1984-2020: O Brasil das Diretas Já a Bolsonaro

1984-2020: O Brasil das Diretas Já a Bolsonaro

“Em que pesem obstáculos para mobilizar a maioria não ensandecida do país, em meio à sabotagem dos esforços para conter a mortandade da Covid-19, a opinião pública se desanuvia com a lembrança do vendaval Diretas Já, lufada que varreu a ditadura militar (1964-1985)”

Editorial da Folha desta terça-feira, sob o título “Unidade Já”, remete à grande mobilização popular pelas eleições diretas para presidente da República, em 1984, que uniu todas as forças da oposição política e da sociedade civil e foi um divisor de águas entre a ditadura e a democracia.

Tenho um envolvimento pessoal e afetivo com essa história porque fui o repórter da Folha que cobriu todos os comícios das Diretas Já, há 36 anos, e sou pai da cineasta Carolina Kotscho, uma das autoras do manifesto “Estamos Juntos” em defesa da democracia, que já conta com 257 mil assinaturas e teve 8,3 milhões de acessos ao site criado na sexta-feira.

Uma das poucas vantagens de ficar velho é que a gente já viu acontecer de tudo e também o contrário, como dizia o velho amigo Octavio Frias de Oliveira, “publisher” da Folha na época, que engajou o jornal na campanha.

Não há termos de comparação entre esses dois momentos da vida nacional, tão dessemelhantes em tudo. Das Diretas Já a Bolsonaro, é como se estivéssemos vivendo em outro país, embora o pano de fundo seja o mesmo: a democracia reconquistada dos militares e agora novamente ameaçada por um tenente afastado do Exército, cercado de generais.

Para começar, em 1984 vivia-se um clima de esperança, depois de duas décadas de ditadura. Era o fim de uma época. O último general do período militar, João Figueiredo, já estava enfastiado, não via a hora de ir embora e devolver o poder aos civis.

O país era uma festa. Milhões de pessoas indo às ruas, dançando e cantando, para ouvir o doutor Ulysses, o “Sr. Diretas”, Lula e Brizola, os três líderes que comandaram os comícios por todo o Brasil, ao lado do locutor Osmar Santos e da cantora Fafá de Belém.

A oposição era uma só. Não havia mais ninguém para defender o governo, ao contrário do que acontece agora, em que os fanáticos bolsonaristas gritam “Mito” e pedem a volta do AI-5. Em nenhum momento, o general Figueiredo ameaçou colocar as tropas nas ruas contra os manifestantes. Não houve um só incidente.

Só no dia 21 de abril, dia da votação da emenda constitucional no Congresso, para devolver ao povo o direito de votar para presidente, um general amalucado chamado Newton Cruz montou num cavalo branco em Brasília e avançou sobre a massa que gritava “Diretas Já!, mas ninguém ficou ferido.

Faltaram apenas 22 votos para a aprovação da emenda naquele dia, derrotada pelo Centrão da época, mas o Brasil já tinha escolhido o caminho da democracia, não tinha mais volta.

Oito eleições diretas depois, o cenário é completamente diferente. No último fim de semana, a sociedade civil e as torcidas organizadas do futebol, em manifestos e protestos, voltaram a dar sinais de vida, o que levou a Folha a lembrar as Diretas Já na manchete do jornal de segunda-feira.

Gostaria muito que fosse verdade, torço por isso, mas a realidade é muito mais dramática hoje, com as oposições divididas e sem rumo, e o país assolado por uma pandemia que mata cada vez mais gente, mantendo metade da população confinada em suas casas.

Em lugar da esperança e da alegria de 1984, hoje os brasileiros vivem com medo do que ainda pode acontecer.

O golpe de 2016, que derrubou uma presidente eleita, Dilma Rousseff, que não cometeu nenhum crime, e a Lava Jato, que tirou Lula da eleição para eleger Bolsonaro, deixou feridas profundas. Já não permite mais colocar no mesmo balaio os que se opõem a Bolsonaro, em defesa da democracia e das vidas ameaçadas.

Por mais humanitários e justos que sejam os apelos do “Estamos Juntos”, que eu assinei, ainda são apenas um grito de SOS diante das barbaridades a que estamos submetidos. Falta o passo seguinte, uma pauta, uma bandeira, uma proposta de país para o pós-Bolsonaro.

Digamos que ele caia de podre amanhã. O que vem depois? O general Mourão? O que muda? Paulo Guedes continuará destruindo os direitos dos trabalhadores e dos aposentados? Vai parar a matança de índios, negros e pobres, a destruição da Amazônia?

Manifestos e protestos não derrubam governos, eu sei, mas podem servir para acordar a população massacrada pelo coronavírus, o desemprego e a fome, e pressionar o Congresso e o Judiciário a dar um basta a essa insanidade que está destruindo o país.

É melhor do que não fazer nada, ou apenas discursos e diagnósticos para os convertidos, denunciar o que todo mundo já sabe, ser aplaudido e gritar contra a escuridão.

O que me dá esperança é que nesse despertar da sociedade civil estão surgindo novas lideranças, essa geração da minha filha Carolina, que poderia só cuidar dos filhos e da carreira, mas está botando a cara a tapa, tentando fazer alguma coisa para poder voltar a respirar e dormir em paz.

Foi isso que me moveu a entrar de cabeça na campanha das Diretas Já.

Foi isso que moveu Carolina. Não tem nada a ver com a Globo, onde ela trabalha. Começou com grupos de WhatsApp de colegas de trabalho e ganhou uma dimensão que nem eles esperavam.

Mas o Brasil de 1984 era outro, era mais fácil. Tinha mais gente ao meu lado, e todos estavam do mesmo lado, contra a ditadura.

Não havia inimigos. Agora temos dois: o coronavirus e o bolsonavirus.

O que está em jogo não é só a democracia, mas a nossa sobrevivência como nação.

Se a gente não se juntar contra isso, não vai sobrar Brasil para ninguém.

Vida que segue.

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