Para militares do governo, 1964 ainda não acabou

Para militares do governo, 1964 ainda não acabou

Atualizado às 19h50: levantamento divulgado agora há pouco pelo Tribunal de Contas da União informa que o número de cargos civis ocupados por militares já chega a 6.100 em todas as áreas do governo. Quem vai tomar conta dos quartéis?

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“É proibido militar na política? É proibido militar ser ministro?”, perguntou candidamente o presidente Jair Bolsonaro, em sua live de quinta-feira, ao rebater críticas à progressiva militarização do governo.

E ele mesmo respondeu: “Não!”

Proibido não é, de fato. Mas lotear o governo com fardados não é papel dos militares numa democracia.

Segundo a Constituição, as Forças Armadas são uma instituição do Estado, não dos governos de turno.

Devem estar a serviço do país, para proteger seus cidadãos e as nossas fronteiras, não para tomar partido nas disputas políticas nem para receitar cloroquina.

As coisas estão de um tal jeito, mas de um tal jeito viradas do avesso do avesso, que daqui a pouco vamos ter que consultar novamente o Almanaque do Exército para saber quem será o próximo ministro ou presidente.

Era assim na época da ditadura militar (1964-1985), de não saudosa memória, que parecia para sempre enterrada.

Para cerca de 3 mil militares da ativa ou da reserva, no entanto, que estão aboletados no Palácio do Planalto e por toda parte no governo, sob o comando do capitão Bolsonaro, 1964 ainda não acabou.

Até o cargo de chefe da Casa Civil da Presidência da República agora é ocupado por um general, assim como o Ministério da Saúde, que em plena pandemia está há dois meses com um interino, acompanhado de um batalhão de oficiais de várias patentes.

A Amazônia foi entregue de porteira fechada ao vice-presidente, general Mourão, que pretende ficar lá com as suas tropas até o final do governo Bolsonaro, enquanto o ministro Ricardo Salles passa com a boiada.

Desde a redemocratização do país em 1985, não se falava tanto de militares no noticiário político.

Especula-se a todo momento sobre o que os generais palacianos acharam ou deixaram de achar sobre qualquer evento político ou jurídico.

Eles estão sempre incomodados, cheios de não me toques, contrariados, indignados, como se fossem os intocáveis da República, acima do bem e do mal, inimputáveis como as crianças e os índios.

Ouvir o que pensa o “Forte Apache”, como é conhecido o QG do Exército em Brasília, passou a ser uma pauta permanente de alguns colunistas políticos.

As fontes costumam ser anônimas. Quando muito, se dá a patente dos que falam em nome da tropa.

Para alimentar de ódio as falanges bolsonaristas nas redes sociais, é preciso sempre ter um inimigo para combater.

O alvo da vez é o ministro Gilmar Mendes, do STF, que teve a ousadia de advertir o Exército por se associar a um governo genocida, que já deixou um rastro de quase 80 mil mortos e mais de 2 milhões de brasileiros contaminados pelo coronavírus, incluindo o presidente da República, que vetou o fornecimento de água potável e comida para as populações indígenas.

Notas de repúdio contra as declarações do ministro do STF não bastaram para acalmar o ânimo dos militares e, então, o general da Defesa, Fernando Azevedo, resolveu enquadrar Gilmar Mendes na Lei de Segurança Nacional e no Código Penal Militar (?).

Nem o general Médici, no auge do AI-5, tinha chegado a tamanho desatino contra um ministro do Supremo.

Com Bolsonaro fora de combate, confinado no Alvorada, até ele teve que entrar em ação, junto com os bombeiros do Supremo e do Congresso, para colocar panos quentes na querela entre Gilmar e o Exército, que não vai dar em nada.

Há um grande acordo em marcha entre civis e militares, magistrados e parlamentares, milicianos e evangélicos, gregos e troianos, para deixar tudo como está e ver como é que fica.

Bolsonaro seria sarneyzado, com apenas um ano e meio de governo, depois de garantir todos os penduricalhos e aposentadorias especiais da guilda brasiliense.

“Descolonizem o governo, senhores! Voltem para os quartéis e peçam desculpas aos brasileiros e às respectivas tropas”, pede meu vizinho Reinaldo Azevedo, em sua coluna da Folha/UOL, aqui ao lado.

Desconfio que isso não será tão fácil, nem acontecerá tão cedo. Eles demoraram 35 anos para sair novamente dos quartéis e agora vão demorar para voltar.

O poder, já dizia Ulysses (ou foi Tancredo?), é afrodisíaco.

Vida que segue.

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