Que País é esse? Os brasileiros não conhecem o Brasil

Que País é esse? Os brasileiros não conhecem o Brasil

Nas favelas, no Senado

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a Constituição

Mas todos acreditam no futuro da Nação

(Trecho da música “Que País é esse”, de Renato Russo, gravada pelo Legião Urbana).

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil (…)

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil tá matando o Brasil

(Trecho da letra da música  “Querelas do Brasil” na gravação imortalizada por Elis Regina).

***

Em pesquisa do Instituto Ipsus Mori feita em 38 países e divulgada nesta quarta-feira, o Brasil ficou em segundo lugar entre as nações que menos têm noção da própria realidade, à frente apenas da África do Sul no ranking do Índice de Percepção Equivocada.

O estudo foi feito na comparação entre o que os entrevistados responderam sobre a vida em seus países em comparação com os dados oficiais.

Dois exemplos:

  • os brasileiros acham que 85% da população já tem smartphone (na realidade, o índice é de 38%)
  • os brasileiros acham que 83% já dispõe de conta no Facebook (dados oficiais mostram que o índice é de 47%)

Estes números mostram a realidade de dois Brasis bem diferentes, que não se conhecem.

O das grandes cidades, onde a maioria já utiliza estes apetrechos tecnológicos cruzando a toda hora com pessoas digitando ou falando em celulares. Ou seja, se até eu tenho, todo mundo deve ter.

Não é bem assim no resto do Brasil, este desconhecido, dos grotões e das periferias onde a maioria apenas sobrevive, o progresso ainda não chegou e ainda confundem banda larga com bunda grande.

O abismo é tão grande dentro do mesmo país que 9 entre 10 brasileiros pensam estar entre os mais pobres, como mostra outra pesquisa, divulgada nesta quarta-feira pelo Datafolha em parceria com a ONG Oxfam Brasil, que entrevistou 2.025 pessoas para medir a percepção sobre a desigualdade no décimo país mais desigual do mundo, onde 1% da população fica com 50% da renda da metade mais pobre.

Mesmo entre aqueles considerados mais abonados que ganham pelo menos R$ 4.700 por mês, 68% se acham pobres.

“As pessoas não têm ideia de quanta gente vive com tão pouco. Quem ganha R$ 3 mil por mês, claro, não se acha rico. Existe aquela visão de que rico é o milionário. Na novela, eles têm vários empregados”, explica o economista Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, em reportagem de Júlia Barbon, na Folha.

Quem menos conhece, ou finge que não vê a realidade brasileira, certamente, são os nossos representantes no Congresso e a casta de marajás dos três poderes encastelados em Brasília, preocupados apenas em defender seus próprios interesses, bem longe do Brasil real.

Prova disso é que a reprovação de deputados e senadores chegou ao índice recorde de 60%, segundo a pesquisa Datafolha feita no final de novembro. Só 5% dos entrevistados consideraram a atuação dos parlamentares boa ou ótima, o pior da série histórica.

O que estas três pesquisas demonstram é que há um descolamento cada vez maior entre o andar de cima e o de baixo da nossa sociedade, entre governantes e governados, representantes e representados, entre Brasília e o Brasil.

Como diz Marta Arretche, professora da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole:

“É uma ilusão achar que, se combatermos a corrupção, a desigualdade vai diminuir. As causas são mais profundas: um atraso educacional imenso, desigualdade de oportunidades, discriminação racial e de gênero”.

Aquele Brasil das músicas de protesto de Aldir Blanc e Renato Russo podem parecer até cantigas de criança diante da brutalidade do atual cenário, em que se criou o “novo normal” da violência fora de controle e da compra de votos no Congresso, da desigualdade crescente e da perda de direitos, do aumento de privilégios e da impunidade seletiva para grandes sonegadores e corruptos em geral.

Vale repetir o apelo patético de Aldir Blanc no final da canção “Querelas do Brasil”.

Do Brasil, S.O.S ao Brazil

Do Brasil, S.O.S ao Brasil

Vida que segue.

 

9 comentários em “Que País é esse? Os brasileiros não conhecem o Brasil

  1. Não sei de onde a senhora Marta Arretche, tirou “que as pessoas acham que o combate a corrupção iria diminuir a desigualdade”…….o que se diz é “dinheiro público desviado por corrupção deixa de atender parte das necessidades da população”…É muito diferente.

    Pois é, esse pessoal “desinformado, desatualizado”, como dito aqui, que não tem acesso a informação acabam tendo o mesmo direito de ir as urnas, o retrato de nossos políticos é o “espelho” de grande parte de nossos eleitores.
    Resumo da ópera: Não é com populismo que iremos criar oportunidades, é com trabalho e seriedade que as pessoas vão conquistando….se fosse com populismo a Venezuela estaria num paraíso e não quebrada como esta, e o Brasil de dilma estaria de vento em polpa, e não impeachmada como foi…

  2. Mestre, o desabar do cadeirão só pode ter encaixado peça solta, pois se já mandava bem, agora manda melhor ainda, e o texto de hoje então… O Kotscho velho de guerra que se cuide.
    Os brasileiros pensam o Brasil da telinha da TV e do Smartphone, enquanto genial ilustra que, além da telinha, o Brasil pensa ‘banda larga’ como ‘bunda grande’. Destaque-se a professora Arretche reiterando o que sabem, mas ignoram: “É uma ilusão achar que, se combatermos a corrupção, a desigualdade vai diminuir.”
    A propósito, o nonsense do dominante que sabe e não permite na prática combater-se o que se sabe (olha o Golpe aí, gente!), estava presente ontem na GN, onde a musa da febre amarela, doutora Cantanhêde, após exposta pesquisa sobre desigualdades na cidade mais rica do país, emendou, “Barbaridade! Essa desigualdade não pode continuar”. Fecham-se as cortinas e os psiquiatras entram ‘em cena’.

  3. Estimado mestre, tenho a impressão que nós brasileiros simplesmente não queremos saber, de forma egoísta não queremos abrir mão de nenhum momento das nossas vidas privadas para fazer alguma coisa pelo coletivo, na verdade esperamos que alguém venha e resolva tudo. Nessa ânsia entregamos as instituições a qualquer um e quando estes jogam o nosso pais na lama e pisam em cima, continuamos esperando que alguém venha e resolva tudo, e quando nada é resolvido reclamos que ninguém faz nada.

  4. Ocorreu-me juntar ao seu texto, ao lado de Aldir Blanc e Renato Russo, o clássico camponês Patativa do Assaré, com o seu “Brasil de cima e Brasil de baixo”, de onde Élio Gaspari emprestou suas conhecidas expressões “andar de cima” e “andar de baixo”, com as quais costuma se referir ao ‘patriciado’ e à ‘patuleia’, respectivamente. Se quiser juntar ao seu texto original, fica-lhe a sugestão. O camponês do agreste cearense, diferentemente do que desvelou a pesquisa, desde sempre capturara a perfeita dimensão da desigualdade abissal entre “os dois Brasis” (o novo e o arcaico), de que falou Jacques Lambert, em 1957. Com a palavra, o poeta camponês: ” Aqui no Brasi de Cima,
    Não há dô nem indigença,
    Reina o mais soave crima
    De riqueza e de opulença;
    Só se fala de progresso,
    Riqueza e novo processo
    De grandeza e produção.
    Porém, no Brasi de Baxo
    Sofre a feme e sofre o macho
    A mais dura privação. “.

  5. O povo não vive no Brasil de Brasília… o povo não está representado no Congresso de Brasília… o povo não usufrui da Justiça do STF de Brasília… Hmm………. O Governo gastou 27 bilhões, comprou votos e continua no “pudê”. O Governo baixou a Selic e agora a Poupança rende 70% desta taxa. Hoje paga 0,4273% porque a taxa Selic está abaixo de 8,5%. O Governo deixa de pagar 0, 0727 % . Os depósitos da Poupança chegam a 680 BILHÕES de reais. Multiplicando-se 680 bilhões por 0,0727 % chegamos a quase 4 bilhões MENSAIS de economia. Durante 12 meses, o Governo economizará mais de 40 bilhões de reais. Algumas contas da Poupança continuam ganhando 0,5% ao mês, porque foram abertas antes de 2012. A grande maioria, no entanto, é de contas abertas após 2012 e só recebem 70% da taxa Selic. Por que estes números? Foi da Poupança do pobre que o Governo tirou 4 bilhões todo mês para acertas suas contas e comprar votos durante a denúncia. E ninguém disse nada até agora! Um assalto a mão armada. Tirar 40 bilhões do pobre, diminuindo os rendimentos da Poupança. Grosso modo, os números estão aproximados. Caso de polícia. O BRASIL DOS DOMINADOS ESTÁ FAZEND A FARRA COM O DINHEIRO DA POUPANÇA DOS DOMINADOS!!!! Por quê nenhuma mídia, nenhum economista comenta e denuncia essa malandragem? O Brasil de Brasília manda na mídia e o pobre paga a conta. Temos dezenas de brasis no Brasil. Os dominados sequer sabem o nome de sua Pátria amada…. ” Sorte” do Brasil de Brasília! Azar dos brasis de 13 milhões de desempregados e outros 20 milhões de brasileiros que vivem de bicos. Que país é esse? Que fome de Brasil é essa? Olhem para os brasis, disse Tiririca ao renunciar. Na mosca.

  6. A ética da hipocrisia

    Salvo raras exceções, cidadãos comuns, homens públicos, religiosos, profissionais liberais, entre outros, pautam suas vidas sob a ética, da hipocrisia.
    Hipócritas todos somos, uns mais outros menos, mas todos somos.
    Aí com autocrítica é possível, sem sombra de dúvidas e se quisermos, buscar caminhos que possam nos levar a sermos menos hipócritas, encontrar a ética.
    Ética não pode ser mensurada. De uma maneira maniqueísta pode-se dizer: – ou se tem ética ou não se tem, ou é Deus ou é o Diabo.
    Porém a hipocrisia dá margem para se transitar com mais obscuridade, com malevolência, podendo se dizer: – ele é um homem de bom coração, apenas está usando uma “boa oportunidade”.
    É inadmissível que com toda informação que obtemos dos veículos de comunicação, sabedores que o excesso de informação desinforma, que a desinformação gera conflitos, que conflitos causam vítimas, que vítimas são frágeis, que a fragilidade tem sede de justiça e a justiça deve ser pautada sob a ética, que continuemos usando da hipocrisia pela ética.
    Ética não é um bem de consumo, ética é a alma do ser, é o bom senso sem apelação.
    Chega de:
    – estamos fazendo tudo para ajudar os mais necessitados…
    – neste momento celebrativo devemos pensar nos nossos irmãos…
    – a lei de responsabilidade fiscal não permite que se possa rever o orçamento…
    – a sociedade receberá as informações com a máxima transparência…

    Ética, é uma fruta madura e saborosa que deve ser apreciada a todo tempo.

    Pela ética…
    sem hipocrisia.

    Valdir Mello
    MC- 2005.

  7. O que esperar de um congresso com palhaços com Tiririca, Bolssonaro,Sergio Reis charlatão, a maioria do agronegócio, do grande capital, bancada evangélica e até 29 da bancada da bala, que estirpe perversa e perniciosa que se vende e não enxergam além do próprio umbigo?

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