A um mês da eleição, o PT está numa encruzilhada dramática em São Paulo

A um mês da eleição, o PT está numa encruzilhada dramática em São Paulo

Faltando apenas um mês para a eleição municipal, o PT vive hoje o momento mais difícil de todas as campanhas de que já participou nos últimos 40 anos.

Com remotas chances de eleger prefeitos nas principais cidades do país, a situação mais dramática enfrentada pelo partido é a de São Paulo, onde o seu candidato, Jilmar Tatto, não consegue desempacar do 1% nas pesquisas. Aqui o partido está numa encruzilhada que pode definir seu futuro.

Já não se trata só de ficar de fora do segundo turno, como aconteceu em 2016, com Fernando Haddad candidato à reeleição, no auge da Lava Jato e do processo de impeachment de Dilma Rousseff, mas do risco de se transformar num partido nanico na maior cidade do país.

Pela primeira vez, o PT enfrenta um forte concorrente à esquerda, com Guilherme Boulos, do PSOL, em dobradinha com a ex-petista Luiza Erundina, subindo nas pesquisas e conquistando cada vez mais apoios em amplos setores da sociedade nos quais o partido foi historicamente hegemônico.

A força do partido de Lula sempre esteve nas fábricas, nas comunidades de base da igreja católica, nos movimentos sociais, no meio acadêmico e artístico, que mobilizavam seus militantes.

Com os sindicatos operários destroçados pela reforma trabalhista e o mercado de trabalho cada vez mais pulverizado na área de serviços dominado pelos informais, o PT perdeu sua principal base de apoio.

Sozinho na porta da igreja

Dessa vez, a cena registrada esta semana pelo ex-ministro Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha de Tatto, dá a dimensão do abandono do candidato, que se encontrava sozinho, parado na saída de uma igreja, onde estava marcada uma panfletagem.

Não pode haver solidão maior para um candidato do que ficar sem ter gente em volta, pelo menos seus apoiadores e membros da campanha, empunhando faixas e bandeiras. Os eleitores o ignoraram.

Carvalho relatou o que viu numa reunião de coordenação da campanha, no momento em que dirigentes já discutem uma alternativa se o candidato não decolar até o final do mês, como informa matéria de Cátia Seabra publicada hoje na Folha, sob o título “PT já impõe prazos a Tatto e debate a possibilidade de apoiar Boulos em SP”.

Enquanto os capas pretas discutem, na mesma página do jornal lê-se na coluna Poder que “mais de 40 companhias teatrais e artistas como José Celso Martinez Corrêa e Helena Ignez vão manifestar apoio à candidatura de Guilherme Boulos (PSOL) à Prefeitura de SP”. De Chico Buarque e Caetano Veloso, a Sonia Braga e Wagner Moura, esses apoios se multiplicam a cada semana.

Como a eleição é para prefeito e não para líder do sindicato dos artistas, é preciso ver se esse movimento a favor de Boulos chega às periferias da cidade, que decidem a eleição.

Redes sociais e boca a boca

Boulos aparece em todas as pesquisas com dois dígitos, atrás de Celso Russomanno e Bruno Covas, e lidera o Índice de Popularidade Digital, com sua campanha centralizada nas redes sociais, já que tem apenas 17 segundos de TV. Nesse ranking, Tatto patina em 6º lugar, à frente de Levy Fidelix.

Devido à pandemia, quase não se vê campanha nas ruas, nenhum sinal de que teremos eleições no dia 15 de novembro, o que torna improvável uma mudança radical nesse cenário, embora o PT costume crescer na reta final.

Após uma semana de programas no horário eleitoral, reduzido este ano a 10 minutos em cada período, com o tempo dividido entre 14 candidatos, sem grandes novidades, a disputa deve se dar mesmo nas redes sociais e na velha propaganda boca a boca, casa a casa.

Nas duas campanhas anteriores, Celso Russomanno, do Republicanos, também disparou na frente nas pesquisas, mas não foi nem para o segundo turno.

Agora ele tem 27% no ultimo Datafolha e o prefeito Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, aparece com 21%, tecnicamente empatados dentro da margem de erro da pesquisa. Boulos está em terceiro, com 12%.

Até dentro do PT Tatto precisa de apoio

Em 1988, Luiza Erundina também aparecia em terceiro lugar nas pesquisas, até a antevéspera da eleição, no final vencida pelo PT. Só que Erundina agora está no PSOL de Boulos.

“O Jilmar tem potencial de crescimento”, diz Gilberto Carvalho, mas a cena da solidão na porta da igreja mostra que a dificuldade agora é muito maior. Primeiro, o candidato precisa conquistar apoio dentro do próprio PT, o que está cada vez mais difícil. Lula sozinho não resolve.

Tentei falar com o ex-presidente Lula e Gilberto Carvalho sobre o cenário eleitoral, mas até o momento em que escrevo a coluna não tive retorno.

Vida que segue.

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