Felipe Neto X Bolsonaro: nova oposição ao governo surge nas redes sociais

Felipe Neto X Bolsonaro: nova oposição ao governo surge nas redes sociais

De Felipe Neto, só sabia que era um youtuber carioca de muito sucesso, com milhões seguidores, mais até do que o presidente Jair Bolsonaro, que se elegeu e governa pelas redes sociais.

Com 40 milhões de inscritos no Youtube e 28 milhões de seguidores no Twitter, em 110 minutos de entrevista no Roda Viva o jovem comunicador digital de 32 anos apresentou-se ao país na segunda-feira com um vigoroso discurso contra o que chamou de “governo fascista”, como ainda não tinha visto nenhum líder de oposição fazer até agora.

Falando de forma franca e sem rodeios, numa linguagem que todo mundo entende, respondendo na lata à excelente bancada de entrevistadores, Felipe Neto foi para mim uma grata surpresa, um sopro de vida nova no devastado cenário político do país.

Depois de fazer um mea-culpa por ter apoiado o golpe de 2016 e se omitido na eleição de 2018, o youtuber foi direto ao ponto, mostrando com clareza o que está em jogo neste momento:

“Quando a gente lida com a realidade que está lidando hoje, não é mais questão política, não é questão de lado. Que lado é esse? A gente não pode validar opressão, fascismo. Está lidando com um assunto extremamente radical, não estamos falando de lados”.

Felipe Neto reconhece que Bolsonaro “nada de braçada na maneira de se comunicar”, que a esquerda ainda não aprendeu, “com a qual grande parcela da população brasileira se identifica, resultado de anos e anos de descaso com a educação básica”.

Com a fama e a fortuna que já fez nas redes sociais, ele poderia ficar quieto no seu canto, só contando o dinheiro que entra sem parar, mas dias atrás ele fez um vídeo dirigido a outros comunicadores digitais, chamando-os a também assumir uma posição de combate: “Quem se omite ou apoia o fascismo, também é fascista”.

Foi o que chamou a atenção da grande mídia e de ignorantes digitais como eu e o levou ao centro do Roda Viva, diretamente do seu estúdio no Rio, em que aproveitou cada minuto para explicar o que o levou a mudar de posição diante do que está acontecendo no país.

“Faço mea culpa sem problema algum. Errei muito no passado, aprendi muito com esses erros. Não sou adorador de um projeto petista, mas no momento do impeachment a minha colaboração, embora não fosse comparável ao alcance de hoje, sem dúvida foi utilizada de maneira errada, equivocada, por falta de leitura, de estudo. Passei os últimos quatro anos tentando corrigir esse erro e usando minha força para afastar essa opressão que vemos hoje”.

Gostaria muito que amigos e colegas meus na imprensa, que ajudaram a levar Bolsonaro ao poder, também mostrassem essa grandeza.

Mas Felipe Neto não ficou só nisso. Fez um apelo para que todos os democratas, sem partidarismos, façam um movimento de união nacional para se opor ao atual regime miliciano-militar que está destruindo o país, tijolo por tijolo.

Não é feio mudar de opinião, mas é burrice insistir nesses velhos métodos de fazer política, que nos levaram a essa situação de fim de feira, em que a fake news da “nova política” bolsonarista se alia ao Centrão de velhos carnavais para deixar tudo como está.

Perguntado várias vezes, Felipe Neto falou que não é candidato a nada, não apoia nenhum partido, é um franco-atirador que só quer defender os valores básicos da democracia, a começar pela liberdade ameaçada, “quando a gente vê o presidente fazer as coisas que está fazendo, mandar um jornalista calar a boca”.

Como sobrevivente da geração 68, que resistiu e foi vitoriosa no enfrentamento da ditadura militar, defendida por Bolsonaro, alegro-me em ver que a esperança renasce de onde a gente menos podia esperar.

Jornalista não tem que prever o futuro, mas apenas contar o que está acontecendo, e não fechar os olhos e ouvidos para as novas caras do Brasil que estão saindo dos subúrbios, de onde Felipe Neto veio, para abrir novos caminhos com as mesmas armas do opressor.

Enquanto estava escrevendo, me lembrei de uma reportagem que fiz em outubro de 2018 para a Folha, que me mandou entrevistar um certo MC Fioti.

Não tinha a menor ideia de quem se tratava, não entendi por que me escalaram para essa matéria, mas agradeço até hoje ao pauteiro.

Foi quando eu descobri um mundo que não conhecia, de onde também surgiu Felipe Neto.

“Funk de MC Fioti inspirado em Bach ganha o mundo e bate recordes”, foi o título que deram à matéria (MC, eu descobri, é o acrônimo de mestre de cerimônias nos shows de funk).

Naquela semana, Leandro Aparecido Ferreira, de 24 anos, o MC Fioti que saiu dos fundões das ruas do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, tinha batido o recorde de visualizações, mais de um bilhão. Para ser mais exato, 1.030.248.935, como mostra o marcador do Youtube no seu celular.

Acreditem se quiser: esse foi o numero alcançado pelo vídeo que ele gravou com a música “Bum Bum Tam Tam”, um funk inspirado numa partitura para flauta em lá menor assinada por ninguem menos que Johann Sebastian Bach.

MC Fioti é de um lado do Brasil, o das comunidades mais carentes das periferias, que o outro Brasil não conhece, mas sabe quem foi Bach.

Esses dois Brasis, tão dessemelhantes, estão na origem das descobertas que Felipe Neto fez nos seus estudos para chegar até o Roda Viva, e bagunçar o coreto.

Se vocês duvidam de mim, assistam ao programa que está no portal da TV Cultura de São Paulo. Vale a pena conhecer esta figura.

As mesmas redes sociais que impulsionaram Bolsonaro ao Palácio do Planalto, agora podem ajudar a tirá-lo de lá.

Ainda há esperanças.

Vida que segue.

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