Crise? Que crise? Bolsonaro finge que nada tem com isso

Crise? Que crise? Bolsonaro finge que nada tem com isso

Com o mundo de pernas para o ar na segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro encontrou tempo para visitar o estúdio do pintor Romero Brito em Miami, falar para empresários americanos que a eleição presidencial foi fraudada e criticar o médico Drauzio Varella por ter abraçado em reportagem no “Fantástico” uma transexual presa por estuprar e matar uma criança.

Como se não tivesse nada a ver com a profunda crise política e econômica que assola o país, o presidente não havia se manifestado até o meio dia de hoje sobre quais providências seu governo pretende tomar para enfrentar o derretimento do mercado financeiro.

Sem falar com a imprensa desde a semana passada, quando foi anunciado o pibinho de Guedes, de 1,1% em 2019, Bolsonaro seguiu cumprindo sua agenda em Miami como um turista em férias.

Nada de antecipar a volta ao Brasil, nada de convocar o ministério para uma reunião de emergência, nada de anunciar medidas concretas em entrevista coletiva – o mínimo que se poderia esperar de quem ocupa o mais alto cargo do país.

Por aqui, o superministro da Economia se limitou a dizer que estava “absolutamente tranquilo” e o superministro da Justiça mostrava-se mais preocupado com o destino de Ronaldinho, o “embaixador do turismo”, preso no Paraguai.

Chegamos a um ponto em que, sem governo e sem oposição, com os presidentes dos outros poderes mantendo obsequioso silêncio, parece que o Brasil está entregue à sua própria sorte, ou seria melhor dizer, azar. E segue o jogo.

A única boa notícia que Bolsonaro encontrará na volta ao Brasil é a adesão do Clube Militar aos atos pró-governo de domingo, anunciada num comunicado que critica a “velha política” e o “parlamentarismo branco”.

No quartel palaciano, a novidade é a fritura à luz do dia e em fogo alto da recém-empossada atriz Regina Duarte, que já teve oito nomes vetados para formar a sua equipe, ao bater de frente com a “ala ideológica” olavista, comandada pelo filho Carlucho, o 02.

A imagem do presidente, bastante concentrado, dando pinceladas numa tela esboçada por Romero Brito, publicada na capa da Folha, é o melhor retrato do total alheamento do governo diante da tempestade perfeita de coronavírus-preço do petróleo-pibinho-mercado derretendo, que avança sobre o país.

Para completar o quadro, a manifestação do dia 15 contra o Congresso, o STF e a imprensa, e a favor da intervenção militar, como pregam seus organizadores dos movimentos conservadores, pode estabelecer um novo e perigoso patamar na crise política que divide o país.

Três dias depois, irão às ruas estudantes e funcionários públicos convocados pela UNE e por todas as centrais sindicais, com a palavra de ordem “Ditadura Nunca Mais”.

Essas manifestações populares costumam se retroalimentar, um protesto leva a outro e ninguém sabe como ficará o cenário político, já explosivo, depois dos protestos de março.

É nesse clima que os investidores estrangeiros já tiraram do Brasil mais de R$ 40 bilhões este ano e o governo torrou US$ 42 bilhões das reservas internacionais para segurar o dólar, que chegou a bater em R$ 4,80.

Apertem os cintos que o piloto sumiu.

Vida que segue.

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