De Manchester a Goiânia, os dois mundos do futebol, entre o campo e a escola

De Manchester a Goiânia, os dois mundos do futebol, entre o campo e a escola

Vamos mudar um pouco de assunto?

Depois dessa overdose carnavalesca e antes que a política volte da ressaca, prefiro falar hoje de uma história familiar que pode interessar a outras pessoas com filhos que querem ser jogadores de futebol, mas têm medo de largar a escola quando chega a hora de se profissionalizar.

É uma história de vida bonita, que deu certo, e pode ser a semente para evitar que, no futuro, o Brasil continue sendo apenas um país exportador de pé-de-obra para o futebol de outros países.

Algumas TVs brasileiras até já fizeram reportagens sobre esse assunto, lá na Inglaterra, onde parte da família do meu irmão foi morar três anos atrás.

Em dezembro de 2016, quando a coisa estava ficando cada vez feia por aqui, meu sobrinho Gustavo Kotscho resolveu dar um tempo.

Executivo de logística em grandes farmacêuticas, deixou para trás uma carreira profissional de sucesso, juntou a família e seus trapos, e foi se aventurar na Inglaterra.

Por razões que desconheço, foi parar em Manchester, uma cidade industrial, que nos últimos anos se tornou mais conhecida por ser uma fábrica de jogadores e grandes times de futebol.

Aos 41 anos, com boa condição financeira, Gustavo tinha ainda uma vida inteira toda pela frente para se aventurar e podia fazer isso.

Queria oferecer aos três filhos boas escolas e melhores condições de vida, sem medo de andar na rua.

O que ele não podia imaginar é que os três meninos, hoje com 17, 15 e 11 anos, fossem logo parar nas equipes de base do Manchester City, do gênio Pepe Gardiola, que comanda todas as categorias de futebol do clube.

Carregado de medalhas e troféus, o caçula Tales, craque da família que brilhou nos gramados ingleses com a sua poderosa canhotinha, já voltou para a base do Goiás. Lucca, o do meio, também deve voltar logo, e Nicolas, o mais velho, quer estudar estatística para aplicar no futebol.

Nos três anos que passaram em Manchester, eles conheceram uma outra realidade, onde o estudo e o futebol caminham juntos na formação dos jovens, uma rica experiência que Gustavo  quer agora trazer para o Brasil.

No final do ano passado, a família voltou para Goiânia, cidade da família de sua mulher, a professora Juliana, que tem uma rede de escolas de inglês.

Enquanto os meninos aprendiam a jogar bola com técnica e método, e a falar inglês, Gustavo se formou técnico credenciado pela Federação Inglesa de Futebol (FA) e voltou cheio de planos:

“Vou me dedicar a um projeto para criar oportunidades de intercâmbio, com programas exclusivos para meninos e meninas apaixonados por futebol. Quero trazer profissionais ingleses para treinar a garotada aqui no Brasil e levar a turma para vivenciar o fantástico mundo dos grandes clubes da Premier League. Vamos começar em Goiânia e depois levar o projeto para outras cidades brasileiras”, planeja ele, todo animado.

Pedi ao sobrinho Gustavo, um dos poucos da família que não virou jornalista, como o pai, o premiado fotógrafo Ronaldo Kotscho, para me mandar um relato sobre a sua vivência em Manchester, onde ele descobriu como é possível conciliar o esporte com a escola, algo ainda longe da realidade do nosso país.

***

No Brasil, o futebol profissional é um esporte elitista às avessas. Com raríssimas exceções, apenas os garotos que não têm a oportunidade estudar em boas escolas, e que por isso, infelizmente, terão opções profissionais limitadas quando entram na fase final das categorias de base, acabam seguindo na carreira.

Provavelmente por influência da minha paixão por futebol, meus três filhos gostam de jogar bola desde que começaram a andar. A grande maioria das minhas manhãs de sábado e domingo são passadas nos alambrados de campos de futebol. Não há um dia em que eu não escute pais agoniados, questionando-se sobre o futuro do seu filho quando chegar a hora de decidir entre o futebol e os estudos. Até que chega o temido dia dessa bifurcação! E agora?

Nos três anos que vivi com minha família em Manchester, pude descobrir uma realidade completamente diferente. Lá, o futebol, dentro ou fora das quatro linhas, masculino ou feminino, é uma profissão como outra qualquer, a parte física não tem preferência sobre a intelectual.

Até os 16 anos, quando termina a educação secundária na Inglaterra, todos os alunos ficam dentro das escolas das 08:30 às 15:30 hs, de segunda a sexta-feira. Os clubes, sejam eles de bairro ou profissionais, começam as suas atividades após as 17:00hs. As escolas, por sua vez, não massacram os alunos com tarefas de casa, justamente porque entendem que crianças e adolescentes devem ter tempo suficiente para brincar e praticar seu esporte. Há um planejamento integrado, pensado no desenvolvimento integral do ser humano.

Com 16 anos, enquanto no Brasil os apaixonados por futebol, que tiveram a oportunidade de estudar numa boa escola, estão olhando para a encruzilhada futebol/estudo, na Inglaterra esse dilema não existe. Lá, meninos e meninas que se destacaram no futebol até aquele momento, estão entrando nos programas chamados “Football Apprenticeship jobs”. São empregos em clubes de futebol, onde o atleta joga e recebe em troca uma ajuda de custo. Nesses programas, o jovem é obrigatoriamente matriculado num “college”, na maioria das vezes parceiro do clube, onde continuará seus estudos.

Além disso, a convivência entre atletas vindos de várias partes do mundo e com diversas realidades econômicas e sociais, enriquece a todos. É um modelo que nós brasileiros deveríamos olhar com carinho, ou continuaremos perdendo grandes talentos esportivos para os estudos e grandes talentos intelectuais para o esporte.

Para maiores detalhes, sigam meu instagram @gkotscho_football ou minha página do facebook.

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Vida que segue

 

 

6 thoughts on “De Manchester a Goiânia, os dois mundos do futebol, entre o campo e a escola

  1. Durante o tempo em que fui diretor de escola estadual (concursado) na cidade onde sempre morei, passaram pela Prefeitura uns cinco prefeitos. A todos eu propus que a prática do esporte (futebol, principalmente) fosse ligado ao comprometimento escolar do aluno. Todos acharam minha proposta muito boa. Porém, as providências nunca passaram do “pode deixar!”

  2. Amado mestre,
    Peço licença para relatar um caso real ocorrido no futebol dos anos 70 e 80 sobre o assunto que você enfocou:

    O meu irmão Polaco jogou, entre outros times, no Corinthians e Palmeiras. Durante a carreira chegou a cursar duas faculdades – de educação física e de jornalismo – mas não concluiu nenhuma.
    Sou de uma família de classe média interiorana. Meu pai, funcionário público estadual, era daqueles que concurso público garantia a vida da pessoa. Minha mãe passou mais de dez anos em colégio de freiras e, por isso, incentivava os filhos a nunca deixar de estudar.
    Polaco chegou ao Corinthians em 1969, com 20 anos. Cursava educação física, em São Carlos-SP. Trancou a matrícula. Quis prestar o vestibular para Medicina e passou a frequentar o cursinho Objetivo, no prédio da Gazeta Esportiva, na Paulista. Era o único e muito concorrido. Ele conseguiu uma bolsa através do repórter de campo, Fausto Silva, o “Faustão”, que trabalhava na Jovem Pan, parceira do Objetivo.
    Ele morava no Parque São Jorge e o curso era na Paulista. A distância foi um elemento dificultador somado a uma excursão de mais de mês com a seleção Paulista de Novos, pela África, Europa e Ásia. Essa seleção foi formada sob o comando da CBF e tinha como objetivo ir à caça de votos para o presidente João Havelange, que pretendia concorrer à presidência da FIFA. Polaco conta que um jogo no Oriente Médio precisou ser paralisado porque os adversários não tinham muito costume com a bola e batiam sem dó nos jovens atletas paulistas. Um sheik entrou armado, chamou os jogadores no meio do campo, e danou a falar com o revólver na mão. Os jogadores brasileiros não entenderam o recado, mas o jogo ficou tão fácil, sem faltas, que a seleção goleou. (gosto de ser prolixo nas descrições de fatos).
    Ele retornou ao cursinho do Objetivo, na Paulista. Eu cursava jornalismo no mesmo prédio e o incentivei a abandonar a pretensão de fazer medicina e cursar jornalismo. Prestaram o vestibular da Cásper, ele, o Lance (atacante do Corinthians) e o juiz Roberto Nunes Morgado. Lance e “Morgadinho” se formaram. Polaco, não.
    Quando chegou ao Palmeiras, em 1971, não conseguiu frequentar o curso de jornalismo como devia. O time de Parque Antarctica era a referência do futebol brasileiro e viajava muito.
    Não se formou em jornalismo. Parou no último ano.
    Queria que ele concluísse o curso para ser comentarista nos jornalismos esportivos das TVs. Ele, que viveu o meio futebolístico, se defendia e afirmava que não bastava apenas o diploma para ser comentarista. Entendi, e larguei mão!
    Hoje, se aposentou como empresário no ramo de venda combustíveis.
    Mas muitos ex-companheiros, de um dos maiores times que o Palmeiras já teve, foram por falta de estudos afetados na vida após carreiras vitoriosas.
    De lá pra cá são cerca de 40 anos. Nada mudou no Brasil. Os dirigentes não dão a importância que merece o ensino no meio futebolístico.
    Sucesso ao Gustavo Kotscho nessa empreitada de implantar no Brasil o conceito esporte/escola, experiência que traz do Manchester.

    Ulisses de Souza

    1. Boa tarde Ulisses,
      Que bela história! Muito obrigado por compartilhar conosco. Você se importaria se eu publicasse ela nas minhas mídias sociais?
      Forte abraço.
      Gustavo Kotscho.

  3. Grandes irmãos Kostcho, que no final da decada de 1970 eram clientes da Colonna Romano e Associados, do memorável Dr. Adolpho Paschoal Colonna Romano, da Alameda Lorena 1996.
    Bons tempos….

  4. Nesta diferença de ambientes esta’ em ação o contraste de duas culturas, a de saxão e a ibérica. Aquela que não rebaixa o trabalho manual, esta que so’ prestigia o saber acadêmico.
    Passo a seguir o Instagram

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