A vida confinada no mundo virtual, com bom humor e sem futebol

A vida confinada no mundo virtual, com bom humor e sem futebol

Velho, gordo, careca e fumante, 72 anos, fui confinado em casa pelas próprias filhas porque sou do chamado grupo de alto risco, principalmente para os outros.

“Você vai ficar pelo menos duas semanas sem sair de casa. A gente leva comida para você”, foi a ordem que recebi, sem direito a resposta.

Só agora, quase uma hora da tarde de segunda-feira, consegui me livrar dos zap-zap do celular, que não parou de apitar desde cedo porque, justo hoje, é meu aniversário, confinado aqui em casa e sem poder receber visitas.

Ao abrir o computador, vi que os amigos e leitores do Balaio já tinham mandado mais de mil mensagens. Nunca tinha recebido tantos cumprimentos, nem quando ocupava cargos de chefia na grande imprensa.

Vai ver, devem achar que não vou durar muito mais, e por isso resolveram dar um amparo solidário ao velho, trancado em casa nestes dias insanos, tristes e sombrios que estamos vivendo.

Vou deixar para ler tudo com calma no final do dia, depois do serviço.

De um dia para outro, os hábitos da gente vão mudando e se adaptando à nova realidade. Não tem outro jeito.

Pela primeira vez em muito tempo, no domingo, assisti ao “Fantástico” do começo ao fim, uma verdadeira obra-prima do jornalismo de prestação de serviços sobre a pandemia.

Dizem que coincidências não existem, mas uma das primeiras mensagens que recebi hoje foi do Ernesto Paglia, o velho e bom repórter “Palha” dos tempos em que eu trabalhava na rua, um dos dinossauros da Globo, que participou desta brilhante cobertura do coronavírus.

Foi ele quem me deu a ideia de escrever este texto. “A vida online é muito curiosa, Kotscho. Rende pauta. Já vejo matéria vindo aí… Meus primos italianos, pouco ligados em zap, de repente, ficaram muito conectados! A vida nas quarentenas transborda para a rede”.

É verdade, caro Paglia. Pois o repórter se animou tanto com o assunto que acabou quase escrevendo a matéria para mim.

“Cá entre nós, não substitui o contato direto. Mas, que tempos mágicos vivemos, hein? Filmes, livros, jornais do mundo todo, amigos e parentes dos quatro cantos [eu recebi mensagem até em alemão…], piadinhas, acesso livre a conteúdos incríveis (a Filarmônica de Berlim, os museus europeus, até veículos de comunicação baixando o fire-wall para dar acesso às informações sobre o vírus”.

O único receio dele é o mesmo que eu tenho, como já escrevi aqui no Balaio semana passada.

“Só não pode dar pau na internet! Agora há pouco, minha filha e minha mulher vieram ao escritório com olhos injetados. Ernesto! Pai! Você mexeu na internet? ( e o pior é que eu tinha mexido mesmo, e derrubei a bendita conexão). Uma, tendo aula de inglês, a outra, aula da escola online… Quase apanhei! Pois é… o mundo todo numa janelinha… haja foco!”

Paglia descobriu na internet até um curso de meditação de graça por 14 dias, ao vivo, direto de um estúdio em Nova York.

E ele já pensa até no que virá depois do tsunami viral:

“Passada a pandemia, ninguém mais vai querer sair de casa. Nem pagar por serviços online…”

Importante é não perder o bom humor, algo que nunca faltou ao amigo gozador. Fazer cara feia não resolve problema algum, não melhora nada.

No mesmo grupo de zap, veio essa do publicitário Persio Pisani:

“Tenho tanta informação do coronavírus no meu celular, que ele nem vibra mais, ele tosse”!.

Logo em seguida, entrou Mario Vitor Santos, ex-ombudsman da Folha, hoje um dos chefes da Casa do Saber:

“Nossa empregada acabou de ligar, pra avisar que vai trabalhar de casa! Mandará instruções do que devo fazer”.

Para não perder a viagem, Ernesto Paglia mandou essa:

“Vou dar a minha contribuição. Toque de recolher digital pela próxima meia hora”.

Ninguém obedeceu.

Meu parceiro Ricardo Carvalho, com quem vou fazer um programa no Youtube em breve, quando for desconfinado, me mandou essa contribuição para a coluna:

“Agora que os velhos vão ficar em casa por causa do coronavírus alguém sabe se já pode estacionar na vaga deles?”.

Boa ideia. Há males que vem pra bem. Dá pra faturar um dinheirinho…

Até este momento, só reclamei do cancelamento dos jogos de futebol. bem agora que o meu São Paulo engrenou e já pinta como campeão.

Era minha maior diversão no confinamento, mas também não se pode querer tudo.

Chegou a entrega do sanduíche do almoço.

E vida que segue.

11 thoughts on “A vida confinada no mundo virtual, com bom humor e sem futebol

  1. Querido KOTSCHO! Estava com saudades dos teus textos, não os recebi por alguns dias ou você não escreveu? Lembre-se você é necessário por isso deve-se cuidar e obedecer suas filhas ?? beijo grande e abraço apertado de quem te admira por demais ??? Roberta

  2. Eu e meu gêmeo carioca completamos 70 anos, 35 cada um, mas estamos nesse grupo de riscos e rabiscos.
    Vamos em frente que vem gente atrás da gente, beijos digitais (na bochecha) e abraços fraternais by down loads…

  3. Do limão, faz-se limonada. Da tensão, Kotscho consegue produzir, delicioso e inteligente, momento de relaxamento. É sempre prazeroso ele compartilhar conosco seus conhecimentos de vida, de jornalismo e de bom humor. Gratidão!!!

  4. Feliz aniversario, Ricardo. Vai aqui da França, onde estou morando desde 1988, o meu grande abraço. Eu sou a mineira, de Belo Horizonte, que conheceu você em Tiradentes, quando ficamos de “quarentena” esperando a morte do Tancredo Neves. Lembra? Estou confinada desde ontem. Situaçao estranha. Vamos ver o que o ser humano vai aprender com esta crise. Abraços.
    Elvia Menezes, a jornalista da Radio Rural de Belo Horizonte.

  5. Kotscho, meus parabéns a você. Viva muito e agradeço pelo Balaio. É seu aniversário mas nós que ganhamos um presente todo dia.
    Um forte abraço!
    Rubens

  6. Caro Ricardo
    enquanto vc pode fazer um retiro anti-viros na sua casa, nos temos neste fim de semana ainda um casamento em nossa pousada, gente de Manaus(!); vamos ver os que vem aí; Salvador ainda não é São Paulo, e eu com meus 74 aninhos vou ficar rodando para comprar materia-prima, fazer revisão de carro, fazer consulta com medica, ect. enquanto os nossos governantes não proibirem sair de casa, ou fecham dez vez restaurantes e pousadas; aí o bicho vai pegar!
    Feliz aniversário, saúde e longa vida
    Arno & Iola

  7. …d+…que textozinho mais bacana.
    Vc faz aniversário, e nós é que somos presenteados..
    Que grupo é este que voces criaram…que rurma criativa e bem humorada.?
    Coloca lá no grupo esta que aconteceu com um amigo esta semana.
    O cara, depous de muita insistência, e gastar uma grana, com presentes e jantares, conseguiu enfim, levar a moça prum motel. Mas quando ele estava tirando as meias, ninguém sabe se foi efeito do xulé, o coitado deu um espirro.
    A moça, imediatamente vestiu as roupas dela, enquanto gritava :
    – Se afaste, não se aproxime, tú tá contaminado miserave.. vamos embora.
    Eu disse pra ele que, por precaução, da próxima, tire o sapato ainda no carro.

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