Greve secreta da Petrobras entra no 18º dia e só agora vira notícia

Greve secreta da Petrobras entra no 18º dia e só agora vira notícia

Maior paralisação nas instalações da Petrobras desde 1995, ainda no governo de FHC, a greve dos petroleiros de 2020, até agora solenemente ignorada, só ganhou espaço na mídia no 18º dia, depois de ser decretada ilegal pelo TST do ministro Ives Gandra, aquele célebre carrasco dos trabalhadores que inspirou a “reforma trabalhista” de Michel Temer.

Com 21 mil empregados e 122 unidades da Petrobras paradas, segundo a Federação Única  dos Petroleiros (FUP), até esta terça-feira a greve era secreta.

O que mudou no Brasil nestes últimos 25 anos, desde a última greve, que durou 32 dias?

A grande diferença está no comportamento da mídia, que durante o governo FHC dava notícias sobre a paralisação na Petrobras todos os dias, em todos os telejornais, mantendo a população informada.

Agora, não. Sob Bolsonaro, virou um assunto proibido porque o importante é aprovar as “reformas” de Paulo Guedes, antes que o governo Bolsonaro afunde de uma vez.

A Petrobras não comenta, mas as 11 grandes refinarias do país aderiram ao movimento, o que pode provocar o desabastecimento de combustíveis, em meio a uma ameaça de paralisação dos caminhoneiros.

Em 1984, toda a grande mídia, com exceção da Folha, também ignorou a campanha das Diretas Já, que estava tomando as ruas de todo o país, até que houve um momento que não dava mais para esconder o que estava acontecendo. Saiu até no Jornal Nacional.

O perigo é sempre ter algum repórter solto na rua disposto a contar o que os donos do poder tentam esconder.

Já em 1992, após a redemocratização, nos estertores do governo Collor, que acabou impichado, acontecia outra greve secreta dos petroleiros.

Na página 147 do meu livro de memórias “Do Golpe ao Planalto – Uma vida de Repórter” (Companhia das Letras, 2006), conto o que aconteceu quando pegamos a estrada num carro do Jornal do Brasil, já falecido, para fazer uma reportagem sobre outro assunto no interior de São Paulo.

“Cruzamos com um terminável comboio militar logo no início da via Anhanguera. Pedi ao motorista Ferreirinha que seguisse o comboio. Pouco depois de Campinas, num entroncamento, o comboio parou, e alguns oficiais do Exército desceram dos carros para confabular. Apresentei-me, ele estranharam a presença de um repórter ali, porque a operação não havia sido divulgada., mas me deram a pista: em instantes, ocupariam a Refinaria de Paulínia, a maior do Brasil, cujos operários estavam em greve. Entramos na refinaria junto com os militares, fizemos a reportagem completa sobre a ocupação e, quando o restante da imprensa descobriu o fato, já estávamos terminando o trabalho”.

Logo a notícia seria divulgada no mundo inteiro, com fotos de Zaca Feitosa, do JB, que estava dormindo no carro quando vimos o comboio, deu uma olhada, e desdenhou:

“Larga pra lá, parece foca. Isso é manobra militar de rotina…”

Na tarde dessa terça-feira, tem uma grande manifestação marcada em frente à sede da Petrobras, no Rio, contra as demissões e a privatização da empresa.

Será que vai virar notícia?

Vida que segue.

 

7 thoughts on “Greve secreta da Petrobras entra no 18º dia e só agora vira notícia

  1. É melhor um acordo do que uma demanda. A greve é um direito da classe trabalhadora que não quer ver seus direitos sendo reduzidos ou dizimados. Quanto ao livro do Kotscho, ainda bem que não está na pratilheira dos mais lidos. Coruja que gaba o toco, pau nela. Bem faz eu que nem livro escrevo. (Assunto é o que não faltaria). Mas, voltando ao tema, por muito tempo a mídia ostentou um enfoque natural de ser mero instrumento de formador de opinião; só que hoje os valores mudaram e este instrumento da comunicação universal precisa ser mais criativo – pra poder acompanhar a evolução do mundo em todos os aspectos da vida política e da vida social.

  2. Humberto Eco……….:
    “Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”, disse o intelectual.

    Segundo Eco, a TV já havia colocado o “idiota da aldeia” em um patamar no qual ele se sentia superior. “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”, acrescentou.

  3. Prezado Kotscho: Mas o que está faltando mais para que “o governo Bolsonaro afunde de uma vez”? As baixarias ditas pelo capitão, contra a jornalista, já não são suficientes para o início de um processo de impeachment e levar esse governo a pique? “Sonha e serás livre de espírito. Luta e serás livre na vida.” (Che Guevara).

  4. Amigo Kotscho
    A greve dos petroleiros deverá ser daqueles movimentos que entram para a história.
    A mídia entra no assunto a reboque. Não dá mais para escamotear. O mesmo aconteceu com a campanha Diretas Já. Não havia como esconder tanta gente nas ruas.
    Agora, a história se repete. Mas o enredo é diferente.
    Com mídia ou sem mídia, os grevistas não se intimidaram e desafiam o regime antidemocrático.
    Nem a autoritária reforma Trabalhista mete-lhes medo.
    Nesse cenário, surgiu figura apocalíptica do ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra, para suspender a greve.
    Hoje, uma desembargadora do TRT-PR suspende as demissões de 400 petroleiros.
    Ninguém sabe qual vai ser a reação do responsável pela Opus Dei, seita ultraconservadora da Igreja Católica.
    Gandra faz mesura com o governo insano do capitão. Quer ser nomeado ministro do STF. É outro Mouro.
    A Petrobrás surgiu após a campanha “O petróleo é nosso”, frase atribuída ao ex-presidente Getúlio Vargas.
    Agora, a sociedade civil e a oposição devem brigar pelo slogan “A Petrobrás é nossa”, frase atribuída aos petroleiros em greve, já que para o capitão-presidente e Guedes, o slogan seria “A Petrobrás não é nossa”.
    A oposição não deve se intrometer no movimento dos petroleiros. Eles sabem o que fazer.
    Nesse carnaval a oportunidade é única para levar às ruas o bloco “A Petrobrás é nossa”, antes que os neofascistas deem rumo diferente para a greve dos petroleiros.
    Ulisses de Souza

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