A boa e a má notícia de fim de ano do amigo Eros Grau, chegando aos 80

A boa e a má notícia de fim de ano do amigo Eros Grau, chegando aos 80

Participo de uma velha confraria de amigos que se reúnem aos sábados na Tabacaria Ranieri, em São Paulo, para falar da vida, sem nenhum compromisso.

O que os une é o charuto, que nunca consegui fumar, mas tem também quem fuma cigarro, como eu, ou não fuma nada; só está lá para encontrar os amigos e fazer a resenha da semana.

Fazia tempo que não encontrava o ex-ministro Eros Grau, que vive metade do tempo em sua bela casa de Tiradentes, nas Minas Gerais, e outra em seu apartamento de Paris.

De vez em quando, passa por São Paulo, onde o encontrei neste sábado.

Com dificuldades para se locomover, depois de várias cirurgias no joelho, alojou-se em sua pequena cadeira, especialmente guardada para ele, como se fosse um reizinho.

Barba branca bem comprida, assim como a cabeleira, poderia ganhar a vida como Papai Noel, mas aqui é apenas o doutor Eros, divertido contador de histórias, ao lado do seu conterrâneo gaúcho Nelson Jobim, de quem foi colega no STF.

Os dois nasceram na mesma rua em Santa Maria e chegaram ao STF na mesma época.

Têm em comum, além da origem e do destino, o fato de não se levarem muito a sério.

Divertem-nos com suas brincadeiras de adolescentes, um sacaneando o outro o tempo todo. Faz parte do show particular deles.

“Qual é a boa notícia, Eros?”, pergunto a ele de bate pronto, quando o reencontro depois de semanas sem nos vermos.

O amigo tinha acabado de fazer um transplante de retina e ainda está em recuperação.

Afasta um pouco a bengala, olha bem pra mim e responde na lata:

“A boa notícia é que eu esto fodido!”.

Diante da reação da platéia, que ri meio sem graça, faço a segunda pegunta:

“E qual é a má notícia, Eros?”

“Eu acho que vou sobreviver…”

Aí ele se lembra da crônica que escreveu no Diário de Santa Maria, recuando aos tempos de juventude comunista, bem diferente da boa vida que leva hoje, apesar dos achaques da saúde, perto de completar 80 anos.

Depois ele me manda o texto em que se lê:

“Da janela e do fundo do terreno da nossa casa (em Tiradentes) desfruto do horizonte da Serra de São José. O eu mais jovem que há em mim volta e meia me diz ao eu que sou hoje algo assim como `velho burguês, tu vais ver, terás que dividir tudo isso quando vier a Revolução´. Então lhe respondo, com uma ponta de ironia, que quando ela vier já estarei no céu!”

Vida que segue.

 

2 thoughts on “A boa e a má notícia de fim de ano do amigo Eros Grau, chegando aos 80

  1. Triste fim de um ex-comunista. Nada pior do que um ex-comunista reconhecidamente burguês.
    Votou – na condição de Minerva -, a favor da constitucionalidade da Lei da Anistia e, assim, passou à história como o primeiro ministro do STF indicado por Lula a convalidar todos os crimes praticados pelos próceres da Ditadura.
    Eros votou contrariamente aos entendimentos dos ministros argentinos, uruguaios e chilenos que já haviam concluído serem inconstitucionais quaisquer leis que significassem ou implicassem o apagamento dos crimes imprescritíveis e inafiançáveis, havidos como hediondos, contra a Humanidade.
    Por conta do voto de Eros – na condição de Minerva, enquanto voto de desempate -, para que os Brilhante Ustra e Paranhos Fleury seguissem com suas vidas livres, leves e soltos, a flanarem pelo país, como se suas mãos pudessem ser consideradas limpas e impunes pelos crimes de tortura, sevícia, desaparecimento e morte.
    Dá para entender o porquê do voto de Eros: seu compadrio com o andar de cima, seus pareceres milionários à lavra das grandes empresas e do grande empresariado nativo. Sua conversão às delícias burguesas ajustou o palavrório de Eros ao ditado caipira: “o uso do cachimbo faz a boca torta”.
    A mudança do ex-ministro foi da água para o vinho!
    Lembro-me muito bem dele, barbas negras à moda cubana e de sua retórica áscua na EAESP-FGV quando professor de Direito Econômico durante os anos de chumbo da didatura: 1972-1976. Um período que coincidiu com o golpe sangrento de Pinochet que levou ao suicídio de Salvador Allende.
    Dizem as boas línguas que Eros dispõe da melhor adega das Geraes, com vinhos que fariam Duda Mendonça corar de luxo, mesmo sendo um consumidor dos Romanée Conti.
    Roberto Grau teve em suas mãos a oportunidade de levar os filhotes da Ditadura ao banco dos réus.
    Como PIlatos, Eros entrou no Credo ditado pelos golpistas civis e militares de 64.
    Ajoelhou no banco dos matadores e rezou a prece dos sicários.
    Na hora do voto terminal, esqueceu a máxima de Ulysses ou fez que nunca a ouvira, negando como Pedro o ensinamento dos Senhor Diretas: “A Constituição é Rubens Paiva; não os facínoras que o mataram”.

  2. Conforme praxe vintenária na Folha, a primeira semana de dezembro traz a pesquisa que faz o balanço do presidente da vez.
    Após o detido exame da pesquisa só me ocorreu uma coisa. A lembrança do livro do autor espanhol que alguns especialistas consideram o Cervantes do século XXI.
    (Claro que seus livros não foram traduzidos no Brasil, porque a demanda literária brasileira é a pior do mundo, onde só há lugar para as intragáveis e indeglutíveis enciclopédias de autoajuda).
    O livro que me saltou da memória foi:
    “Vendrán Más Años Malos y nos Harán Más Ciegos” de Rafael Sánchez Ferlosio.

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