Doria, Huck, Moro, Witzel: a direita perfilada para 2022. E a esquerda?

Doria, Huck, Moro, Witzel: a direita perfilada para 2022. E a esquerda?

Nem se sabe se o capitão-presidente chegará ao final do mandato (eu não acredito), mas ele já está em campanha para a reeleição.

A seu lado já se posicionaram no grid de largada quatro concorrentes, todos correndo pela pista da direita.

O mais assanhado no momento é o apresentador global Luciano Huck, com o apoio de FHC, que está atendendo a um “chamado”, segundo Angélica, sua mulher.

Menos afoito desta vez, o governador paulista João Doria vai se distanciando do bolsonarismo que o elegeu.

O ex-juiz Sergio Moro, dissimulado como sempre, diz que em 2022 seu candidato é Bolsonaro, mas nem o presidente acredita nisso.

Fechando o grid, está o até outro dia desconhecido ex-juiz Wilson Witzel, o facinoroso governador do Rio, posicionando-se na extrema direita da extrema direita, quase saindo da pista.

Se alguém acha que já chegamos ao fundo do poço, que as coisas não podem piorar ainda mais, ainda não viu nada.

Os quatro são legítimos representantes do que há de pior na elite brasileira _ predadora, soberba, sem escrúpulos, egoísta, entreguista, picareta, canalha, fingida, só de olho na Bolsa e no dólar.

Em comum, ele agitam a bandeira do anti-petismo beligerante, mas correm o risco de dividir o mesmo eleitorado com o atual mandatário e a biruta de aeroporto Ciro Gomes, que está cavando uma brecha na mesma pista, já congestionada.

E a esquerda? Pois é, por onde anda a esquerda brasileira, que depois das eleições perdeu o rumo de casa e não tem mais bandeira nenhuma, ficou presa junto com Lula em Curitiba?

Mais dia, menos dia, Lula vai sair da prisão, e o que ele vai encontrar a seu lado na mesma raia?

Nos seus quase 40 anos, o PT não foi capaz de criar uma outra liderança nacional e tem muitas dificuldades para fazer alianças com novos líderes de outros partidos de esquerda.

Lula ainda é o maior líder político do país, ninguém discute, mas não se pode dizer que seja um grande head-hunter.

Dilma, Haddad e Gleisi, os sucessores que o ex-presidente escolheu para sucede-lo no comando do país e do partido, fracassaram.

Correm em raia própria e estão cada vez mais distantes um do outro, não se entendem, e deixam a militância na orfandade.

Dilma viaja pelo mundo denunciando a prisão política de Lula, Haddad virou analista político na mídia e nas redes sociais e Gleisi apenas divulga notas oficiais do partido para ninguém ler.

Quem sobrou? Sumiram de cena Tarso Genro, Aloísio Mercadante, Jaques Wagner, Jorge Viana, e outros nomes de quem já nem lembro.

Com a antiga direção do PT (José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares) fora de combate e sem peças de reposição, para formar uma frente de esquerda o PT ainda depende de Lula, mas precisa abrir as portas para outras lideranças.

Nos outros partidos de esquerda, quem começa a ganhar projeção nacional é o governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, uma sigla que ainda assusta, mas agora está reformulando seu programa.

Em sua equilibrada e serena entrevista ao programa Roda Viva, ele me surpreendeu ao ser o primeiro a apresentar um esboço de programa de governo democrático e popular, com propostas concretas para a economia e as bases para a formação de uma aliança anti-Bolsonaro, capaz de devolver um pouco de esperança ao povo brasileiro.

Diante desse quadro, olhando para a direita e a esquerda, esperança é tudo o que o eleitorado brasileiro precisa neste momento para sobreviver aos trágicos tempos bolsonaristas, e evitar que ainda venha coisa pior.

Se eu fosse o Lula, ao sair da prisão, a primeira pessoa que eu procuraria para conversar seria esse Flávio Dino.

Nem o conheço pessoalmente, nunca conversei com ele, mas penso que os dois juntos poderiam pensar, do lado esquerdo da pista, um Brasil novo para 2022, como fizeram os peronistas na Argentina.

Só não dá para pensar num país melhor e mais justo, mais solidário e progressista, com esses candidatos da direita, que estão indo com muita sede ao pote, e podem quebrar a cara.

É preciso se preparar para isso, ficar atento e forte, como na canção.

De uma hora para outra, os ventos podem mudar para o nosso lado.

Só não podemos desistir.

Vida que segue.

 

11 thoughts on “Doria, Huck, Moro, Witzel: a direita perfilada para 2022. E a esquerda?

  1. A fratura do centro-esquerda é tão ampla quanto à da direita. Só que a da esquerda é mais difícil equacionar.
    Isso facilita o jogo da direita; como tem facilitado e sido visto até agora.
    O relógio, no entanto, gira contra a oposição, porque toda a articulação do centro à esquerda tornou-se refém do movimento ‘Lula Livre’.
    E até as pedras do fundo abissal do mar sabem que o “Lula Livre” não vai rolar.
    O movimento “Lula Livre” apenas tem funcionado como o amálgama da unidade partidária interna do lulo-petismo e como uma barreira intransponível à construção de uma alternativa para o centro-esquerda liderada por uma expressão política fora do PT.
    Nem Lula, nem o PT, sob hipótese alguma admitiriam uma candidatura em 2022 fora dos quadros do petismo, mercê do batismo, crisma e benção de Lula.
    Só quem desconhece o PT e Lula deliram em imaginá-los sendo coadjuvantes de uma campanha majoritária.
    Não se pode esquecer que a bufunfa do fundo partidário é grande! Proporcional ao tamanho do partido!
    Ninguém da burocracia partidária do lulo-petismo votará a favor de qualquer equação eleitoral que implique reduzir o coeficiente proporcional da bufunfa partidária.
    “Lula livre”, de fato, é sinônimo de “Oposição presa”. A direita continua jogando com as brancas.

  2. Ademais, dentro do espectro que vai do centro à esquerda, a encrenca dá sinais de que aumentou para 2022.
    Senão vejamos o “fator Ciro”, conforme trecho da entrevista do candidato do PDT, no UOL:
    Pergunta: A gente não vê um movimento amplo ainda de oposição, mas o senhor acredita que seja possível a esquerda formar esse movimento para as eleições e inclusive com candidaturas únicas?
    Resposta: “A tarefa não é essa. A unidade agora é só na luta. A gente, por exemplo, vota contra, vota unidos contra a reforma da Previdência. Nas eleições municipais, nós não vamos com o PT”.
    Pergunta: Vocês vão conversar com outros partidos de esquerda?
    Resposta: “Nós vamos conversar com quem for necessário conversar, e o Brasil, volto a dizer, não precisa de um gueto de esquerda fraudulenta e corrupta, como, infelizmente, a atual burocracia do PT representa. Precisamos ampliar o diálogo, porque temos duas tarefas aí em que o centro democrático tem um papel central para cumprir. Proteger a democracia e suas regras. Porque não duvidem, quando a gente vê a Ancine ser proibida de financiar filmes com o tema A, B ou C, o nome disso é antecedência da censura. Quando a gente vê um presidente da República manipulando a verba publicitária exigindo dos donos a demissão de jornalistas, nós estamos a um flerte com o autoritarismo e com pular o muro. Não esqueça que tem nove generais de pijama ministros desse governo”.

  3. Kotscho, parece até que você não conhece Lula. O Senhor da esquerda só procuraria o grande Flávio Dino para dissuadi-lo da ideia de qualquer pretensão política fora do Maranhão. Não existe esquerda, existe lulismo, tal qual o bolsonarismo. Anota ai, a mesma esquerda que elegeu o Bozo vai eleger Dória ou Huck. Precisamos nos livrar dessa gente, da direita Bolsonarista que idolatra um sujeito como Trump, e também da esquerda lulista que não vê no déspota Maduro um ditador. Precisamos colocar Lula e Bozo em uma ilha e riscá-la dos mapa, esquecê-los. Enquanto isso vamos ter de escolher o menos pior.

  4. Prezado Kotscho: Concordo com você: “Se eu fosse o Lula, ao sair da prisão, a primeira pessoa que eu procuraria para conversar seria esse Flávio Dino.” Também tive uma excelente impressão dele quando assisti o Roda Viva. “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” (Fernando Pessoa).

  5. Ao contrário de décadas em que nos foi imposto softpauer do bang bang, em que os índios só perdiam e morriam como moscas, agora quem vence são os silvicolas…
    Nos Andes triunfa o bugre Morales e no Equador temos a maravilhosa vitoria do povo indigena do Equador sobre o FMI configurando um golpe demolidor contra o delírio neoliberal.

  6. Kotscho, penso o mesmo sobre a urgente conversa do Lula com o Flávio Dino, mas tiro uma conclusão um pouco diferente ou talvez nem tanto. A vitória da esquerda, em sentido mais amplo possível de esquerda, passa por uma recusa mais do que estratégica desta oportunidade bem concreta de ganhar a próxima eleição.
    Como assim? Eu já mencionara, semanas atrás, a pertinência de um antiprotagonismo deliberado como forma de derrotar, no mesmo movimento, a barbárie desta pior extrema-direita no poder do planeta desde o pós-guerra e a falsa novidade pseudo-social-democrata, Dória e assemelhados, que pegou carona no vasto processo de desenstitucionalização da nossa civilização democrática, disfarçado de combate hipermoral à corrupção.
    Inadiável: um candidato de centro, viável eleitoralmente, que permitisse no conjunto a reformulação em bases inteiramente distintas do PT, (Haddad e Celso Amorim como eixos) PSDB (Tasso e até mesmo FHC), PSB, PDT (Ciro) e o que ainda resta do PMDB (histórico) nas suas origens.
    Utopia sem tangência com a realidade? Sim, neste momento, mas no médio prazo nada mais tem contato com o razoável. Aliás, já víamos aqui desde antes da posse o que os americanos estão enxergando agora (vide entrevista recentíssima do Stephen Colbert com Anderson Cooper, na CNN), a loucura absoluta desta gente que vive num mundo que é só seu. O risco que todas estamos correndo. A esquerda, nesta perspectiva, será vencedora no seu apoio amplo desde o primeiro turno e na incorporação negociada do seu programa. Ingênua? Seria preciso demonstrar esta impossibilidade.

  7. Lula lá cantando encantado em seu desencanto:
    “Eu vô vortá aos véio tempo di mim,
    vestí de novo aquele meu macacão,
    fazê piquete lá na Volkswagen,
    Lá em São Bernardo eu sô bão…”

  8. Kotscho:
    gostei. Muito oportuna sua chamada para uma nova esquerda, ou se não for possível, um “conglomerado” esquerda/ centroesquerda/centro esclarecido,
    Abfraços,
    josé maria

  9. Mino Carta continua inspirado nos seus vídeos semanais a responder perguntas encaminhada pelos leitores de Carta Capital.
    Segundo Mino, “não existe esquerda no Brasil”, porque na esquerda “nunca houve nada de esquerda, efetivamente sólido e sedimentado”.
    A situação vai ficando pior a cada dia que passa porque, ainda segundo Mino: “sinto dizer essas coisas, mas o Brasil é muito parecido com Bolsonaro”.
    O Brasil é “a obra-prima da dinastia de Avis” já dissera Raimundo Faoro, o maior e melhor presidente da história da OAB.

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