “maior lavanderia da América Latina”, ouçamos o que declarou um dos “narcos’ beneficiado pela anistia colombiana, membro proeminente do Cartel de Medellin de Pablo Emilio Escobar Gaviria. Está na internet: “El narcotraficante Carlos Lehder Rivas confesó espontáneamente a la prensa el beneficio recibido de la amnistía de Betancur: “Yo no niego que haya participado en la gran bonanza colombiana, como tampoco niego que estamos hoy disfrutando de una amnistía tributaria, que prácticamente podría haber ‘enfriado’ los dineros que ellos llaman “calientes”. O sea que hoy están legalizados más que nunca. Ese dinero fue traído al país cuando no existía una amnistía tributaria, pero gracias a la apertura democrática (sic) y a la amnistía tributaria (de Betancur) es completamente legal. Tan legal como el de Michelsen, y tan legal como el del presidente de la República”. Pode-se dizer que a Colômbia dos anos 90 é o Brasil de hoje.

  5. “Depois disso só três letras PNM para descrever o que estamos passando…Pete Nunca Mais”. (Sergio 12:30). //// Finalmente, o Meia Coxa (Sergio) enviou um comentário aceitável ao Balaio. Neste, talvez por ser curto, não difamou ninguem do PT, nem manifestou apoio a Eduardo Cunha (somos milhões de Cunhas), Michel Temer, Aécio Neves, etc…. Limitou-se a expressar uma mera opinião totalmente desprovida de argumentos, como de costume, sem sacanear ninguem, ou manifestar apoio a politico/empresário corrupto, juiz safado etc… Parabéns, Meia Coxa !!!! Voce acabou de elevar-se um patamar acima dos demais anti-petistas do Balaio. Bom fim de semana a todos.

  6. Noam Chomsky no El País, de hoje, sábado, pode ser lido na entrevista integral. Vai aqui um aperitivo do genial ex-professor do MIT, que antecipou a postagem do Kotscho. Deu uma pista dos porquês da porta sem saída. Vamos ouvi-lo: Pergunta: “Houve um deslizamento para a direita do espectro político?”
    Resposta: Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?
    Pergunta: Então o neoliberalismo triunfou?
    Resposta: O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.
    Pergunta: O que o senhor descreve soa a Orwell!
    Resposta: Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim geraria consumidores informados e capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.
    Pergunta: Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?
    Resposta: Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho”.

    1. Se Política é a arte de engolir sapos, então Democracia é o agir do homem diante do bem e do mal; e não a adoração dos deuses como querem muitos. Mas pela ideologia de Gramsci, todo homem tem que ser um partidário!

  7. “Se a nova República da Farda & Toga ruir, o que virá?”
    Sabendo não haver condicional pra República da Farda & Toga ruir, Mestre, estamos à beira do caos e a única possibilidade de saída, política e sinalizada pelo povo, a ser conciliada pelo que resta de ‘bom senso’, para pacificar o país e resgata-lo da tragédia em que o meteram, os golpistas querem trancafiar na cadeia.
    Bastam, olhos de ver e cabeça de pensar, mas dada a mediocridade vigente, aí que mora o perigo de terminarmos abraçados ao caos.

    1. Ou bem ou mal que tá segurando a barra é o poder Judiciário, o nosso é um dos melhores do mundo. (vide Lavajato). Verdadeiros golpistas foram os que deram bilhões de reais de estragos nos cofres públicos.

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