Parabéns, Patrícia Campos Mello, orgulho do jornalismo brasileiro

Parabéns, Patrícia Campos Mello, orgulho do jornalismo brasileiro

Poucas vezes fiquei tão feliz com um prêmio como esse que foi concedido à repórter Patrícia Campos Mello, da Folha.

Patrícia ganhou o Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, um dos mais cobiçados por jornalistas do mundo inteiro.

Conheço essa jovem senhora desde menina, porque ela é filha de um grande amigo meu, o fotógrafo e editor Hélio Campos Mello, parceiro de muitas aventuras jornalísticas pelas redações da vida.

Costumo brincar com ele que Patrícia é uma prova da evolução da espécie, assim como as minhas filhas…

Ninguém mais do que ela merecia esse prêmio, não só pela qualidade do conjunto da obra das suas reportagens, mas porque teve a coragem de tratar de assuntos e ir a lugares que outros repórteres procuram evitar.

Patrícia se consagrou no ano eleitoral de 2018, quando revelou que empresas e empresários bancavam pacotes de disparos de mensagens pelo WhatsApp, usando métodos fraudulentos, para apoiar o então candidato Jair Bolsonaro e detonar os seus adversários.

Por conta disso, ela foi atacada, humilhada e ameaçada nas redes sociais, mas até hoje Patrícia continua cobrindo os desdobramentos dessa reportagem, que agora serve de base para processos que estão sendo julgados no Tribunal Superior Eleitoral, e podem levar à cassação da chapa Bolsonaro-Mourão.

Antes dessa reportagem, ela já tinha corrido riscos muito maiores, ao cobrir conflitos e tragédias no Iraque, Síria, Turquia, Líbia, Líbano e Quênia, que lhe renderam livros e muitos outros prêmios.

O pai Hélio só ficou preocupado quando Patrícia resolveu cobrir a epidemia de ebola em Serra Leoa, onde ela era a única jornalista brasileira. Era enorme o perigo de contágio, muito maior do que o da pandemia do coronavírus.

Ex-correspondente do Estadão em Washington, hoje repórter especial e colunista da Folha, Patrícia é dessa brava geração de mulheres repórteres que estão sempre em busca de um novo desafio. Fazem as suas próprias pautas, decidem aonde ir e participam de todo o processo de produção, até a edição da matéria.

Foi assim que ela apresentou à Folha a ideia do projeto “Um mundo de Muros”, em que viajou pelo país e por vários países com o repórter-fotográfico Lalo de Almeida, para mostrar o que separa pobres de turistas abonados no litoral paulista, até aquele que separa refugiados somalis de quenianos.

Foi uma superprodução da Folha, que consumiu oito meses de trabalho dos dois e de outros 20 repórteres de texto e imagem, editores, programadores, infografistas e técnicos, como o jornal lembra na edição desta quinta-feira.

Na galeria do Cabot, Patrícia agora vai se juntar a outros dois jornalistas da Folha, Otávio Frias Filho, que foi diretor de redação e morreu em 2018, e Clóvis Rossi, o melhor editor e repórter da minha geração, morto no ano passado.

Está em boa companhia.

Patrícia Campos Mello é um orgulho para o jornalismo brasileiro, assim como Eliane Brum, a incansável guerreira em defesa da Amazônia, correspondente do El País, e tantas outras, que mudaram o perfil da nossa profissão, agora predominantemente feminina.

Vida que segue.

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