Viramos um país de bolsonaros?

Viramos um país de bolsonaros?

“Sinto dizer essas coisas, mas o Brasil é muito parecido com Bolsonaro” (Mino Carta, na Carta Capital desta semana”.

***

Mino tem toda razão.

Bolsonaro não é causa, um aborto da natureza, mas consequência de um país que se degradou antes dele tomar posse.

Depois de todas as atrocidades praticadas contra os trabalhadores, desde o governo Temer, a completa falta de reação das vítimas dessa tragédia é assustadora.

Nada mais causa indignação, nada mais nos revolta. Nada mais escandaliza a população.

Basta ler as colunas com comentários de leitores que ainda defendem esse governo e as ameaças cotidianas das milícias digitais, para ver que o maior problema do país não está confinado no Palácio do Planalto.

A estupidez oficial se alastra por todas as classes sociais e faixas etárias, avança na cultura e no jornalismo, invade as universidades e os grêmios estudantis, chega ao futebol e a todas as igrejas.

Apesar de estar se desfazendo em lutas internas, com a economia em depressão e sem sinalizar qualquer iniciativa para tirar o país do buraco, o governo conta ainda com apoio de um terço da população, como mostram as pesquisas, em seguidos e repetidos levantamentos. .

Se somarmos esta parcela a outro terço de isentões, que não querem se meter nesta briga para não parecer intolerantes e ficam discutindo medidas de prevenção de incêndios na casa pegando fogo, teremos uma ampla maioria de brasileiros a favor ou indiferentes diante da destruição do país.

Viramos um país de bolsonaros?

O desmanche dos sistemas de educação e saúde, pilares de qualquer nação civilizada, agora comandada por bandos de ineptos e mentecaptos, coloca em risco o futuro de uma geração, mas muitos pais apoiam esta demência de Escola sem Partido, uma das bandeiras do bolsonarismo.

A invasão de dois deputados marombados do PSL no Colégio Pedro II, no Rio, e atitude dos país de alunos que levaram a direção do tradicional Loyola, de Belo Horizonte, a cancelar uma prova porque tinha um texto de Gregório Duvivier, já nem assustam mais ninguém. Fazem parte da paisagem.

“Todos os ambientes, hoje, estão cheios de supostos conciliadores: pessoas que fingem buscar a ponderação, mas só estão com medo de perder a cabeça”, escreve Duvivier em sua coluna da Folha nesta quarta-feira.

Some-se a isso os que têm medo de perder o emprego ou anunciantes oficiais e privados, clientes ou alunos, e teremos um retrato da sabujice reinante que se reflete em todas as instituições.

Duviver cita Winston Churchill _ “há quem alimente os crocodilos na esperança de ser comido por último” _ e encerra brilhantemente seu texto com o resumo da ópera:

“Esquecem que não se negocia com um jacaré faminto. Quando o outro lado é o fascismo ecocida, quando o outro lado aplaude a tortura e nega a mudança climática, quando o outro lado é abertamente miliciano, genocida e autocrático, a simetria com o outro lado não se chama conciliação. Chama covardia mesmo”.

Viramos um país de covardes, caminhando bovinamente para o matadouro sem mugir nem tugir?

Vida que segue.

 

21 thoughts on “Viramos um país de bolsonaros?

  1. Sim, caro Kotscho, infelizmente é também este o meu entendimento da situação.
    Povo gado que está indo pro matadouro sem esboçar nenhuma reação.

  2. Kotscho:
    “há quem alimente os crocodilos na esperança de ser comido por último” ; “esquecem que não se negocia com um jacaré faminto”. Bravo!
    josé maria

  3. Concordo plenamente com Duvivier, é covardia mesmo, principalmente no STF e que para piorar ainda mais existe nesse mesmo STF uma corrente a favor dessa loucura que está grassando no pobre país ainda chamado Brasil

  4. Da série, “Já Vi Esse Filme Antes”.
    A propósito da anomia ampla, geral e irrestrita, diante da mediocridade, da violência institucionalizada solta e dos cara al sol de quase novembro de 2019…, “o conceito de ‘Banalidade do Mal’, aprofundado no livro “Eichmann em Jerusalém”, trouxe-lhe as críticas da comunidade judaica e também a polêmica que ainda se mantém.
    (…) Nesta obra a filósofa defende que, em resultado da massificação da sociedade, se criou uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar.
    Eichmann, um dos responsáveis pela solução final, não é olhado como um monstro, mas apenas como um funcionário zeloso que foi incapaz de resistir às ordens que recebeu.
    O mal torna-se assim banal…” (RTP Ensina):
    “Será que a natureza da atividade de pensar, o hábito de examinar, refletir sobre qualquer acontecimento, poderia condicionar as pessoas a não fazer o mal? Estará entre os atributos da atividade do pensar, em sua natureza intrínseca, a possibilidade de evitar que se faça o mal? Ou será que podemos detectar uma das expressões do mal, qual seja, o mal banal, como fruto do não-exercício do pensar?”
    Olha Hannah Arendt aí, Mestre, explicando.
    A “Bolsonalidade do mal” à serviço da Casa Grande e do ‘broad stripes and bright stars’, mergulhado na subterrânea luta geopolítica.
    É chegada a hora de combater os cafetões da “Banalidade do Mal”, globomarinho a priori.

  5. Cada vez eu me convenço mais que o Eduardo Marinho está coberto de razão, de bom senso, de justiça, etc. Parei! Vou fazer o que dá! Lá de cima, hora que menos esperar, seremos surpreendidos com assassinatos entre eles.

  6. Kotscho,
    Porisso, quando Lula na entrevista que concedeu ao Mino e a Sérgio Lírio disse que os brasileiros não mereciam isso, Mino perguntou:”Será mesmo?”
    Mino está certo. O brasileiro, com exceções, é burro, cruel e covarde.

  7. Mestre, em tempo da mediocridade dona do pedaço, permita desviar do texto e lembrar que, hoje, a ‘sórdida’ Fernanda Montenegro, com sua ‘canalhice abissal’, afronta-os, todos, causando como ‘bruxa’ a despontar nos noventa, pensando, ensinando, aprendendo e encantando os que tem coração de sentir e cabeça de pensar. Os normais.
    Ave, Fernandona!

  8. Fico “feliz” que a chamada da postagem haja coincidido com meu comentário realizado ontem, 15, às 21 horas, cuja ênfase repousava, exatamente, no “Lide” do Kotscho, hoje.
    Mino foi além.
    Falou, também, como o “Coringa” de Todd Philips em “sangue na calçada” e observou a falta que faz um povo “vexado”, a exemplo dos equatorianos. que descem as montanhas para chutar o traseiro do “Lenin Fake” e cuspir na “Troika Internacional”.
    Reproduzo o comentário de ontem:
    “Mino Carta continua inspirado nos seus vídeos semanais a responder perguntas encaminhada pelos leitores de Carta Capital. Segundo Mino, “não existe esquerda no Brasil”, porque “nunca houve nada de esquerda, efetivamente sólido e sedimentado”.
    Diz Mino: “sinto dizer essas coisas, mas o Brasil é muito parecido com Bolsonaro”.
    O Brasil é “a obra-prima da dinastia de Avis”, segundo Raimundo Faoro, o melhor presidente da história da OAB.
    Aduzo, hoje, que o Brasil não chegaria às mãos da Milícia no Poder, sem a magnífica contribuição dos erros crassos de Lula, do qual o maior foi depositar o futuro do país nas mãos de Dilma Roussef.

  9. Entendo o que Mino e Gregório, com a sofisticação habitual, querem dizer, mas admitir que a vitória do Bolsonaro nos transforma em um país de Bolsonaros vai longe demais.
    Sim, dá raiva ver o que os americanos vão conseguir em breve derrotar a barbárie deles, ou via impeachment de todo o círculo Trump ou através das próximas eleições, sem que no mesmo tempo estejamos sequer perto disso. Mesmo com provas abundantes de corrupção por todos os lados (vínculos com milícias assassinas empregadas como cargos de confiança, Queiroz, massiva fake news eleitoral não declarada e ilegal, julgamentos sem provas, com juiz como peça principal da acusação, laranjal ….), mesmo com quebras sistemáticas do decoro, mesmo com a incitação pelo alto à violência, mesmo com a degradação da imagem de um país antes respeitado, nada parece se mover. Mais do que apatia, vingam o estilhaçamento e a cabeça baixa. Até aí, de acordo! Só que imaginar o cara (que não é o cara!) como espelho do país (todos Bolsonaros) é perder de vista a reversibilidade no médio prazo daquela derrota eleitoral de 2018. Uma frente ampla para ganhar DELES na PRÓXIMA URNA seguramente não nos converte em meros reflexos do mito-quente desta nova (extrema) direita. Trata-se de um país que, eleitoralmente, vai se livrar de Bolsonaro, dos Bolsonaros, da Bolsonarolândia trans-Rebouças e infra-Leblon. O Brasil vai remoldar sua identidade, não pela via da intolerância e do fanatismo, mas no amplo rechaço civilizado desta gente.

    1. Cara Serena, é claro que não viramos todos bolsonaros. Eu não escrevi isso.
      Mas o fato é que o país está sendo dominado por bolsonaros e não há nenhuma reação contra o avanço dessa tropa de dementes que está destruindo o país.
      Não vai dar para esperar que a oposição se una até 2022 para mudar esse quadro. O Brasil não aguenta.

      1. Caro Kotscho
        Peço desculpas se dei a entender que você escreveu isso, não era mesmo a minha intenção; aliás, quando desesperançada, sempre busco no seu texto um país que me escapa pelas mãos, uma saída que não enxergo, uma sutileza que não sou capaz de apanhar, uma promessa emancipatória oculta em lugares inusitados, inacessíveis para quem está privada deste olhar talhado para o incomum, para o que desafia o desânimo brutal desta época.
        Tinha em mente outra coisa, esta formulação do sempre arguto Mino Carta: “Sinto dizer essas coisas, mas o Brasil é muito parecido com Bolsonaro”. Não é: o político do baixo clero que se fez passar por militar, para ganhar uma eleição na qual o Direito Policial treinou a seleção do adversário com informações da Granja Comari, é parecido, ele sim, com um Brasil grotesco que não nos descreve, não somos isto que se tornou uma piada no mundo inteiro. Um arremedo que age como um país invasor: o paradoxo da descaracterização da lava-jato inicial com grande aceitação popular, um estado dentro do estado, ao arrepio da lei e, ao mesmo tempo, reivindicando em falsete (às vezes, literalmente) esta mesma lei para si.
        2022 pode estar longe, mas a certeza antecipada de que pode ser outro tempo parece muito mais perto do que jamais esteve. Em um ano e dois meses já teremos Biden ou Warren no vizinho poderoso do norte, tudo vai mudar a partir daí!

  10. Situação difícil, Ricardo. Buscar alternativas que não sejam puxar pra um dos 2 lados opostos tradicionais (mais antigos e em geral europeus ou americanos) mas sejam respostas inovadoras – atuais e brasileiras – é o verdadeiro desafio. Terceiro ponto, fora do segmento de reta dicotômico! Já vi coisas assim, mas ainda é raro…

  11. Em cada “anarfa antilulista”, Bolsonaro ungiu um autocrata inculto.
    Inculto, entreguista e filhote da extrema Direita.
    Direita dominante de servilistas autocratas.
    Autocratas e capachos sem salário.
    Salário, quando muito, cruel, farda invisível e divisas de sargentão.
    Sargentão de porra nenhuma desse desgoverno. Desgovernocídio eleito por mito seguidores incautos e famintos brasileiros. Brasileiros covardes e autocratas de si mesmo.
    Preito de gratidão a Mino Carta, Balaio, idem.

  12. Quando vejo o Messias, lembro do Adolf. O mesmo olhar psicopático, as palavras envenenadas pelo rancor e o preconceito com grandes doses de ódio. Ele parece o tempo todo querer se vingar. Do quê? De quem? O seu fracasso como militar subiu-lhe à cabeça?
    É um poço de energia negativa.

  13. Não há dúvidas. Nossa sociedade perdeu completamente a autoestima, está como aquela música da Inezita: “‘Marvada Pinga” – Aqui mesmo eu bebo, aqui mesmo eu caio. E…logo mais será…”Nem prá carregá vou dá trabaio”. Se cair no chão, vou para o caixão…É o pó da rabiola!
    Esse é o futuro do trabalhador!

  14. Prezado Kotscho: Com relação à “destruição do país”, que estamos assistindo na área ambiental, entendo que vale a pena a leitura da entrevista especial com Gerôncio Rocha intitulada “Mineração e a morte que ocorre nos rios da Amazônia” dada, recentemente, para o Instituto Humanitas Unisinos, nesta direção http://www.ihu.unisinos.br/593426-mineracao-e-a-morte-que-corre-nos-rios-da-amazonia-entrevista-especial-com-geroncio-rocha

  15. Um sub oficial da FAB disse a mim que vai a Alcântara a serviço nos próximos dias
    “Fazer o que”?
    “Ah preparar a base, fazer uma mudanças, adequaçôes e tal para os americanos”
    Falou desse jeito. Nada mais lhe foi perguntado.

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