Resistência: MST faz vigília contra despejos de 800 famílias no Paraná

Resistência: MST faz vigília contra despejos de 800 famílias no Paraná

De um lado, o governo Bolsonaro passou todo o ano de 2019 sem promover nenhum novo assentamento na reforma agrária, e já avisou que não está interessado nisso.

De outro, as polícias dos governos estaduais promovem despejos das famílias que já estão acampadas à espera de um lote, muitas vezes com o uso de violência.

Este lado do Brasil rural desapareceu da mídia, dedicada agora apenas à cobertura do agronegócio. Não é mais notícia.

Só no Paraná, são 7 mil famílias vivendo nos acampamentos.

Em Cascavel, cidade do oeste do Paraná que abrigou o 1º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 1984, 800 famílias ameaçadas de despejo montaram desde o dia 28 de dezembro a “Vigília da Resistência Camponesa: por Terra, Vida e Dignidade”.

Todos os dias, das 10 às 15 horas, os sem terra de três acampamentos vão para as margens da BR-277, na altura do quilômetro 557, pedir apoio na sua luta para permanecer na terra.

Há tempos afastado das ruas e dos campos por dificuldades físicas, só fiquei sabendo do que estava acontecendo no Paraná quando fui ver o jogo entre os amigos de Lula e Chico Buarque, na festa de fim de ano do MST, em Guararema, a 80 quilômetros de São Paulo.

Lá reencontrei o amigo Roberto Baggio, coordenador estadual do MST-PR, que veio me pedir para gravar um depoimento sobre esta luta histórica dos sem terra pela implantação da reforma agrária.

Ao final, pedi a ele um relato sobre a vigília e a situação dos sem-terra acampados, cada vez mais ameaçados pelo governador do Paraná, Ratinho Junior, aliado de Bolsonaro, único jeito de saber o que se passa fora do eixo global São Paulo-Brasília-Rio, como se o resto do país não existisse.

Nesta terça-feira, recebi as informações da assessora de imprensa Ednubia Ghisi, que transcrevo abaixo.

***

“A  mobilização já chegou a reunir mais de 300 pessoas num único dia, com apoio de parlamentares, lideranças religiosas e figuras nacionais, como Frei Betto e o cantor pernambucano Otto.

A ordem de reintegração de posse chegou no dia 15 de dezembro e trouxe angústia ao período de festas de Natal e Ano Novo dos agricultores e agricultoras do MST. Eles vivem nas comunidades Resistência Camponesa, Dorcelina Folador e 1º de Agosto, criadas há cerca de 20 anos.

Ao todo são 212 famílias ameaçadas _ cerca de 800 pessoas, sendo pelo menos 250 crianças e 80 idosos.

Moradias simples, igrejas, campos de futebol, pequenos armazéns, açudes, crianças brincando livremente, poucas cercas e muita produção de alimentos são características comuns entre as três áreas.

Com produção diversificada, parte das famílias já conquistou nota de produtor rural e entrega alimentos ao Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE).

Desde o início das ocupações da região, em 1999, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (hoje completamente desestruturado, entregue à bancada ruralista) manifestou interesse em adquirir a área e abriu negociações com os proprietários do latifúndio das fazendas Cajati, pertencente à família Festugato.

Ratinho Júnior autorizou nove despejos entre maio e dezembro de 2019, durante seu primeiro ano de governo. Ao todo, cerca de 500 famílias já tiveram suas casas e produções destruídas, sem qualquer abertura para diálogo por parte da forças policiais.

Ao longo de todo o ano, as comunidades sofrem com sobrevoos de aeronaves e drones, uso de balas de borracha e bombas de efeito moral, que causam temor, especialmente às crianças.

A falta de diálogo, a violência crescente e os despejos ilegais têm causado inquietação nas 80 ocupações do Paraná, todas elas em áreas declaradas improdutivas, confiscadas pelo tráfico de drogas, denunciadas por trabalho escravo ou de grandes sonegadores de impostos”.

***

Este é um breve resumo da ópera da grande tragédia brasileira, que silenciosa e anonimamente se alastra pelo Brasil rural, enquanto ficamos aqui discutindo as bolsonarices de cada dia.

Agradeço a Baggio e a Ednubia por poder informar aos leitores do Balaio que, apesar de todas as ameaças e truculências, os camponeses sem-terra resistem, 40 anos após o surgimento do MST, lá em Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul _   uma luta que acompanho desde o início com reportagens publicadas em diferentes veículos.

Vida que segue.

 

22 thoughts on “Resistência: MST faz vigília contra despejos de 800 famílias no Paraná

  1. Desde 1808 quando eram publicados os primeiros documentos oficiais do governo, o poder real já mantinha o controle de cada letra tentando controlar a liberdade de imprensa. Depois veio o plano cruzado do Sarney que sepultou de vez a esperança de construção da Nova República. De lá pra cá, realmente, pouca coisa mudou. Em linhas gerais, promessa ou demagogia? O maior desafio do Lula e o seu PT é: “amar o passado, melhorar o presente e projetar um futuro promissor”. Mas só ficou no discurso, legado de ânsia pelo poder. Vivemos a mesma situação de ilusão democrática progressista de nossos antepassados, já que as realidades sociais vazias praticáveis nunca são postas à prova diante de seus conterrâneos, / se é que já se faz jus à realizar reforma geral no executivo, legislativo e judiciário/. O sucesso dependerá da máquina administrativa de estar em sintonia com os acontecimentos sócio-políticos e econômicos da globalização que vai depender, sobretudo, da maneira como enfrentar as questões colocadas por sua época, indo além ou ficando aquém delas.

      1. Coitado, nunca entende nada do que o Tião escreve. – Vai até pedir “ajuda” aos universitários: Maurício Teixeira, ou mesmo o Zé Antônio, serve.

  2. A reforma agrária no Brasil sempre foi fonte de exploração por todos os lados. Por um lado camponeses que estão aptos a ter seu pedaço de terra são explorados por aproveitadores incautos que sobrevivem da desgraça alheia. De outro lado, vem partidos politicos e grupos interessados na desestabilização para tirar proveito, incluido ai o famoso MST.
    A tendencia era de que com a chegada dos partidos de esquerda ao poder, tudo se resolvesse para os sem terra, mas não fpoi isto que aconteceu. No primeiro mandato de Lula, foram assentados 381.419 familias, mas no segundo mandato perdeu o folego e assentou 232,669 familias, menos que o segundo mandato de FHC, que assentou 252.710 familias. O desatre todo veio a seguir com Dilma, que no seu primeiro mandato assentou miseros 107.354 familias . Enquanto FHC distribuiu 21.075 hectares, Lula 48.291 hc, Dilma somente 2.956 hectares.
    Preferiu-se tratar os sem terra como massa de manobra, acampados na beira da estrada à espera de migalhas que eram distribuidas em toneladas à seus dirigentes . Fartaram-se de receber recursos através de ONGs disfarçadas.
    Com Bolsonaro no poder, cortou-se as mordomias (não ao sem terras) às lideranças destas ONGs e pouco valor se deu aos assentamentos.
    Creio que é a chegada do momento de separar o joio do trigo e chamar pessoas verdadeiramente vocacionadas e fazer a legitima reforma agrária neste pais.

    1. José Antonio, você escreve como se fosse um profundo conhecedor do assunto.
      Por acaso você já esteve alguma vez num assentamento dos sem terra promovido pela reforma agrária?
      Já conversou com famílias acampadas à beira das estradas? Quem vai chamar “pessoas verdadeiramente vocacionadas”? Esse governo miliciano?

      1. É dureza, Ricardo. Haja paciência. Em qual dos seus livros você conta a história de sua família na Europa antes de virem para o Brasil? Olhei na lista e pelos títulos, não cheguei a nenhuma conclusão.

      2. De um pedaço de terra à qualquer um destes lideres e verás se ele quer mesmo ser agricultor. Muito perto de minha cidade, na região de Araraquara tem dois enormes assentamentos que foram feito nas terras do governo do estado. Estamos falando da região central do estado mais rico da Federação, em assentamento com toda infra-estrutura, acompanhado pela CAIC , com financiamentos e tudo.. 80% venderam os lotes (mesmo não podendo vender) , venderam os equipamentos , desmancharam e venderam os barracões e nada produziram, pois não tinham qualquer vocação com a terra. Para completar o problema, houve invasão de área de reserva ambiental e todos foram despejados à força, sob protesto das lideranças do PT.
        Infelizmente, meu caro, muitos destes coitados são massas de manobras de politicos e lideranças incautas que sobrevivem da desgraça alheia

        1. Caro José Antônio percebeu o silêncio do Jornalista??? Nos textos que escreveu acima, além do Tião Aranha a tática é desqualifica-los não combater o texto com argumentos. Nunca é debater. Quando o Jornalista fica enfurecido lhe questionando se já foi a algum assentamento tem como objetivo menosprezar suas idéias. Aí com uma luva de pelica lhe dá um exemplo que com certeza desconsertou o intectual Jornalista. Os pobres coitados que integram o MST são apenas uma massa de manobra dos seus dirigentes e políticos da esquerda. Em treze anos tiveram todas as possibilidades de fazer a tão falada reforma agrária. Nunca foi o objetivo dessa gente. Eles valem muito mais acampados e andando pelas estradas para serem usados nos programas políticos por partidos inescrupulosos e seguidores da ideologia que cultuam a vitimização. Habemus censura? Vida que segue

        2. Quais os nomes dos dois assentamentos citados, seriam ‘Monte Alegre’ e ‘Bela Vista do Chibarro’?
          Qual(is) a(s) entidade(s) responsável(is) pelos mesmos e em que ano foram implantados?
          A Invasão de área de reserva ambiental citada, diz respeito ao acampamento ‘Novo Horizonte’, no assentamento Monte Alegre?
          O que o MST tem a ver diretamente com esses assentamentos e, sendo o caso, com o acampamento ‘Novo Horizonte’, despejado de área tida como reserva ambiental pelo Ipesp?

          1. Não, queria respostas às perguntas, para poder contestá-lo, se caso, com informação completa e não meia informação, como no comentário em post sobre o MST.
            Se tivesse respondido e confirmado os nomes dos assentamentos, qualquer leigo consultaria o Tio Gugol e teria informações para perceber que equivocou-se no exemplo dado, quer no tempo, no espaço, no modelo e nos responsáveis, para contraditar artigo sobre o trabalho e a missão do MST, ameaçadas, em um país entre as dez maiores economias e as dez maiores desigualdades, do mundo.
            Problema, José Antonio, não é a exceção do assentamento que naufraga, mas a regra da racionalidade, da lógica e da sensibilidade, que não emergem, graças a poita da xucra classe dominante.

  3. Acredito que o governo precisa construir escolas técnicas agricolas para formar agricultores especializados em agricultura orgânica e. No final do curso premiar os melhores alunos com uma propriedade de 30 Hectares para ele levar a familia para produzir e com uma parcela da produção pagar a propriedade. Seria uma reforma agraria inteligente, sem custo para os contribuintes pagar.

  4. Prezado Kotscho: “Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e viver com ousadia. Pois o triunfo pertence a quem se atreve e a vida é muito bela para ser insignificante.” (Charlie Chaplin).

  5. Amigo Kotscho,
    A luta pela terra sumiu do noticiário após a posse do capitão.
    Há muita gente acampada em condições miseráveis nos confins desse brasilzão. Há muitas ocupações que aguardavam a reforma agrária.
    Governos como o do Paraná se aproveitam do momento e iniciam, de forma truculenta, o despejo de famílias.
    Acompanho pelo Face do amigo e jornalista José Machio, de Londrina-PR, as denúncias sobre essas desocupações.
    O “Roedor Filho” (como Maschio se refere ao governador do Paraná) deve continuar com os despejos no campo.
    José Maschio, conhecido como “Ganchão”, representa o Sindicato dos Jornalistas no evento Feirão da Resistência e Reforma Agrária, que se realiza mensalmente em Londrina.
    O evento supre a necessidade que as famílias assentadas e acampadas na região norte do Paraná têm para vender o que produzem. O Feirão conta com o apoio do MST e de entidades ligadas à cultura.
    • José Maschio é o jornalista que investigou e divulgou a origem do fato conhecido como “Escândalo do Banestado”, que completou 20 anos em 2019. Ele conserva até hoje a listagem do Banco Central (1.283 páginas) com os nomes das empresas e pessoas físicas que fizeram remessas irregulares ao exterior. O juiz desse caso foi Sérgio Moro. Essa trambicagem encoberta deu origem à “insuspeita” Lava Jato.

    Ulisses de Souza

    1. Caro Ulisses, se você tiver contato com o grande repórter “Ganchão”, esse tipo em extinção, pede pra ele me mandar um relato sobre esse Feirão de Londrina pra colocar no blog.
      Como não posso mais viajar, tenho que contar com os amigos… Se ele quiser publicar alguma coisa nova sobre o Banestado, pode mandar também. O blog está à disposição. Forte abraço

  6. Apesar de ser ignorado por governos, apesar de ser invisível por boa (?) parta da sociedade, principalmente a elitezinha brasileira, apesar dos bolsonaros e de gente da sua laia, o MST é um exemplo de resistência e luta. Sinto-me envergonhado por arrotar cidadania e agir, nas atuais circunstância políticas do país ,como os congressistas ditos de esquerda: passíveis, subservientes, silenciosos, perdidos, anêmicos de reação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *