Charlatões da cloroquina bolsonarista provocam doenças e até mortes

Charlatões da cloroquina bolsonarista provocam doenças e até mortes

Charlatões sempre aparecem em tempos de pandemia para oferecer remédios milagrosos a populações com pavor de pegar a doença, como aconteceu quase um século atrás, em 1918, na chamada gripe espanhola, que não surgiu na Espanha, e matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo.

Remédios como a “Grippina” não chegam a ser uma novidade, seguem a lei da oferta e da procura. Mudam apenas os nomes. Sempre haverá charlatões espertos para vender e inocentes para comprar.

Também naquele início de século 20, já havia campanhas contra a vacinação em massa, que geraram revoltas, mortos e feridos, como no Brasil, em 1904, quando o grande sanitarista Oswaldo Cruz foi combatido pelos militares negacionistas da época, que queriam até dar um golpe de estado para derrubar o governo de Rodrigues Alves. Foi a primeira Revolta da Vacina.

Mas deve ser a primeira vez na história mundial que a oferta de crendices e a renúncia à ciência partem do próprio governo federal de um país, que distribui nos postos de saúde um “kit-covid” com cloroquina, ivermectina, azitromicina e outras panaceias, em vez de providenciar vacinas, balões de oxigênio e leitos para as UTIs.

Só esta semana, ameaçado por processos no STF, o general da Saúde, Eduardo Pazuello, tirou do ar do site do ministério a recomendação para o “tratamento precoce” com cloroquina, no mesmo dia em que foram denunciados pelos jornais os perigos causados pelo uso desses remédios fajutos e perigosos.

Reportagem de Everton Lope e Philippe Watanabe, na Folha deste domingo, com o título “Médicos relatam efeitos graves da `terapia precoce´ para covid-19” mostra que o coquetel explosivo oferecido pelo governo pode não só provocar graves doenças, como até matar.

Foi o que aconteceu com o policial Edson José da Rocha, de 51 anos, segundo o relato da sua irmã, Ivone Meneguella, médica intensivista de Campinas, interior de São Paulo.

Segundo a reportagem, a médica notou que “o aparecimento de uma arritmia cardíaca e a piora do quadro clínico ficaram claros após o terceiro comprimido de cloroquina que o irmão tomou”.

Quem vai pagar por esse crime? O médico que receitou o remédio ou o ministro da Saúde, que assinou o protocolo recomendando o uso de cloroquina no “tratamento precoce”? Quantos outros morreram pelo mesmo motivo?

Este foi o primeiro ato de Pazuello ao assumir o ministério da Saúde, como interino, sem saber o que era o SUS, no lugar do médico Nelson Teich, que caiu exatamente por se negar a adotar a cloroquina como queria o presidente Jair Bolsonaro, a exemplo do que já tinha acontecido com o antecessor, o médico Luiz Mandetta. A cloroquina poderosa já tinha derrubado dois ministros médicos.

Dr. Bolsonaro queria porque queria receitar a cloroquina, até para as avestruzes do Alvorada, ao mesmo tempo em que era contra as vacinas, mesmo contra todas as evidências científicas. Será por quê?

Ainda esta semana, ao colocar em dúvida, mais uma vez, a eficácia da vacina Coronavac, por ter sido criada na China e trazida ao Brasil pelo governador João Doria, Bolsonaro voltou a recomendar aos seus devotos no cercadinho do Alvorada o remédio que pode causar cegueira, lesão na retina, perda auditiva, insuficiência cardíaca, arritmias e distúrbios neurológicos.

“A covid-19 pode gerar alteração cardíaca, e as pessoas ainda tomam um remédio que, além de não funcionar contra a doença, pode causar arritmia. Se tivermos o uso em larga escala de cloroquina, vamos ver dezenas de pessoas com arritmias graves”, alertou o cardiologista Bruno Caramelli, em entrevista aos repórteres da Folha.

Neste domingo, o general Pazuello voltou ao local do crime, ao levar vacinas para Manaus, onde na semana passada, em lugar de providenciar as quantidades necessárias de oxigênio para os hospitais, depois de ser informado sobre a gravidade da situação, deu ordens à secretaria municipal de Saúde para adotar o “tratamento precoce” em seus pacientes.

Desta vez, não marcou dia para voltar a Brasília, e resolveu ficar no Amazonas até resolver os dramáticos problemas de saúde pública no Estado, onde o número de óbitos explodiu e os hospitais entraram em colapso com um governador bolsonarista.

“Em mais de 20 anos de profissão, nunca vi incentivo oficial do governo para consumo de remédios dessa forma., Na história da saúde pública brasileira, sempre houve a preocupação de desestimular a automedicação”, diz o presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, Marcos Machado.

É pior ainda: não se trata só de automedicação. O “kit-covid” foi alegremente receitado por dezenas, talvez centenas de médicos bolsonaristas, que defendem a cloroquina produzida em escala industrial pelo Exército, por ordem de Bolsonaro, com o reforço de milhões de doses descartadas e enviadas para cá pelo amigo Donald Trump.

Até hoje, o Conselho Federal de Medicina e os conselhos regionais não proibiram esses remédios, que podem até matar, e nenhum médico, ao que eu saiba, foi punido pelo uso do “kit-covid”.

Vivemos num país de “serial-killers” fardados ou de jaleco, mas o Supremo Tribunal Federal e a Câmara dos Deputados ainda não encontraram motivos para abrir um processo por crime de responsabilidade contra aqueles que colocam em risco permanente a vida dos brasileiros.

A gripe espanhola de 1918 foi erradicada com o uso de vacinas, não com a “Gripinna”, o remédio “preventivo e curativo” criado pelo dr. Alberto Seabra.

Quanto mais o mundo anda para a frente, mais o Brasil fica parado no mesmo lugar, ou voltando para trás, ainda acreditando em fórmulas milagrosas, mitos e salvadores da pátria, apesar dos mais de 215 mil mortos pela pandemia.

Capitão Cloroquina e general Pesadelo continuam no comando.

Até quando?

Vida que segue. .

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