A solidão do blogueiro em meio à guerra contra o próprio país

A solidão do blogueiro em meio à guerra contra o próprio país

“Japonês é uma raça superior e nós somos inferiores” (Jair Bolsonaro, presidente da República do Brasil).

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Escrever todo dia não é fácil, mas ficar sem escrever é muito pior.

Para mim, o dia só começa quando termino de atualizar este blog, como faço há 11 anos e meio, de domingo a domingo.

Assunto não falta, desde a posse do capitão enlouquecido, que resolveu declarar guerra ao seu próprio país, um fato inédito na história da humanidade.

Difícil é escolher uma entre tantas barbaridades ditas e consumadas pelo bolsonarismo em marcha rumo à destruição do país.

Como trabalho sozinho em casa, não tenho a quem pedir ajuda, e nem adiantaria nada. Só tornaria mais difícil ainda a escolha do assunto, já que cada um me daria várias sugestões, tamanho é o repertório de sandices proferidas todos os dias pelos donos do poder.

Hitler e Mussolini, seus êmulos, declararam guerra ao mundo e tinham pelo menos um ponto em comum: eram nacionalistas, amavam seus povos acima de tudo.

Não passa um dia sem sermos assombrados por decisões tomadas pelo governo, nenhuma delas a favor do Brasil.

Toda guerra tem que ter pelo menos dois lados, pois não?, já nos ensinava o comediante português Raul Solnado (ver no Google) no século passado.

Mas aqui tem um lado só: é a guerra do governo contra o resto, ou seja, 210 milhões de habitantes, incluídos aí também os devotos do governo, que pagarão a conta, com exceção de banqueiros, militares, magistrados, milícias, bispos, pastores e empresários da Fiesp de Paulo Skaf, uma casta minúscula que se deu bem com o chefe do Posto Ipiranga.

O resto só atrapalha. Se não fossem o povo e a imprensa não vendida, que só atrapalham, o Brasil já seria o Japão imaginado por Bolsonaro e Alexandre Garcia, sem partidos de oposição, sem sindicatos, sem índios, sem estudantes e professores, sem livros, sem negros, sem cultura e sem mulheres independentes.

O país seria bem menor, é verdade. Talvez do tamanho do Japão, para que o capitão e seus generais de pijama pudessem implantar aqui uma ditadura tropical como nem Gabriel Garcia Márquez poderia imaginar em seus delírios.

Uma vez derrotado o povo brasileiro, os generais do capitão já preparam vôos mais altos e procuram um inimigo externo.

Esta semana, no relatório “Cenários de Defesa 2040” preparado pela Escola Superior de Guerra, a França é a maior ameaça externa do Brasil nos próximos 20 anos.

A Embaixada da França em Brasília achou graça:

“Forças Armadas de todos os países realizam frequentemente esse tipo de exercício de análise de cenários. Entretanto, nós saudamos a imaginação sem limites dos autores desse relatório”.

Daqui a 20 anos, os autores deste relatório provavelmente já deverão estar todos mortos. Mas, se o Brasil sobreviver até lá, o que pode acontecer?

Os sucessores de Bolsonaro declararão guerra à França para defender a Amazônia que nem existirá mais?

E se a gente ganhar a guerra? Vamos fazer o que com a pobre França? Trocar pelo Japão?

É tudo muito louco, mas é tudo real, não é ficção. Melhor nem pensar nessas coisas.

Tem dias em que a solidão do blogueiro dói mais, quando vê que essas bobagens ainda são levadas a sério, sem ninguém tomar uma providência para abrir logo as portas do hospício, trancar e jogar a chave fora.

Vida que segue.

 

14 thoughts on “A solidão do blogueiro em meio à guerra contra o próprio país

  1. Pois é, num dos últimos artigos você já diz não entender como as pessoas não se revoltam contra esse governo fascista e nazista que quer censurar a imprensa, destruir a Amazônia e matar gays, negros, índios e o mundo.

    Se fosse assim seria realmente inexplicável. Mas as pessoas vivem no mundo real onde só quem quis educar seus filhos por elas, censurar alguma coisa e governar de modo autoritário foi aquele pessoal subordinado a ditaduras de 60 anos, que também roubou o país como ninguém e o devolveu quebrado. Consertar isso é difícil e problemas (e novos erros) sempre existirão. Mas é um alívio tão grande saber que aquela gente está sendo cada vez mais afastada do poder que ninguém reclama de nada.

    Outro ponto que você deve considerar é que aquela parcela da imprensa que vive tentando deturpar coisas como o elogio aos japoneses já não tem o mesmo poder. Hoje qualquer um lança um vídeo em resposta e envia-o para o grupo de zap do futebol, cujos membros o reenviam para o grupo do condomínio ou da família e assim por diante.

    Se lhe interessar, dou o exemplo de um que recebi hoje sobre um tema similar: https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=P5Ys_JxMMPc&feature=emb_logo

    1. Então fica assim, a corrupção acabou depois que a gangue do justiceiro fez acordo pra receber 3 bi e meio da Odebrecht, e por pouco não levou outro tanto da Petrobras, a criminalidade diminuiu só depois que a família de milicianos assumiu a presidência. Como cidadão de bem, quer só educar seus filhos longe da corrupção e bandidagem, continue, aponte seu dedo sempre para os outros, jamais para os seus.

  2. O sr. Alexandre Garcia, digno representante do vira-latismo nelson-rodriguiano e defensor da ideia de que, com o povo japonês, o Brasil seria uma potência mundial em dez anos, deveria saber de uma frase proferida pelo então secretário de Estado H. Kissinger lá pelos anos 70 do século passado que ninguém deu a atenção devida, mas eu me lembro:”Os Estados Unidos JAMAIS permitirão o surgimento de um novo Japão, abaixo da linha do equador”. Com todo respeito, estaria pensando no Paraguai, na Bolívia, no Peru? Ou seria a Colômbia? Que tal o Equador?
    Os acontecimentos no Brasil nos últimos 5-6 anos confirmam as palavras de Mr. Kissinger. Ou não?

  3. Pois é, Kotscho, esses bichos hostilizam logo a França que sempre foi amiga do Brasil e valorizou a nossa cultura.
    Franceses se encantaram com a bossa nova e deram o título de rei do futebol ao Pelé.
    Parece que o Brasil não tem mesmo sorte na política, como dizia o Ruy Mesquita.
    Também menciono De Gaulle: “O Brasil não é um país sério”.
    Sobre a Escola Superior de Guerra, sou mais a Escola Superior de Paz.
    Chega de escola para formar reacionários.
    Bom lembrar: a França tem bomba atômica.
    O Brasil não aguenta meia hora de guerra com a França.
    Melhor botar a cauda entre as pernas e sair à francesa.

  4. Prezado Kotscho: Se “é a guerra do governo contra o resto”, esse resto, que deve totalizar 70% da população brasileira, deveria se mobilizar e pressionar o Congresso para provocar o impedimento (e o prosseguimento) desse governo. “Expor aos oprimidos a verdade da situação é abrir-lhes o caminho da revolução.” (Leon Trotsky).

  5. Esse negócio de “raça superior”, “raça inferior”, sei não. Já ouvi isso em algum ponto da História e parece que não deu certo. O psicopata do Planalto, pelo jeito, nada sabe a respeito, mas fica replicando trechos de discursos de um grupo de degenerados mentais proferidos há algumas décadas na Alemanha. É o que eu digo: só falta o bigodinho.

  6. É por este motivo: a França tem o remédio, todos contra a barbárie. Os democratas americanos seguirão a receita: em 2020, todos, mas todos mesmo, contra o Trump-Foxismo, sem erros e vacilos da eleição passada. Aqui, a tarefa é difícil: com todas divergências internas, e elas são muitas, trata-se de resgatar das ruínas uma civilização pessedebista-petista, fernandista-lulista. Rigorzite escolástica e ressentimentos acumulados do passado não vão nos ajudar. Precisamos de uma vitória eleitoral através de um grande, enorme, frente. Só.
    Há muitas semelhanças com os EUA, volto a elas depois, vai que tenho sorte de alguém me ler.
    Do ponto de vista das esquerdas, porém, há uma diferença essencial: lá, elas podem chegar ao poder pela primeira vez; aqui, cumpriram já um relevante papel histórico. No quadro recorrente da forma de vida da política tradicional, as esquerdas no poder alteraram para melhor a fisionomia do país mais desigual do mundo, com políticas públicas exitosas de inclusão ampla, com entrelaçamento de direitos individuais e coletivos, com diplomacia altaneira, sem nunca ameaçar o moderno estado democrático de Direito.
    Erros? Muitos. Mas era um Brasil respeitado no mundo e com estima aqui dentro. Hoje? Somos a seleção do 7×1 contra a Alemanha. Irreconhecível.
    Vencer a barbárie: a tarefa de cada uma.

  7. Kotscho, o Brasil está sendo governado por um parasita.
    Oito mandatos como deputado federal, no balanço do ócio, trocando de partido a cada mandato, só poderia ser entendido como incontida aptidão e prática parasitária.
    Não seria?

  8. Adriano da nóbrega, ex PM miliciano e bolsonarissimo, e suspeito no. 1 foi morto em ‘tiroteio’ hoje.
    Pensou ainda existir uma omertá entre eles. Parece que não deixou nada registrado em segredo para revelação futura. Sabe nada, inocente.
    Será que o Queiroz vai ser tão bobo assim?

  9. Amigo Kotscho

    Os militares brasileiros elegem a França como o maior perigo externo. Agora, para os próximos 20 anos.
    Essa definição foi concebida na Escola Superior de Guerra, que provavelmente trabalha com conceitos históricos para encontrar um inimigo.
    Para o leigo, é como procurar dois chifres na cabeça de um cavalo, porque um já inventaram: o unicórnio.
    O certo é que há mais de 200 anos, o Brasil colônia recebeu, de mão beijada, a corte inglesa, com tudo que tem direito: reis e rainhas, ministros, deputados, senadores, e empresários. A Justiça, em todas as instâncias, veio junto com o séquito.
    O motivo da fuga foi o medo imposto pelo imperador francês, Napoleão Bonaparte, que ameaçava invadir Portugal.
    Não se sabe o efeito dessa ousadia francesa no orgulho dos militares brasileiros, que no final do século 19 proclamaram a república.
    Mas, foi no século 20, mais precisamente em 1963, que atribuíram uma frase ao presidente francês, general De Gaulle, que teria dito que “O Brasil não é um país sério”.
    A frase foi assumida por um embaixador brasileiro que trabalhou na França. Foi desmentida pelo ex-presidente francês, Jacques Chirac, em palestra no Brasil.
    Mas, mesmo assim, um porta-voz civil dos golpistas de 1964, justificou que o governo militar seria “a transformação do Brasil em país sério”.
    Vai daí que aparece um capitão-presidente que arruma uma rusga com a França para justificar o que seria tramado na Escola Superior de Guerra. Apronta uma grosseria sobre a mulher do atual presidente da França, Emmanuel Macron.
    Se daqui a 40 anos essa guerra sair, nossos descendentes ficarão confusos sobre as razões que motivaram a ida para a frente de batalha.
    Louco? Eu?
    Quero mais é tomar um chope em um elegante bar da Champs Élysées.

    Ulisses de Souza

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