Pós-democracia no Regime de Exceção: como chegamos a esse ponto

Pós-democracia no Regime de Exceção: como chegamos a esse ponto

Abro espaço neste domingo, sem novidades até o começo da tarde, para reproduzir o belíssimo texto que me foi encaminhado pelo Guilherme Scalzilli, um jovem jornalista que não é da minha geração, mas está entendendo muito bem as origens do regime autoritário instalado no país, por ele chamado “Regime de Exceção”, que levou à “Pós -democracia”.

Sem meias palavras, sem tergiversar, ele vai direto ao ponto do processo de desmanche da democracia que começou no golpe de 2016.  Não é preciso desenhar.

Passo a passo, Scalzilli mostra de forma didática, curto e grosso, como chegamos aos desmandos do desgoverno Bolsonaro. E porque não conseguimos sair deste atoleiro.

Vale a leitura.

Vida que segue.

 

Pós-democracia

Guilherme Scalzilli

 

A cada ataque mais veemente do arbítrio, surgem novos textos opinativos reafirmando a saúde da democracia brasileira. As instituições funcionam, as liberdades sobrevivem, há eleições. Os vaticínios catastróficos da esquerda falharam. O governo de Jair Bolsonaro pode ser medíocre, mas segue os padrões do estado de Direito.

Essas afirmações dependem de significados muito convenientes de “ditadura” e “fascismo”, baseados no Brasil de 1964 ou em referências estrangeiras de um século atrás. Também reduzem a ideia de democracia a um conjunto de ritos e estruturas burocráticas que pouco significam sozinhos. Os despotismos atuais, tão criticados, usam as mesmas desculpas.

As eleições passadas transcorreram nos escombros de um golpe parlamentar. Seu fracasso vergonhoso estigmatizou ainda mais a classe política, fortalecendo a agenda revolucionária do bolsonarismo. Nesse ambiente, o apoio midiático à Lava Jato virou uma campanha maciça a favor da ideologia anticorrupção, com óbvios efeitos persuasivos sobre o eleitorado.

A disputa vencida por Bolsonaro foi tudo, menos democrática. Sua campanha beneficiou-se de um episódio policial suspeito, espalhou ameaças, agrediu oponentes e cometeu crimes eleitorais em escala inédita. Empresas e órgãos públicos engajaram funcionários na militância bolsonarista. Comícios de estudantes foram impedidos, a propaganda petista censurada.

Mas nada supera a conspiração judicial que tirou da disputa o favorito das pesquisas, julgando seu caso em tempo recorde, condenando-o por “crime indeterminado”. Promotores federais armaram conchavos clandestinos com veículos de comunicação e grupos de militantes para incentivar o voto em Bolsonaro. Enquanto perseguiam seus opositores.

A tentativa de criminalização do jornalista que revelou esses escândalos mostra o nível de cidadania vigente. Outro “caso isolado”, de tantos que já parecem habituais: manifestações pacíficas oprimidas, vídeos e textos proibidos, apologias oficiais ao nazismo, execuções e atentados impunes, a inviabilização do trabalho de artistas e acadêmicos.

São as instituições em pleno funcionamento. Os Poderes divergem no máximo entre círculos hipócritas e raivosos, uns dissimulando a perenização da inconstitucionalidade, outros vazios de quaisquer escrúpulos. Legislativo, Judiciário e Executivo se equilibram numa luta por hegemonia, ávidos para imporem suas respectivas agendas antipopulares e despóticas.

Esse “normal” é o fato consumado, que os negacionistas tratam como a ameaça perpétua de si mesmo. Os sintomas bastam para conhecermos tanto a doença quanto o antídoto democrático que deveria preveni-la. Um Bolsonaro não chega ao Planalto sem que algo tenha se perdido no trajeto, algo cuja ausência nenhuma fantasia resistente conseguirá suprir.

Revela-se aí o custo da aventura irresponsável que unificou a direita brasileira pela destruição sistemática do lulismo. Não importa a lisura do objetivo. Os métodos foram (ou precisaram ser) ilícitos, e assim passaram a definir a natureza do resultado. O Regime de Exceção é indissociável da tirania de milicianos que ele ajudou a materializar.

A ausência de rupturas drásticas significa apenas que elas se tornaram desnecessárias. Uma imprensa que naturaliza a tramoia eleitoral da Lava Jato não irrita os censores. Um STF que ignora a suspeição de Sérgio Moro dispensa baionetas. As polícias garantem o silêncio das ruas, enquanto o império da pós-mentira performa sua liberdade de hospício.

O fascismo jamais destruirá as fontes institucionais de sua obscena legitimação.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2020/02/pos-democracia.html

23 thoughts on “Pós-democracia no Regime de Exceção: como chegamos a esse ponto

  1. Meu caro,
    Até tentei ler teu texto, mas após 3 ou 4 parágrafos ví que não se trata de reportagem, artigo. É apenas um devaneio. Uma eleição ganha com mais de 50 milhões de votos por um candidato que fazia lives de um celular é antidemocrática ? De onde você retira essa idéia absurda ?
    Quem lê este artigo com os pés no chão tem a impressão que você acabou de desembarcar no Brasil, oriundo da URSS e foi ouvir as novidades diretamente de Jean Willys e Rui Falcão.
    O seu texto é uma mistura de palavras rebuscadas que tentam a todo modo criminalizar o impossível, exaltar os canalhas e esquerdistas que sugaram a nação.
    Você está tão defasado e desatento que não nota que sua frase que fala da “Ausência de rupturas” contradiz o seu próprio texto, só pra começar.
    A verdadeira ruptura quem iniciou foi o Lulopetismo e tudo o que vimos acontecer. Quem não foi prejudicado de maneira profunda e cruel nos últimos 16 anos ou não viveu no Brasil, ou está morto, ou é corrupto/conivente de alguma forma.
    Lamento ver uma mente tão brilhante completamente cega pelo socialismo / comunismo alardeando um tal fascismo que na verdade, é a principal arma na mão dos próprios políticos que você defende.
    Saia da caixinha. Inteligência não é nada sem sabedoria.

    1. Carlos, o artigo não é meu. Apenas reproduzi o texto do meu amigo Guilherme Scalzilli, que achei muito bom, equilibrado e preciso.
      Leia de novo com atenção. Poderia ser meu, mas não é. Ou você é um robô que ainda não aprendeu a ler? Triste.

      1. (No modo ‘tolerância Zéro de Abreu’, Mestre.)
        O tapado ou cínico diz democrático “um candidato que fazia lives de um celular”, abduzindo a rede virtual com robôs a espalharem fake-news e a rede midiática que o protegia para não participar de qualquer debate e/ou entrevistas ‘fora do controle’.
        Que “o seu texto é uma mistura de palavras rebuscadas que tentam a todo modo criminalizar o impossível”, de fato impossível, sabendo-se justiça e monopólio da mídia, associados à serviço desse, para criminalizar o PT e Lula, via lawfare com delação premiada sem provas, à base de tortura prisional.
        ‘Antolhos’, conhecido também por ‘tapa’, daí o termo ‘tapado’ aplicado à paralelepipédica rigidez desse tempo de desinformação, mediocridade e xucrice, talvez esclareça a inexplicável dificuldade em intelecção (“A ausência de rupturas drásticas significa apenas que elas se tornaram desnecessárias.”) dessa convicta ‘gente de bem’ que a galope zurram certezas sem fatos, em rumo reto à desinformação absoluta acima de tudo e o convicto besteirol atropelante pra cima de todos, como no caso em questão.
        “Saia da caixinha”, recomenda.
        Apesar ‘de chorar’, tamanha ignorância ou cinismo, só mesmo rindo, independente do que move o, tapado ou ‘cínico’, da hora!

  2. Kotscho, magistral artigo do Guilherme.
    Ele acertou na veia.
    Também acertou na mosca e em outros insetos.
    Sim, parece um fato consumado a atual conjuntura.
    Sobre os casos recentes de intolerância, lembro que nem na Itália fascista e na Alemanha nazista houve fatos tão abomináveis.
    Não vejo saída.
    Obscurantismo e alienação “bombam” no País.
    Se não houver união dos democratas, esses energúmenos não deixarão o poder tão cedo.
    “A hora é grave”, diria Ulisses Guimarães.
    Sem querer fazer pilhéria, acrescento que os minutos e os segundos também estão graves.

  3. Não estou entendendo.Num Regime de Exceção- É permitido todo tipo de crítica,justa e INJUSTA,desrespeito as autoridades legalmente constituídas.BANDIDOS denominando ministro da Justiça de “capanga” de milicianos etc,.No tempo da ditadura isso não ocorria.

    1. Ocorre que esse Min da justiça não é apenas capanga de milicianos.
      E tambem officeboy do DOJ, premiado pelo beneficiario da prisão do opositor , capitao do mato, contato de midia , orientador assiduo das outras partes do processo, destruidor de empregos alegremente absorvidos pelas empresas beneficiarias sediadas no Norte,
      especialista em fraudes processuais, e cego e mudo para localizar o crime organizado centrado na zona oeste do RJ mas ja se espalhando em metástase pelo pais.
      Portanto o deputado ficou aquem do que lhe deveria ter dito.
      Mas voce tem razao: ´Porque o outro da justiça, na ditadura, o Armando Falcao foi deixado na poeira

  4. Concordo em gênero, número e grau com comentarista ‘A que ponto chegamos’-, parece que o pior cego é aquele que vê, e não quer enxergar. É. Se não aprender pelo amor – vai aprender pela dor. A partir do momento que você divulga uma ideia, /a sua ideia se torna pública/, ademais, nos livros e nos jornais nem tudo que se escreve é verdadeiro; pois ninguém é dono absoluto da verdade. E esse pessoal da Esquerda nunca gostam de ser questionados.

  5. “Outra geração”? É uma possível explicação. Talvez o Guilherme seja muito jovem e esteja conhecendo o Brasil através do “documentário” da moça cuja família parou de faturar daquele jeito ou de “reportagens” como a das mensagens que nada de errado mostravam e podiam ser totalmente falsas. Sem saber que milhões de brasileiros exigiram nas ruas o fim do governo apodrecido, ele acredita que houve um golpe nas sombras do palácio. Sem imaginar que bilhões foram desviados apenas para ela (pesquise por “Palocci”, Guilherme), ele troca Davi por Golias na eleição. E assim é no restante.

    Mas o ponto alto é a censura. Sem saber quem quis fazer “controle social da mídia” inspirado em ditaduras sexagenárias e seus filhotes bolivarianos, o autor atribui essas más intenções ao atual governo. E como não encontra nenhum exemplo de sua fantasia, inventa que os censores só não aparecem porque a imprensa faz parte do complô (inclusive a Folha/UOl, imagino) e não precisa ser censurada. É a lógica da teoria da conspiração: a falta de provas é a prova de que tudo está dominado foi escondido.

    A realidade é que o pessoal perdeu o poder e agora é diferente de quando nunca o haviam exercido amplamente. Não podem mais dizer que são honestos e éticos. Ninguém acredita que saberão lidar com a economia e muitos os consideram nada menos que depravados (não se limite aos pastores, pesquise também por “Sikêra Jr”, Guilherme). Para piorar, perderam o controle da narrativa, que hoje está nas redes que não dominam.

    Resta o discurso interno de superioridade, a imaginária luta gloriosa contra o inexistente “fascismo”, a repetição do mesmo aborrecido discurso que empolgará as massas num dia que nunca chega. Está virando um mundo à parte, um troço meio esquizofrênico. Mas cada um é livre para escolher o seu caminho.

  6. Depois de escrever com ternura sobre Michel Temer e ser criticado até pelos cumpanheiros. Nada como um texto logo para tentar limpar a barra. Lendo e ouvindo os esquerdopatas tenho a certeza do desespero que toma conta. As eleições se aproximando e não conseguem vislumbrar outro resultado que não seja uma nova derrocada da esquerda. Até comemorar o fim da carteira de estudante gratuita comemoram. Afinal perder mais essa boquinha seria a morte para esquerda, mesmo que seja as custas do minguado dinheiro dos estudantes. A abstinência dos nossos impostos torna suas vidas cada vez mais difíceis. Todas as tentativas de atingir o Mito dão em água. Tentam fazer notícias com o Papa e os memes são hilários com essa visita. Deve ter recebido algumas. 1 ano se passou sem o Fantástico ter uma notícia bombástica de corrupção do Mito. E teremos pela primeira vez na história republicana um presidente honesto em Brasília. Isso vem corroendo a alma da esquerda. Habemus censura??? Vida que segue

  7. Tenho ocupado esse espaço há quase dois meses. Todo texto escrito por Ricardo Kotscho desperta interesse neste jornalista, que apesar jurássico continua no aprendizado. Sigo os melhores. A indignação do Kotscho com os fatos que ocorrem é a mesma minha.
    Por isso, não me sinto à vontade ao lado de pessoas que resolvem criticar um texto, sem conseguir discernir se é reportagem ou artigo, e além do mais sob um pseudônimo ridículo: “A que ponto chegamos”.
    Meu amigo Kotscho deve conhecê-lo, pois citou o nome Carlos ao responder a bravata desse desconhecido.
    Afora esse velho e prolixo “nariz de cera”, afirmo que concordo com a contextualização da situação nacional que o jornalista Guilherme Scalzilli deu para a situação nacional nos últimos quase quatro anos.
    Como bem acentuou, os poderes instituídos estão inertes. As leis são laboratórios de jurisprudências que favorecem os poderosos. O congresso deveria retirar os gabinetes individuais a fim de facilitar as reuniões diárias de bancadas, como da bala, ruralistas, evangélica, e por aí afora.
    Resta o quarto poder – a imprensa. Esta sim deve ser analisada com mais rigor e tentar entender essa maluca implantação de um ditado popular-jornalístico-ético: “Sigo a ética e opinião de quem me paga o salário”.
    Afinal de contas, foram 59 milhões de pessoas, que acreditaram na imprensa e seus fakes e elegeram um boçal asselvajado como presidente da República.

    Ulisses de Souza

  8. Belíssimo e inteligente texto. Embora só fale do tempo “durante” o golpe contra Dilma ou a eleição (fraudada). Na minha opinião tão importante quanto a discussão sobre essas farsas, é entender os motivos que levaram o Brasil se jogar nesse buraco.
    Seriam os negros nas faculdades? pobres viajando de avião? assalariados com carro 0 Km?
    Na minha opinião, esses são os principais fatores.
    Triste também, que esse espaço, antes tão bem frequentado, por gente pensante, venha recebendo tantos comentários de pessoas retrógradas, apoiadores do Bozo e da ditadura, que tentam tapar o sol com a peneira. Só falta algum desses “cidadãos de bem” dizer que a Terra é plana….

  9. O autor tem talento para escrever, muito. Mas ignora os escândalos escancarados vividos no Brasil em que Lula entregou a chave do cofre da nação a empreiteiros sem escrúpulo.

  10. Prezado Kotscho: Acho que chegamos a esse ponto porque aqui o problema não é o corona vírus. É o canalha vírus que infectou 57 milhões de pessoas que colocaram o anticristo jabuticaba e seus cupinchas no poder. Em curto prazo as eleições municipais que se avizinham podem dar uma correção nessa rota da infecção política. “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem.” (Bertolt Brecht). Muito bom mesmo esse artigo do Guilherme Scalzilli.

  11. Se nos Estados Unidos a esquerda pode ganhar pela primeira vez, desde que Sanders ou Warren façam da vitória uma arremetida pela união dos democratas contra Trump, no nosso país, diferentemente, a esquerda já cumpriu um papel histórico relevante: no campo minado da política tradicional, lutou com êxito contra miséria e preconceito, sem nunca descarrilar do Estado de Direito.
    Seu papel agora não é conquistar a classe média e se mostrar palatável para os evangélicos; ao contrário, bem ao contrário, sua tarefa mais elevada e pertinente é entrar numa “disputa negativa”: na luta paradoxal por não chegar ao poder tão cedo, uma frente de esquerda deve dizer sem piedade ao eleitor da extrema-direita quem ele próprio se tornou ao bancar quem sempre foi o que é, o impagável Bolsonaro e suas metáforas perversas do furo jornalístico. Sexo como furo: psiquiatra! Reportagem como insinuação, falta-me a palavra!
    Curioso: noves fora, volta a existir um paralelo com os EUA: lá, a fratura exposta de Trump, Rudolph Giuliani e Barr permite ao democrata, antes minoritário no meio oeste, interpelar criticamente o oscilante voto antiestablishment, pedindo que ele assuma a burrada contra a nação de 2016 e não incorra novamente em erro semelhante. Aqui, uma esquerda que tirou no passado 36 milhões da miséria, e assim NÃO precisa ser ELA a acertar de novo neste campo, pode cobrar sem dó responsabilidade histórica de grande parte dos 57 milhões que votaram “útil” no fascismo para se verem livres do PT. Só pode cumprir este papel quem sabe ser o enorme ódio alheio dirigido contra si um sintoma patológico anti-moderno, suscitado pelo próprio êxito anterior das esquerdas (alta distribuição com democracia intacta); somente possível a repetição deste sucesso através de uma deliberada ausência programática. Ou seja, viável por outras mãos, seguramente não pelo caminho atual da barbárie.

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