Regime militar-miliciano bolsonarista avança sobre a democracia

Regime militar-miliciano bolsonarista avança sobre a democracia

Sob o título “O presidente perdeu a condição de governar”, seis ex-ministros dos governos FHC e PT, integrantes da Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos, lançaram nesta segunda-feira um manifesto em defesa da vida e da democracia, ameaçadas pelo avanço do autoritarismo e do desmazelo na gestão pública, em meio à maior crise sanitária dos últimos 100 anos.

Publicado na página três da Folha, este libelo da sociedade civil contra a escalada golpista defende o afastamento de Bolsonaro por colocar em risco a vida dos brasileiros e pede que as forças democráticas busquem com urgência os caminhos para que isso se faça dentro do Estado de Direito. Diz o manifesto:

“Não há como aceitar um governante que ouve apenas radicais fanáticos, ressentidos e manipuladores, obcecado que está em exercer o poder de forma ilimitada, em regime miliciano-militar que viola as regras democráticas e até mesmo o sentido básico da decência.

Jair Bolsonaro perdeu todoas as condições para o exercício legítimo da Presidência da República, por sua incapacidade, vocação autoritária e pela ameaça que represernta à democracia. Ao semear a intranquilidade, a insegurança, a desinformação e, sobretudo, ao colocar em risco a vida dos brasileiros, seu afastamento do cargo se impõe”.

Cada vez mais isolado e descontrolado, o ex-capitão Jair Bolsonaro comandou neste domingo uma nova deprimente manifestação antidemocrática, que ele mesmo convocou, a favor do seu governo e do uso da cloroquina, em sua cruzada pelo fim do isolamento social no combate à pandemia de coronavírus.

Ao lado de 11 ministros, três deles generais, dois filhos e um séquito de bajuladores, o presidente viu lá do alto o grupo de milicianos enfurecidos carregando um caixão e gritando palavras de ordem contra o Supremo Tribunal Federal. Ninguém foi preso.

Em nenhuma república bananeira do passado se viu algo parecido como nesta cena patética: na rampa do Palácio do Planalto, ao recepcionar um grupo autointitulado “Paraquedistas de Bolsonaro”, com camisas pretas e boinas vermelhas, o presidente aceitou o convite para fazer uma série de flexões como se estivessem num quartel (a foto está no blog de Juca Kfouri).

A segurança não notou que os militantes bolsonaristas carregavam estiletes, canivetes e sprays de pimenta, segundo relata reportagem da Folha.

Mais cedo, o secretário de segurança e coordenação presidencial do Planalto, general Luiz Fernando Barganha, comandou pessoalmente uma varredura no pequeno público à espera de Bolsonaro para retirar faixas contra os outros poderes. Depois de se aliar ao Centrão e recepcionar Rodrigo Maia no Planalto, não pegaria bem.

Ao ir para perto dos devotos aglomerados junto às grades de segurança, como faz no “cercadinho” do Alvorada, Bolsonaro chamou a atenção dos repórteres. “Vejam, não há nenhuma faixa, nenhuma bandeira que atente contra a Constituição, contra o Estado democrático de Direito”.

Tudo nele é fake: as faixas foram tiradas dali pela segurança, antes do presidente chegar, mas continuavam nos carros e caminhões de mais uma carreata da morte, que percorreu a cidade, pedindo a reabertura do comércio e um golpe militar contra o STF e o Congresso, sem nenhuma intervenção da polícia.

Os protestos antidemocráticos anteriores, dos quais Bolsonaro também participou, já são alvo de investigações da Procuradoria-Geral da República e do STF. Por isso, os seus cuidados neste domingo.

“O momento é grave. É hora de dar um basta ao desgoverno”, clama o manifesto dos ex-ministros, mas temo que, mais uma vez, tudo se resumirá a notas de repúdio.

Por isso, o regime militar-miliciano que se instalou no país se sente inimputável, e continua avançando sobre o que resta de nossa jovem e frágil democracia.

Vida que segue.

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