Bolsonaros testam os limites da democracia e da nossa omissão

Bolsonaros testam os limites da democracia e da nossa omissão

“Infelizmente, diante da apatia nossa, generalizada, parece que Bolsonaro está fazendo como aquelas crianças que ficam testando o limite dos pais, até onde podem ir… e pelo jeito somos pais irresponsáveis; amedrontados, permanecemos calados, observando impotentes… covardes…”

O desabafo acima é de um cidadão brasileiro admirável, o premiado escritor Luiz Ruffato, publicado no grupo da nossa Academia de Litros, uma confraria literário-etílica que se reúne uma vez por mês para comer empanadas, beber e jogar conversa fora.

Mas tem hora que o papo fica sério, como aconteceu na sexta-feira, dia seguinte à ameaça que Bolsonaro fez aos anunciantes da Folha, um atentado grotesco contra a liberdade de imprensa.

Outro confrade tinha escrito:

“Ameaça a anunciantes da Folha é inaceitável. Isso é gravíssimo! País sob risco institucional. Magistrados help!!! Tudo é muito grave. Ainda mais considerando a covardia desmedida da nossa elite empresarial”.

Essa covardia não é de agora. Basta o governo bater o pé para a chamada elite empresarial colocar o rabinho entre as pernas e lamber as botas do poder.

Vi isso quando o bravo Mino Carta teve a ousadia de lançar um jornal independente em 1979, ainda em plena ditadura militar.

Mino confiava que os chamados “empresários progressistas” da época, seus amigos, bancariam o “Jornal da República”, pelo menos no começo.

Para vocês terem uma ideia, Mino conseguiu juntar na mesma redação Cláudio Abramo e Clóvis Rossi, os dois célebres jornalistas paulistanos que haviam revolucionado a Folha e o Estadão, entre outros profissionais do primeiro time.

Era a mais qualificada redação de jornal do país em todas as áreas, mas foi o sonho de uma noite de verão.

Isso aconteceu em 1979. Tenho orgulho de haver participado desta aventura, que durou apenas seis meses, e nos mostrou os limites de uma imprensa realmente independente.

Nunca mais alguém teve coragem de lançar um novo jornal com aquela qualidade do “República” do Mino, que foi tema de um sem número de teses nas faculdades de jornalismo e até hoje é lembrado na academia.

Foi um dos melhores jornais já publicados no país, mas não tinha anúncios. Sumiu das bancas e fechou as portas, sem choro nem vela.

Depois isso, a partir de 1984, com Abramo e Rossi na redação, a Folha se tornaria o maior jornal do país, liderança que mantém até hoje.

Bolsonaro começou a ameaçar a Folha antes mesmo de tomar posse, com ataques cada vez mais violentos, até o ponto de ordenar aos órgãos do governo que cancelassem as assinaturas do jornal.

“Não vamos mais gastar dinheiro com esse tipo de jornal. E quem anuncia na Folha de S. Paulo presta atenção”, disparou numa live na quinta-feira.

Na semana em que seu filho Eduardo ameaçou com a volta do AI-5, depois que a família foi envolvida pelo Jornal Nacional nas investigações sobre o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, a liberdade de imprensa foi ameaçada como nunca antes desde o fim da ditadura militar.

Bolsonaros querem asfixiar a Folha economicamente, como fizeram com o “Jornal da República”, mas foi mais um tiro no pé.

Conseguiram apenas unir o país democrático contra eles e acabaram fazendo propaganda de graça para o jornal.

“Leitores reagem a Bolsonaro e pregam assinar a Folha como ato de resistência”, informa a Folha neste sábado.

Mauro Paulino, diretor do Datafolha, contabilizou um aumento de cinco vezes nas novas assinaturas do jornal em comparação com os dias anteriores.

E Eduardo Bolsonaro corre o risco de ter o mandato cassado, se o Congresso não se acovardar.

A troca de mensagens entre a turma da Academia de Litros resume um sentimento terrível de impotência diante desta nova ditadura fake do capitão-presidente e seus generais de pijama, que a cada dia mais golpeiam a democracia e o Estado de Direito.

É perfeita a imagem de Rufatto ao comparar os Bolsonaros com as crianças que desafiam os pais até o limite para conseguir o que querem.

No caso, uma nova ditadura, sem máscaras. Não veem a hora de colocar as tropas nas ruas.

Por mais ferozes que sejam o pai e seus três filhos desatinados, eles só mostram que estão acuados, tentando a todo custo abafar as investigações sobre o que fizeram no verão passado, antes e depois de chegarem ao poder.

Não é possível que um país de 208 milhões de habitantes, ainda uma das maiores economias do mundo, apesar de campeã de desigualdade social, se submeta tão docilmente aos desígnios desta família tosca e iletrada, que saiu do condomínio de milicianos da Barra da Tijuca para o Palácio do Planalto.

Li em algum lugar que estão organizando manifestações para terça-feira, dia 5, contra os desmandos dos Bolsonaros e sua trupe alucinada.

Não custa nada alimentar a esperança de que, desta vez, as pessoas levantem a bunda da cadeira e saiam das redes sociais para mostrar que esse povo pode ser manso, mas não é covarde.

Se eles estão testando os nossos limites, é hora de dar um basta a esse desgoverno demente, que ameaça o futuro da nossa democracia.

Não adianta nada apenas lançar notas de protesto e repúdio contra as barbaridades bolsonarianas.

Eles não têm o hábito de ler nada.

E vida que segue.

 

9 thoughts on “Bolsonaros testam os limites da democracia e da nossa omissão

  1. Kotscho, li que está sendo cogitada a criação do Partido Militar Brasileiro.
    Não há necessidade até porque já existe o Partido Verde Oliva, que sempre deu as cartas no frigir das claras e das gemas.
    Quem manda mesmo é o Partido Verde Oliva.
    É o Partido Armado, como diz o Breno Altman.

  2. Considero o capetão e rebentos, Mestre, apenas indesejado e perigoso apêndice necessário à suruba golpista da classe dominante, onde o cerne da orgia cancerosa, que garante os que alimentam-se da desigualdade da casa de tolerância em que constituíram o Brasil, tem inacreditavelmente ainda, nome e donos não invisíveis: GloboMarinho.
    Isso posto e comprovado no repetir-se da prática mais que escancarada, ‘lupanarmente’ explícita, por esse órgão de desinformação, não há mais por que adiar o combate frontal e prioritário a esse elemento cancerígeno que devora-nos o presente para garantir o futuro deles e ‘interesses dos amigos’, auxiliados pelas forças de ocupação no combate ao ‘inimigo interno’, o povo, e pelo judiciário maçônico a garantir aos amigos tudo e aos ‘inimigos’ a lei, a convicção e o domínio do fato se preciso for.
    PS1: O ‘atentado do AI-5’ pelo Zero Três, exigia ao menos, nas primeiras horas, ida em bloco de todos os deputados, senadores e líderes dos partidos de oposição, às instituições, para encaminhamento da cassação do golpista.
    PS2: Ao tomar conhecimento que seria lançado o “Jornal da República”, sob comando de Mino, exultei de alegria. Ao ter o primeiro exemplar às mãos, deu-me certa angustia, pois trazia explícitos os sinais da impossibilidade de vida longa: papel, impressão, anunciantes, número de páginas…

  3. Amigo Kotscho
    A eleição do capitão ao cargo de presidente foi um golpe certeiro no fígado da esquerda, que baixou a guarda demasiadamente.
    Atônita e desarticulada, ela não consegue reagir diante das diabruras do capitão e seus filhos, que ferem de morte a democracia.
    A sociedade civil saiu desarticulada das eleições. O ódio, implantado pela direita, divide o país.
    Os movimentos sociais se encolheram dentro de um casco de tartaruga. MST, no campo; e o MTST, na área urbana, estão calados em sua impetuosidade.
    Vale lembrar que no início dos anos 70 foi um movimento de mulheres – contra o custo de vida – que abriu a oportunidade para tímidos debates. Este grupo nasceu no seio da igreja católica, através das Comunidades Eclesiais de Base (CEB) da periferia.
    Hoje, a igreja católica vê a ala conservadora aumentar sua base no Brasil. Até entidades como “Arautos do Evangelho” são importadas e tentam se firmar junto aos fiéis brasileiros.
    Para quebrar a solidez autoritária da ditadura militar outros movimentos sociais surgiram no início da década de 70. Os estudantes da USP, por exemplo, iniciaram uma reivindicação contra o preço da comida no campus. Saíram às ruas para pedir mais verbas para a educação e depois introduziram uma reivindicação política: Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita.
    Sindicatos de trabalhadores, então combativos, estão enfraquecidos.
    Então, qual a motivação que vai levar pessoas às ruas?
    “Lula livre” é a esperança política.
    Mas, só isso não basta.
    Ulisses de Souza

  4. obrigado por veicular a mesma leitura que faco.
    faco mais uma analogia:
    Aquele jogador de xadrez FRACO, acostumado a jogar com adversarios desatentos, que percebe ter deixado uma peca pendurada (uma torre ou a dama?) e ai ameaca com um cheque-mate completamente impossivel para que o adversario se defenda de uma ameaca ilusoria e deixe passar a dama pendurada

    Nao podemos deixar passar essa, tem que capturar essa peca e encerrar o jogo rapidamente, para se preparar logo para o proximo adversario no campeonato, de um nivel certamente mais elevado.

    Aquila non caput muscas.

  5. Prezado Kotscho: Se a rainha da Inglaterra, suas três princesas, os generais de pijama da ultra direita, os apoiadores e os associados, que mandam e desmandam no “Condomínio Brasil”, conseguem tripudiar a nossa existência, como você bem escreveu: “Não custa nada alimentar a esperança de que, desta vez, as pessoas levantem a bunda da cadeira e saiam das redes sociais para mostrar que esse povo pode ser manso, mas não é covarde.” Pelas palavras de Machado de Assis: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies.”

  6. Amigo Ricardo, sempre aqui de Portugal. Cada dia acordo mais perplexo com o que ocorre no Brasil com essa gentalha Bolsonaro. O homem sobe o tom, ninguém ‘levanta a bunda’ mesmo tendo em conta o que ocorre nos países vizinhos como Equador, Bolívia, Chile.
    Dias Toffoli é um mistério, sobretudo quando diz que ainda está ‘pensando no seu voto’ no caso das ADCs. Precisa pensar?
    Certo vc está. Desespero bateu na porta do condomínio da Barra Pesada, como diz o José Simão. A tal corrida pra frente, até celular do Queiroz mandou destruir.
    Tá feia a coisa.

  7. Há vasta literatura internacional aferindo que os países têm a cara e o caráter da sua elite e da sua classe dirigentes. Weber e Mills trataram dessa sociologia; para não falar de Marx e Engels.
    Não se poderia esperar grande coisa do caráter e da cara das instituições e elites dirigentes que, mesmo durante o auge do processo de redemocratização do país, não se dispuseram a garantir um jornal e um jornalismo da estatura do “Jornal da República” de Carta, com Abramo e Rossi. Por si só, tal fato já haveria de dizer tudo. Nenhuma elite e classe dirigentes brasileiras jamais estiveram minimamente interessadas e comprometidas com o sentido, o sentinento e os princípios republicanos.

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