Carrões na pista, assassinos ao volante

Carrões na pista, assassinos ao volante

Do meu posto de observação na calçada de um boteco, numa das esquinas mais movimentadas da cidade, nem acredito no que vejo.

Ali, no cruzamento da Bela Cintra com a Lorena, no coração dos nobres Jardins, só por milagre não morre mais gente.

As quatro faixas de pedestres são adereços decorativos que não servem para nada.

Os carrões, que sobem a Bela Cintra no embalo, passam a 100 por hora, mesmo sabendo que, logo adiante, tem outro farol.

Cantam pneus, buzinam, xingam os pedestres, e seguem em frente, impávidos e gloriosos, ao volante das suas SUVs e off-roads, os carrões da moda.

Certos da impunidade, pensam que estão nas estradas das suas fazendas onde eles são a lei.

Nesta região da cidade, moram muitos idosos, circulam carrinhos de bebê e madames com seus pets, que devem ter um anjo da guarda muito forte.

O barulho das brecadas não assusta mais ninguém, já fazem parte da paisagem.

Leio no jornal que “Covas gasta R$ 20 mi em ações para frear mortes no trânsito”.

É dinheiro jogado fora.

Porque quem causa estas mortes não está nem aí para campanhas educativas, não assiste à televisão aberta, não ouve rádio, acelera e liga o f…-se. .

Eles assistem às séries on demand (é assim que se diz?), em que a vida conta muito pouco e só vale a lei do mais forte.

Empoderados pela nova ordem, são capazes de passar por cima do guarda da esquina, e dar uma banana, se tivesse algum guarda na esquina.

Em vez de fazer anúncios, a prefeitura paulistana gastaria melhor suas verbas se multiplicasse os radares e marronzinhos nas esquinas mais movimentadas da cidade, para punir os assassinos em potencial, que ameaçam nossas vidas nas faixas de pedestres.

Como eles também não ligam muito para multas, pois dinheiro não falta, melhor seria prendê-los preventivamente, cada vez que cometem uma infração colocando em risco a vida de terceiros.

Na capital paulista, em 2018, os acidentes de trânsito provocaram 849 mortes. Eu escapei.

Totens cobertos de sacos pretos vão lembrar estes mortos com cruzes colocadas pela prefeitura no canteiro central da avenida 23 de Maio.

Melhor seria se colocassem os retratos de quem provocou essas mortes, os assassinos ao volante que continuam impunes.

Você conhece alguém que está preso por ter provocado um acidente de trânsito fatal?

A prefeitura planeja também criar “áreas calmas” nos bairros, onde os motoristas não poderão circular a mais de 30 km/h, mas ainda não há previsão para implantar este projeto.

Nestas horas, me lembro do que me aconteceu anos atrás aqui perto, na esquina da Oscar Freire com Haddock Lobo, outro cruzamento nobre.

Na faixa de pedestres, minha família atravessava a rua com uma bisavó octogenária e um carrinho de bebê.

Veio um carrão com tudo, buzinando, e só me restou xingar o sujeito.

Logo adiante, ele parou o carro, abriu a porta e gritou:

“Qual é, babaca? Pensa que está em Londres?”

Vida que segue.

 

10 thoughts on “Carrões na pista, assassinos ao volante

  1. Já dirigi aí em SP, cortei essa capital de norte à sul – dirigindo um opala cinza quando fui no casamento do meu irmão. Devo ter rodado aproximadamente uns 220 Km – distância da minha cidade daqui do interior mineiro à Begá; logo percebi, que, indiferente do local onde você estiver, aí os veículos só trafegam mesmo é na mais alta velocidade. Aceleram tudo que têm direito. Coisa de louco. – Pensei que, depois da administração municipal do Haddad, ex-prefeito desta cidade, outrora motivado pela tanta e excessiva propaganda que agente acompanhava pela mídia, tinha havido de “melhoria do trânsito”, falavam de construção de ciclovias, e etc.; pensei que alguma coisa de diferente realmente tinho sido mudado.Propaganda enganosa. Não é só a administração do PSDB que é inerte. Outras tantas também. Num país de muitas leis e pouca aplicação, tudo é possível. A violência no trânsito ocorre não somente no coração deste país-, aqui na minha região, que tem uns dos maiores PIBs mineiros, conheço casos de várias pessoas que morreram atropeladas por carros fazendo caminhada ou andando nos passeios de suas casas. Você já imaginou quantas motos e carros são colocados na rua deste país todo dia? Sugestão: tal como acontece no Japão, deveria existir na grade escolar de cada escola a disciplina de trânsito, começando já pelo Ensino infantil, e que colocassem mais guardas nas ruas, nas avenidas aquelas de transito mais fluentes, / com empenho de autorização dada pelas autoridades municipais para prender, tomar as carteiras de habilitação daqueles que fazem de seus automóveis uma arma de guerra.

    1. Tião, na gestão Haddad houve ordem para redução da velocidade nas marginais e nas principais vias da cidade. Veio o Doria e mandou aumentar tudo de novo. Simples assim.

      1. O governador erra em fazer política de gestão, talvez visando à próxima eleição de nível nacional e/ou não está fazendo a política de Estado; resolver a questão do trânsito aí deve ser menos complicado que despoluir rios paulistas. – Como é que está é revitalização do Rio Pinheiros, a comunidade se uniu e continua chegando junto? (Por que a comunidade tb não une na questão do trânsito?). Citei o caso do trânsito do Japão, foi como exemplo de projeto a ser cumprido em longo prazo, e não com intuito de denegrir a imagem política de alguém, qualquer que seja.

  2. Pressa motorizada que tudo atropela, pedestres, normas de trânsito e regras mínimas de convivência: vão se atrasar para mais um ato contra a corrupção na avenida Paulista e em Copacabana.
    A guinada para cenas de violência explícita ultraconservadora, estimulada desde cima, já estava em germe neste lugar sintomático da hipocrisia brasileira: o asfalto, ali onde a norma deve ser desalojada para o desejo irracional e destrutivo de velocidade preponderar. Será um acaso esta vontade comum de remover radares, normas de proteção ambiental, garantias trabalhistas; no limite, até mesmo da Constituição e da democracia se livrar?
    O mais fervoroso guerreiro contra a corrupção aspira intimamente que todas regras civilizatórias sejam suspensas, assim ele próprio se purificaria ao extremo da sua incômoda sombra corrupta, pois nada mais do que faça ameaçaria a norma que deixou de existir. Limpinho de si mesmo, com o dedo em riste contra o outro ameaçador na impureza de toda e qualquer existência, pode ele agora bater livremente na mulher inferior segundo uma leitura ultra-empobrecida do Evangelho, adorar o AI-5, matar o filho homossexual e o andarilho de esquerda no mais sintomático mapa eleitoral do Brasil.

  3. “Brasil, construtor de ruínas” de Eliane Blum foi publicado pela Editora Arquipélago. Vai da eleição do metalúrgico aos primeiros cem dias do ex-tenente que virou capitão reformado por uma sinecura licenciosa do Judiciário Militar da Casa Grande.
    Tudo a ver com os assassinos nos volantes, nas motosserras, nas reformas previdenciária e trabalhista que constroem ruínas, diariamente.

  4. Dois fatos que o jornalista hipócrita e rancoroso com certeza não irá Escrever.
    Primeiro: Diego Hypolito foi ameaçado de morte por gays e fugiu de uma boate escoltado por seguranças para não ser agredido ou até mesmo assassinado. Foi obrigado a contratar um segurança.
    Segundo: Show de Roberto Carlos após ser homenageado pelo Rei a platéia levantou ovacionando o Grande Sérgio Moro.
    Duas notícias que nunca mereceram uma linha do jornalista hipócrita que fala tanto em violência dos aqui chamados de bolsominios mas foram os gays que se dizem da paz e perseguidos que tentaram agredir e assassinar um ídolo gay e brasileiro. Com certeza teremos censura. Vida que segue

    1. Caro Mauricio,
      Ricardo Kotscho é um um homem digno e um excelente profissional do jornalismo.
      Como certamente já percebeu, seu comentário não sofreu qualquer tipo de censura. Então, se me permite uma sugestão, vamos exercitar o respeito?
      Que tal o senhor pedir/sugerir *gentilmente* que ele escreva a respeito dos “fatos” que citou?

  5. Prezado Kotscho: Esses motoristas “Cantam pneus, buzinam, xingam os pedestres” estão estimulados para matar como estão os milicianos e as polícias pelo Brasil afora. Afinal, não é esse o plano do governo de extrema direita? Ou a morte de nove pessoas em Paraisópolis, em São Paulo, nesse final de semana foi por acaso?

  6. Pois é, Kotscho… Nessa terra só são presos os pobres, na maioria pretos e da periferia, sem direito a nada. Os ricos, na maioria brancos e das regiões nobres, seguem impunes e não estão nem aí para nada. A chacina de Paraisópolis – isso mesmo, chacina! – será mais um processo sem solução ou punição. Afinal, aconteceu em Paraisópolis e não no Morumbi.
    Vidas muitas que não seguem… 🙁

  7. Realmente não conhecemos ninguém preso por graves infrações no transito, mas se algum delegado ou juiz mais afoito prender e se for figurão, um dos 3 patetas conhecidos do STF com certeza expedirão uma liminar ou um habeas corpus e mandarão o assassino curtir a vida…. ou estou enganado?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *