Povo sai às ruas pelo mundo todo. E aqui? Aonde está o povo?

Povo sai às ruas pelo mundo todo. E aqui? Aonde está o povo?

Na semana em que o STF julga o destino do ex-presidente Lula, o Senado vai aprovar a reforma que acaba com a previdência pública e o presidente(?) Bolsonaro passeia pela Ásia, ouve-se no Brasil o retumbante silêncio de um povo deitado em berço esplêndido, de boca aberta, esperando a morte chegar.

Enquanto o povo sai às ruas no Chile, no Equador, em Londres, Hong Kong, Barcelona, em monumentais manifestações de protesto pelo mundo afora, aqui na terra abençoada por Deus e bonita por natureza não acontece nada.

Não há na agenda nenhum evento programado pela sociedade civil em frente ao Congresso e ao STF, em defesa da democracia, da Constituição, dos direitos dos trabalhadores e de combate à desigualdade social, para se manifestar diante das decisões que serão tomadas estes dias em Brasília.

O que aconteceu com o povo brasileiro, que assiste inerte à destruição do país na marcha acelerada do bolsonarismo para quebrar e vender tudo?

O único sinal de vida, ou melhor de morte, dado até agora pela cidadania vem do lado das trevas, com líderes de caminhoneiros bolsonaristas ameaçando parar o país se o STF respeitar a Constituição e decidir pela imediata libertação de Lula.

Acuadas, as instituições reagem burocraticamente apenas para informar que as ameaças “que se mostrarem violentas serão enviadas para o âmbito do inquérito conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes”, que cuida da investigação sobre ofensas e fake news contra integrantes da Côrte, informa o Estadão desta terça-feira.

Além dos caminheiros, os únicos que se manifestaram até agora são os integrantes do grupo golpista Vem Pra Rua, que estão pedindo para os ministros Barroso, Fux, Fachin e Carmen Lúcia _ a bancada da Lava jato/Globo no STF _ para que um deles peça vistas durante o julgamento da segunda instância para interromper o julgamento.

Cadê o povo que não se intimidou na longa noite da ditadura militar, que lutou pela Constituinte e pela Anista, e tomou as ruas do país para pedir Diretas Já, em 1984?

Em Tóquio, hoje de manhã,  o ex-capitão presidente teve a desfaçatez de atribuir a rebelião popular no Chile, onde 15 pessoas já foram mortas pela repressão, ao fim da ditadura do general Augusto Pinochet, a mais sanguinária do continente, em 1990.

“O problema do Chile nasceu em 1990, que ninguém dá valor para isso. Naquela época, as Farc fizeram parte, Fidel Castro, isso tudo. E qual o espírito desta questão? Primeiro é bater contrário às políticas americanas, imperialistas, segundo eles. E depois são os países que se auto ajudam para chegar ao poder”.

Como é difícil entender a lógica do seu pensamento, no fundo Bolsonaro quer dizer que tem saudade das ditaduras de lá e daqui, e defende a completa submissão aos Estados Unidos.

Nos seus delírios, o ex-deputado do baixo clero ainda vive nos tempos da Guerra Fria e vê conspirações de comunistas por toda parte.

Fidel morreu, as Farc acabaram, a União Soviética ruiu, mas o inominável continua em guerra contra o perigo vermelho em vez de começar a governar, dez meses após a posse.

Desse jeito, vai se isolando cada vez mais, aqui dentro e lá fora, no momento em que o Brasil bate recordes de desigualdade, sem se dar conta que uma hora o povo brasileiro também vai acordar desse pesadelo, nem que seja por puro desespero, como já aconteceu no Equador, no Chile, no Peru e em outros países do continente.

Só não sabemos quando…

E vida que segue.

 

17 thoughts on “Povo sai às ruas pelo mundo todo. E aqui? Aonde está o povo?

  1. Até onde a minha vista míope alcança, o povo não nunca agiu de forma “espontânea”. O velho Vladimir e o velho Leon nunca acreditaram no “espontaneismo das massas”. Os dirigentes da oposição, sejam nos sindicatos, movimentos sociais e do campo, bem como as frações organizadas da sociedade civil estão na janela vendo a banda militar e seus legionários beócios passar. Só as Carolinas não vêem que a burocratização da esquerda cevada nos fundos partidários milionários e nos cargos e funções públicas e estatais engordaram e amarelaram as lideranças.
    Nunca houve, desde a caminhada do MST a Brasília nos estertores da Era Maldita de FHC, tantas razões e motivações para uma quase sublevação – Mino Carta reitera que não há ‘sangue na calçada’ -, para que os representantes da classe-que-vive-do-trabalho-na cidade-e-no-campo colocassem seus blocos e bandeiras nas ruas.
    A explicação preliminar parece ir ao encontro da tese esposada pelo presidente do CEBRAP, cujo fundamento repousa na conveniência pragmática de explorar a bipolaridade do ex-metalúrgico com o ex-capitão até as eleições municipais.
    A história, porém, não é uma linha reta traçada de um ponto presente a um ponto futuro.
    Às vezes, por exemplo, uma “facada” ou “tiros”, mudam o ritmo e o rumo da história.
    Podem eleger um presidente, como JK na esteira do suicídio de Getúlio; ou provocar uma Guerra Mundial, como a de 1914, com o assassinato do arquiduque Ferdinando da Áustria por Gavrilo Princip.
    No caso brasileiro, a diferença com os demais presidentes dos países em transe na América Latina reside no fato de que as FFAA, milicianos, polícias e forças paramilitares compõem uma blindagem canina ao ex-capitão, que não mede esforços orçamentários para satisfazê-los em todas as suas demandas corporativas. No Brasil, há uma agravante que pesa na decisão de confrontar a política econômica e as reformas deletérias do Posto Ipiranga. Trata-se do artigo 142 da Constituição Federal, escrito pelo General Leônidas Pires Gonçalves, a frio, que confere às Forças Armadas os poderes constitucionais de intervenção militar a pedido de um dos poderes. Sempre que pode, o general Mourão faz questão de lembrar aos navegantes que o Executivo pode usá-lo nas circunstâncias em que o presidente justificar como necessárias.

    1. Parabéns. Apenas um senão: Bolsonaro não atuou, sequer por um segundo, com a farda pijameira de capitão. O tenente pediu reforma. Milico não rejeita penduricalho, depois de tudo que fez, Jair “levou” 3 estrelas e soldo mais desavergonhado. Na caserna, só fez o dois.

  2. O povo já deu seu recado nas ruas em 2015/16 e agora está cuidando de sua vida, cada um como pode. Porém…

    No Rio, aproveitando que recente decisão do STF lhe deu este poder, cinco deputados presos por corrupção foram libertados pela AL. Ainda no STF, manobra-se para alterar leis e libertar milhares de criminosos julgados e condenados.

    Se continuar assim é capaz do pessoal voltar mesmo às ruas.

    1. Corroborando: por subscrever excelente Post acima, escrevi “na mosca”. Nestas condições, nada além disso. Mais claro: discordo do comentarista ernesto.

  3. A propósito dos caminhoneiros, Mestre, Fernando Brito em o Tijolaço, esculacha com a matéria em, “O papelão do Estadão”:
    “O Estadão se sai hoje com uma reportagem sobre as “pressões” que o STF estaria sofrendo para não corrigir a sua decisão e reconhecer a constitucionalidade da presunção de inocência até o trânsito em julgado de sentenças condenatórias.
    Diante da falta de repercussão até de manifestações patéticas, como o twitter do General Eduardo Villas Boas, apela para uma “ameaça de bloqueio das estradas pelos caminhoneiros”, sustentada apenas pelas declarações de um militante de extrema-direita, proprietário de uma loja de conveniências em Vila Prudente e uma microempresa de intermediação de negócios no Ipiranga (SP), Ramiro Cruz Jr, candidato a deputado federal pelo PSL, como Ramiro dos Caminhoneiros, que teve portentosos 1.810 votos em todo o estado.
    Pois este cidadão é a única fonte identificada que fala em paralisação das rodovias.
    (…) Um jornal como o Estadão dar destaque, com chamada de primeira página, a isso tem nome: uma desmoralização.
    (…) Publicar uma bobajada dessas, sim, é uma pressão espúria sobre os ministros da Corte, inventando um movimento de bloqueio nas estradas que não existe (…).
    Se o Estadão quer que se perpetue a agressão à Constituição, que faça um editorial dizendo que não vale o escrito.
    Mas terrorismo, não, Estadão…”

  4. Caro Ricardo Kotscho

    O povo anda ainda anestesiado pela grande mídia, devem estar vendo o Louro José conversar potoca no Ana Maria Brega. O Jornal Nacional como o suprassumo da informação (Perdoe Senhor, eles não sabem o que fazem) Deve está assistindo as reportagens do Fantástico, achando que é tudo a realidade do dia-a-dia. Deve achar o Luciano Hulk o suprassumo do sucesso empresarial e ficam na expectativa de reformar uma lata velha, em vez de procurarem ter acesso ao um emprego e comprar e reformar sua própria lata velha. Na minha modesta opinião, com a falência do modelo neoliberal em todo o planeta, e as agitações principalmente na América Latina, vai finalmente acordar a massa anestesiada da população brasileira, fazendo com que tomem às ruas e lutem por seus direitos. Não adianta esses generais de pijamas pressionarem os poderes constituídos e ficarem conversando “abobrinhas” nas redes, pois isso só vai incentivar a revolta popular, principalmente se tentarem usar o Luis Inácio Lula da Silva como troféu. Acho que os mesmo estão, falando literalmente do lado estratégico, com o tiro saindo pela culatra, pois foram bulir com a pessoa menos indicada (Lula) no momento de turbulência desse país. Levando para o lado cômico, se o Luis Inácio Lula da Silva, provar sua inocência, com certeza ele vai ser canonizado (não sei se em vida) como o Santo Luis Inácio Lula dos Pobres. Se depender dos pobres e desvalidos desse país, com certeza isso vai acontecer. VIDA QUE SEGUE… Meu Amigo.

  5. Mino Carta respondeu à sua indagação, Kotscho.
    No seu editorial desta semana “Lição equatoriana”, lá está a resposta resumida em frase lapidar, sem retoques: “O Brasil carece de um povo corajoso, consciente da cidadania”.

  6. Ah, Ricardo! O povo desempregado conta moedas! A educação, emburreceu, embruteceu e silenciou as consciências, anestesiadas por novelas e futebol. Sem educação, sem saúde e agora sem previdência deve estar se perguntando: por que, para quê, quando, com quem protestar?
    Sobra desalento!

  7. Aqui o povo tá na GLOBO
    , se a Globo não chama o povo não vai prá rua, tá tudo dominado com o cérebro lavado e a barriga cheia de novelas e Jornal Nacional. Talvez um dia quando a fome apertar o povo acorde mas, pode ser tarde demais

  8. Boa tarde, Kotscho.

    Lançada somente ontem nas mídias sociais, a canção “Paraíso Tropical”, de autoria do compositor paulista Fabio Ferrão (banda Alma Alugada), tendo, na verdade, sido escrita em 1989, por ocasião do Plano Verão (do ministro Maílson da Nóbrega), revela algo que se faz muito presente em sua coluna, a triste verdade de que, de lá para cá, o país não mudou…
    https://youtu.be/QrNDBFc1Y7o

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