Rio das Milícias: Cidade Maravilhosa, que saudade…

Rio das Milícias: Cidade Maravilhosa, que saudade…

Tenho com o Rio de Janeiro, que continua lindo, mesmo tendo se transformado no Rio das Milícias, uma antiga história de amor.

Nesta semana em que fomos informados de que um em cada três cariocas já está sob o controle dos grupos paramilitares, que ocupam 57,7% da área territorial da cidade, eu me lembrei da primeira vez que fui lá, no final dos anos 60 do século passado, e fiquei tão encantado que não queria mais voltar para São Paulo.

Voltei lá muitas vezes, quase sempre a trabalho. Foram tantos belos dias e noites que passei nesta cidade, onde tenho muitos amigos, que não consigo me conformar com o que está acontecendo, a degradação da paisagem humana e das relações sociais num dos lugares mais bonitos do mundo.

Muito antes das milícias assumirem o poder, quando quem dava as cartas eram os bicheiros, antes que o tráfico assumisse o poder nos morros, Mino Carta, então diretor da revista IstoÉ original, me pediu para fazer uma reportagem com um título pré-determinado: “Cidade Maravilhosa, que Saudade…”

Corria o ano de 1979, já nos estertores da ditadura militar.

Mino já achava que o Rio entrava em processo de decadência, mas tive dificuldades para reunir material capaz de justificar o título.

Perdidos na Lapa

Parecia que ele farejava um futuro, que ainda demoraria a chegar, na virada do milênio, quando as milícias começaram a formar seus quadros, recrutando policiais expulsos das corporações ou ainda na ativa, para disputar territórios com o tráfico e assumir o controle do comércio e da “segurança”.

Eu continuava apaixonado pela cidade e achava tudo bonito, pedia sempre para o táxi ir pela orla, qualquer que fosse meu destino, até o dia em que tive a ideia de convidar Mario Lago, o grande ator e compositor, a fazer um passeio comigo pela velha Lapa, para ele lembrar histórias do Rio antigo e mostrar o que tinha mudado.

Rodamos por ruas estreitas e esburacadas, que abrigavam velhas construções mal cuidadas, passamos pela cadeia onde ele esteve preso, casas de samba onde havia se apresentado e, a certa altura, ele já não sabia mais onde estava. Eram tantos desvios por causa das obras, que naquele dia Mario Lago se perdeu na Lapa, quem diria…

Ramificações da milícia tocam o poder político

O que aconteceria depois, até chegarmos a este estado de completa anomia social, está contado no livro “A República das Milícias”, do excelente repórter Bruno Paes Manso, citado na coluna de Elio Gaspari na edição da Folha de S.Paulo desta quarta-feira.

Com o título “O nome do crime é milícia”, Gaspari, o biógrafo da ditadura, faz a relação dos grupos paramilitares com o poder político.

“É difícil acreditar que Jair Bolsonaro não conhecesse a cidade em que vivia quando disse em 2018, que as milícias tinham plena aceitação popular, mas depois acabaram se desvirtuando. Passaram a cobrar gatonet e gás. Bolsonaro tinha no seu entorno o ex-sargento Fabricio Queiroz e o ex-capitão Adriano da Nóbrega. Um está preso. O outro, foragido, foi queimado no interior da Bahia”.

Medalhas a milicianos

Bolsonaro disse isso, quando era candidato a presidente, para justificar as muitas condecorações que ele e os filhos concederam a policiais que se revelariam líderes das milícias.

A confluência do poder político com o poder das milícias e das igrejas neopentecostais, com ramificações no Judiciário, levou ao poder, junto com os Bolsonaros, figuras como Witzel e Crivella, que prometiam acabar com a corrupção dos seus antecessores presos.

Nas próximas eleições, concorrem 7.258 integrantes das forças de segurança, entre eles 371 bombeiros, militares, policiais militares e militares reformados que disputam prefeituras. Se somarmos a eles outro tanto de pastores e bispos, mais juízes e promotores, temos aí a nova configuração do poder político formado a partir do Rio de Janeiro, que se espalhou pelo país.

Hoje, caro visionário Mino Carta, sinto saudades não só da Cidade Maravilhosa, mas do Brasil.

Vida que segue.

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