Crise na Lava Jato: a hora da verdade dos “heróis nacionais” Moro & Deltan

Crise na Lava Jato: a hora da verdade dos “heróis nacionais” Moro & Deltan

Dupla inseparável, o juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol desfilaram durante quatro anos como os intocáveis “heróis nacionais” do combate à corrupção, fazendo palestras e ganhando prêmios aqui e no exterior.

Eles eram a lei, os homens que mandavam prender e soltar, sem ninguém a lhes atravancar o caminho, a impor limites.

Os tribunais superiores avalizavam todas as decisões dos justiceiros da República de Curitiba, que tratoraram sem piedade o sistema político-partidário e a indústria pesada nacional.

O país assistia em êxtase à prisão de empresários e políticos em penca, como nunca havia acontecido antes.

Aos poucos, começaram a surgir queixas sobre decisões seletivas e partidárias, mas o castelo de cartas do combate à corrupção só seria abalado com as revelações feitas pelo site The Intercept e por vários veículos de mídia, como o UOL, sobre as manobras e os diálogos pouco republicanos entre o juiz e os procuradores em que já não se sabia mais quem era quem na Operação Lava Jato.

Denúncias foram feitas ao Conselho Nacional do Ministério Público e ao Conselho Superior de Justiça, mas os julgamentos eram sempre postergados até caírem em prescrição.

Só nesta terça-feira, o procurador Deltan Dallgnol receberia a sua primeira punição, por ter feito campanha contra a eleição de Renan Calheiros (MDB-AL) à presidência ao Senado, no ano passado, porque sua vitória seria prejudicial à votação de matérias de combate à corrupção.

Por 9 votos a 1, o CNPM aplicou a pena de censura, que passará a fazer parte da ficha funcional do procurador e poderá impedir progressão na carreira ou nomeação para futuros cargos.

Em seu voto, o relator, Otávio Rodrigues, afirmou que “membros do Ministério Público devem se abster de manifestações políticas pois isso compromete a isenção e a credibilidade”.

Rodrigues chamou a atenção para o perigo de se “ignorar os imensos riscos à democracia, quando se abre as portas para agentes não eleitos, vitalícios e inamovíveis, disputarem espaço, narrativas e, em última análise, o poder com agentes eleitos”.

Pular do campo jurídico para a disputa política é exatamente a principal crítica à atuação da dupla Moro e Dallagnol, que coloca em xeque a isenção e a imparcialidade deles.

Na semana passada, alegando problemas de saúde na família, Dallagnol já havia deixado o cargo de coordenador da força-tarefa em Curitiba.

Mal se abriram as urnas na eleição presidencial de 2018, Sergio Moro deixou a magistratura para se tornar ministro da Justiça e Segurança de Jair Bolsonaro, cargo que deixou em abril por divergências com o presidente.

Ato contínuo, Moro deu os primeiros passos para se colocar como presidenciável, e seu nome passou a ser incluído nas pesquisas para 2022.

Foi sua ida para o governo que motivou uma ação da defesa do ex-presidente Lula colocando sob suspeição a imparcialidade do ex-juiz. Algumas decisões de Moro em Curitiba já foram derrubadas na 2ª Turma do STF, que julgará a procedência ou não da ação.

Caso seja derrotado, Moro perderá a sua principal e única bandeira eleitoral. Uma possível candidatura de Dallagnol ao Senado pelo Paraná também seria abalada.

Num seminário sobre combate à corrupção nesta manhã, ainda sem saber do resultado do julgamento de Dallagnol, Moro já se mostrava preocupado com a “tentativa de punição administrativa e disciplinar” do colega.

Para ele, a Lava Jato está enfrentando um “momento de reação do sistema”, do qual ele mesmo fez parte, até poucos meses atras. Com esse discurso, ele tentaria se colocar como candidato anti-establishment, assim como Bolsonaro fez em 2018.

Moro & Deltan já viveram dias melhores. Sem os dois, a marca de fantasia da Lava Jato vai definhando nas mãos do procurador-geral Augusto Aras, alinhado com o presidente Jair Bolsonaro.

Desde que assumiu, Aras já fez sérias críticas ao modus-operandi da força-tarefa de Curitiba e nesta semana deverá redefinir suas funções.

Chegou a hora da verdade para os “heróis nacionais”.

Vida que segue.

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