Nada de novo no front: e como haveria de ser diferente?

Nada de novo no front: e como haveria de ser diferente?

Abro pela primeira vez o computador em 2020, depois de passar o primeiro dia no hospital fazendo exames, que confirmaram mais costelas fraturadas, uma delas pela segunda vez.

No meu caso, nenhuma novidade. Acho que já quebrei o esqueleto inteiro ao longo da vida, mas ainda consigo escrever.

Aliás, não encontrei novidade nenhuma até agora no noticiário do ano novo, que mal começou, e já começou mal, como o outro terminou.

Passada a euforia fabricada pela melhora de alguns índices econômicos no final de 2019 _ alguns logo desmentidos, como o aumento de 9,5% da vendas de Natal _ voltamos à mesma lereia de costume.

E como haveria de ser diferente, apesar de todo o otimismo chapa branca dos comentaristas da televisão, que querem criar um clima “favorável para os negócios”, como se a simples mudança da folhinha fosse capaz de operar milagres?

Cabe até perguntar: “favoráveis” para quem, cada pálida?

Só faltou ressuscitar as marchinhas ufanistas do “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo”, dos tempos do general Médici e do milagre econômico do czar Delfim…

Brasileiro gosta mesmo de se auto-enganar, acreditar em mandingas de ano novo, banhos de cheiro e oferendas, e eu não estou aqui para tirar o otimismo e a ilusão de ninguém.

Mas dá para acreditar que, de um dia para o outro, Bolsonaro vai virar um estadista? O Posto Ipiranga vai nos abastecer de empregos formais para todos e nada nos faltará? O justiceiro da Justiça vai descobrir quem jogou as bombas no Porta dos Fundos e onde está Queiroz; quem mandou matar Marielle e abasteceu o avião da FAB de cocaína?, entre outros mistérios pendentes de 2019?

Pelas primeiras amostras, podem ir tirando o cavalinho da chuva.

Guedes sumiu de repente, suas reformas foram para as calendas; Moro, para não variar, foi passar férias nos Estados Unidos e Bolsonaro já chegou rosnando no seu primeiro encontro com a imprensa, depois de anunciar pelo Twitter um “2020 tão vitorioso quanto 2019”. Valha-nos Deus.

No confronto desta manhã, depois de se recusar a falar com os jornalistas na véspera, por querer “começar bem o ano”, recuou mais uma vez dos recuos dos recuos anteriores e desistiu de vetar os R$ 2 bilhões para o fundo eleitoral, “para não correr o risco de um processo de impeachment”, do qual ninguém está falando até agora. Só ele.

No chiqueirinho da imprensa no Alvorada, declarou apenas: “Preciso preparar a opinião pública, caso contrário vocês (a imprensa) me massacram, vocês arrebentam comigo”.

Essa imprensa é mesmo malvada: publica tudo o que ele fala, e ninguém entende direito.

De novidade mesmo, no meu computador 2020, só apareceu até agora uma nova invasão de spams de propaganda de planos de saúde, operadores de telefonia, renovação de CNH, revisão e seguro de automóveis, embora eu não tenha carro há mais de dez anos.

Os algoritmos devem ter enlouquecido na passagem de ano e não obedecem aos nossos comandos.

Mesmo você clicando lá no “caso não deseje mais receber…”, e de confirmarem teu descadastramento, no dia seguinte estão todos lá de novo, num moto contínuo.

Voltaram também as ligações fantasmas do Paraná (prefixo 41), sempre nos mesmos horários, tocando uma musiquinha e ninguém falando nada do outro lado.

Fora isso, continuam as discussões filosóficas: na direita, sobre o que é “liberal na economia e conservador nos costumes” e, na esquerda, as brigas em torno de Stalin e os rumos do comunismo.

Nesta fase retrô vivida pelo país, estão de volta até os “camisas verdes” do integralismo, a versão nativa do fascismo de Plínio Salgado, que assustou o país nos anos 30.

São suspeitos de terem jogado as bombas molotov, outro artefato de antigamente, nos estúdios da produtora do Porta dos Fundos.

Bolsonaro não se manifestou até agora sobre o atentado e só prestou solidariedade ao empresário amigo Luciano Hang, por conta do incêndio numa “estátua da liberdade” de sua loja em São Carlos.

Falta sair algum livro sobre os “fundamentos científicos, militares, teocráticos, psiquiátricos e filosóficos do bolsonarismo”, que certamente aparecerá nas livrarias este ano.

É o único palpite a que me arrisco, no meio de tantas mães dinás do nosso jornalismo, que preenchem páginas e paginas com as previsões para 2020, para não dizer nada.

Num país onde, segundo Pedro Malan, até o passado é imprevisível, esperar o que de novo e de bom?

O que é novo não é bom e o que é bom não é novo.

É o que temos para abrir o novo ano velho.

E vida que segue.

 

13 thoughts on “Nada de novo no front: e como haveria de ser diferente?

  1. The Guardian: governo Bolsonaro é formado por “desqualificados, lunáticos ou perigosos”

    Uma longa reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada nesta quinta-feira (2), traz uma elaborada lista de figuras do seu governo consideradas inaptas para o cargo que ocupam e inclusive perigosas. “Diga o que quiser sobre Bolsonaro, mas é preciso reconhecer seu raro talento em escolher as pessoas mais desqualificadas, lunáticas e/ou perigosas para os cargos”, comentou um dos entrevistados, o jornalista Mauro Ventura, que completa: “Parecem ter sido escolhidos pelo seu QI (quociente de imbecilidade)”.

    A matéria é assinada pelos jornalistas Tom Phillips e Dom Phillips.
    https://www.theguardian.com/world/2020/jan/02/bolsonaro-brazil-government-oddball-officials?CMP=Share_iOSApp_Other

  2. Difícil ser otimista mesmo, já se foi o primeiro, o negócio é trabalhar pra quem tem esse privilégio, qto ao deslumbrado concordo com vc, só ele acredita que 2019 foi um ano bom. Retrocesso total.

  3. De fato, nada de novo no front, salvo perigosamente solto por aí o terrorista alemão, ‘kurtis Cirkuitz’, suspeito pelo incêndio da estatua fake da Havan de São Carlos, financiada pela tal caixa preta a ser aberta do BNDES, mas agora dita transparente, enquanto foragido o também terrorista do Porta dos Fundos, Eduardo Fauzi, que sabe-se agora, ‘a confirmar Lula’, amava as jornadas de junho de 2013, que eram amadas por Elisa Quadros, a Sininho (lembra-se), que junto com black blocs, que também as amavam, antes de desaparecerem, como também o promovido major ‘Balda’, organizaram greve de fome para soltar, Eduardo Fauzi preso……, e no correr do tempo em que repete-se o front, “João amava Teresa da praia, que amava Raimundos, que amavam Maria Joana, que amava Joaquim José, que amava Lili, que não amava ninguém.
    João foi para os Estados Unidos, Teresa à praia,
    Raimundos separaram-se antes de desastre, Maria Joana deixaram na casa da tia de João Gordo, Joaquim José foi suicidado e Lili casou com R. Pisani Marinho, que não tinha entrado na história”
    Na verdade, Mestre, feito a Democracia de Petra, em vertigem, o que queria mesmo era lembra-lo que a ‘copinha’ começa hoje, e pode ajudar a aliviar as dores do mundo e junto, de costelas trincadas também.

  4. A questão de estar muito preso ao passado é que você não vê nem o presente nem o futuro. Esse colunista está precisando mesmo é de muita oração pelo tanto que é pessimista. Ainda bem que Deus é muito misericordioso, não dando ideia nenhuma pelo que ele fala ou deixa de falar. Tem que afrouxar o freio do arreio, dizia meu avô. Vida que segue cheia de altos e baixos.

  5. “Felizes Anos Velhos!”.
    Tomo emprestada a frase do Netho de anos passados.
    Na mais absoluta certeza de que o que virá há de ser ainda pior do que o “ano maligno” de 2019.

  6. Amigo Kotscho,

    Sou solidário ao amigo. Passei a antevéspera do dia de ano fazendo exames. Em clínica radiológica.

    Sob chuva, ajudava descarregar bebidas em casa do balneário de Rancharia. Tradicional festa familiar.

    Meti a cabeça num pilar após escorregão. Mas não quebrei a danada e sim a bunda. Fratura no cóquis.

    Abstêmio de cerveja há oito meses, fiquei confinado em casa. Do sofá para a cadeira do papai; desta para o sofá. Assisti os telejornais de fim e início de ano.

    Plantão jornalístico é movido a tragédias. Mas os abnegados e sofredores profissionais mandaram ver no ufanismo econômico.

    “Balança comercial registra superávit de US$ 46,7 bilhões”. Foi a chamada que dominou os telejornais, embora timidamente registraram que “foi o pior resultado de 2015”.

    Os telejornais, principalmente os da Globo, enalteceram o recorde de venda de veículos nos últimos cinco anos. Não esquecer que as montadoras representam um grande filé na receita da emissora.

    Por falar em filé, a procura desse corte da carne bovina não cai apesar de o preço estar nas alturas. Aumentou o tipo de consumidor? Não, apenas os ricos continuam comprando.

    O aumento do salário mínimo para um ano, de R$ 41,00, não dá para comprar um quilo de filé, que o rico adquire em um minuto. Na época do governo Lula, quando o mínimo subia atrelado ao PIB dava para comprar 2 quilos.

    Era pouco. Mas, muito perto de agora.

    Isso ninguém quer explicar. O melhor, então, é mostrar um país que não existe. Como aconteceu com o milagre econômico na ditadura militar.

    A recuperação do desenvolvimento econômico foi o destaque dado pelos empresários que desfilaram aos borbotões nos telejornais de início de ano. Pauta fechada pelos plantonistas a mando das chefias.

    Fui hoje (02) à tarde fazer exame de tomografia do cérebro. Desconfiava do tombo. Em experiência anterior precisei furar a cabeça a fim de drenar coágulo que se manifestou 30 dias após um acidente de trânsito.

    Mas não deu nada. O cabeção continua em ordem. O inchaço é o de se indignar com tantas mentiras despejadas nos telejornais sobre a economia.

    Como a bunda, o tal de cóquis, não vai consertar nunca, vou passar a ter uma dor crônica. Isto vai me ajudar a ficar cada vez mais indignado com este “feliz ano velho”. (Meu abração ao escritor Marcelo Rubens Paiva)

    Ulisses de Souza

    1. Caro Ulisses, faz como eu: aproveita estes dias de molho pra ler coisas boas. Desliga a televisão, que só tem besteira e fake news.
      Uma boa sugestão é o livro do Sergio Haddad sobre a vida e a obra de Paulo Freire, que acaba de ser lançado. Falei dele em colunas anteriores. Te cuida. Abração

  7. Prezado Kotscho: Mesmo considerando que o capitão-presidente “desistiu de vetar os R$ 2 bilhões para o fundo eleitoral, “para não correr o risco de um processo de impeachment”, do qual ninguém está falando até agora”, será que não está passando da hora de se falar, porque já não existe uma penca de motivos para um impeachment desse governo fascista?

  8. Sério, estou preocupada com o destino destes doze por cento de apoiadores fiéis dos Napoleões da Barra. Quando passar o surto coletivo, o que virá além da resignação envergonhada por se tornar motivo de piada? Violência? Seria o Molotov do integralista (quem mais nessa?) contra o Porta dos Fundos um prenúncio do desconforto com a própria caricatura, ridículo cada vez mais visível? E você aí dentro de instituições importantes, como se sente agora de mãos dadas com racistas, monarquistas, homofóbicos, milicianos e assassinos de indígenas? Confortável?
    O mundo já ri do Brasil e ninguém pode constatar isso sem se sentir muito triste.
    “Jornalista, você tem cara de homossexual”; “Pirralha”; “nazismo de esquerda”; “escravidão foi um bom negócio”; “são as ONGs por trás das queimadas e da mancha de óleo”; “a sórdida Fernanda Montenegro”; “expulsar ou prender estes 30000 comunistas”; “Globo canalha”; “Golden Shower”; “sete arrobas”; “Paraíbas”; “escola sem partido com hino nacional obrigatório antes das aulas”; “a democracia não dá muito certo entre nós”; “a mulher do Macron é feia”; “vamos estudar a conveniência do AI-5”; “general melancia”; “eu digo quem matou seu pai”; “um cabo e um soldado fecha o STF”; “Stroessner e Pinochet estadistas”. Precisa mais? Tem muito mais!
    E a helitinha (um setor da elite) ainda quer fazer negócios no mundo?! Desce em NY, Paris, Bruxelas, Berlim, Londres e diz que agora votou útil no fascismo pois não aguentava mais o PT! Veja o que te espera.

  9. Sorte do escriba entao, porque não tinha visto nada do assassinato de Suleimani. Pois o imperio arrogante e provocativo quer começar bem 2020.
    Vai lhe custar caro desta vez.
    Bom Ano Novo e saude!

    1. Augusto, claro que eu não poderia ter visto nada do assassinato de Suleimani porque a coluna que você comentou (“Nada de novo no front”) foi publicada no dia 2 de janeiro, bem antes do atentado terrorista de Bagdá.
      Não é questão de sorte. É que não sou vidente…

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