“Vocês querem me derrubar?” Bolsonaro declara guerra à imprensa

“Vocês querem me derrubar?” Bolsonaro declara guerra à imprensa

“Eu lamento a imprensa brasileira agir dessa maneira. O tempo todo mentindo, distorcendo, difamando. Vocês querem me derrubar? Eu tenho couro duro, vai ser difícil. Continuem mentindo”, vociferou o presidente Jair Bolsonaro, na manhã desta segunda-feira, diante dos jornalistas confinados num cercadinho nos jardins do Alvorada.

Cada vez mais nervoso e desatinado, o capitão agora não responde mais a perguntas de repórteres, mas se dirige diretamente a um punhado de beatos da seita que vão lá diariamente tirar selfies e gritar “Mito!” quando ele desponta em público.

Quer imitar seu êmulo Donald Trump, mordendo os microfones nos jardins da Casa Branca, transtornado com o impeachment batendo à sua porta.

Lá, ao contrário daqui, as instituições cumprem seu papel constitucional, e Trump sabe o perigo que está correndo. Já pediu até ajuda da China…

Aqui, o presidente controla o Legislativo e o Judiciário, governa praticamente sem oposição, e o chamado quarto poder, a imprensa, é o único que ainda denuncia suas maluquices e maracutaias nos laranjais.

Habituado a falar o que quer nas redes bolsonaristas, no SBT e na Record, o capitão presidente não se conformou com a manchete da Folha de domingo (“Ex-assessor implica ministro e Bolsonaro em caixa 2 do PSL”) e foi à forra no Twitter:

“A Folha de S. Paulo avançou a (sic) todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas (sic) dos canalhas. Com mentiras, já habituais, conseguiram descer às profundezas do esgoto”, disparou.

Logo saíram em sua defesa o ministro Sergio Moro, que o absolveu liminarmente de qualquer irregularidade, e o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, para sugerir um boicote de anunciantes de empresas privadas aos veículos que criticam o governo e já foram cortados da propaganda oficial.

Em sua sua declaração de guerra à Folha, Bolsonaro já tinha ido na mesma linha, ao tuitar:

“O que mais me surpreende são os patrocinadores que anunciam nesse jornaleco chamado de Folha de S. Paulo”.

Jornal não tem “patrocinadores”, mas anunciantes de empresas privadas, e a Folha de S. Paulo é o maior e mais respeitado veículo impresso do país desde 1984.

Liberdade de expressão e democracia não combinam com o bolsonarismo para quem o mundo é dividido entre quem manda e quem obedece.

Na cartilha do capitão, quem manda é ele e quem não obedece é demitido ou abatido.

Sergio Moro já aprendeu essa lição e agora faz qualquer coisa para se manter no cargo, sem nenhum pudor de falar de processos que correm em sigilo, para fazer a defesa incondicional do presidente.

Aquela história de “combate à corrupção” só valia para o PT quando ele era o implacável juiz de primeira instância em Curitiba.

Agora, Moro é governo, graças à grande farsa da Lava Jato, que tirou Lula da eleição, elegeu Bolsonaro e destruiu a economia nacional.

Que fim levaram os patos amarelos do Paulo Skaf da Fiesp, as paneleiras dos terraços gourmet e as marchadeiras e marombados que foram às ruas para derrubar a presidente eleita Dilma Rousseff e transformaram os palestrantes Moro & Dellagnol em “heróis nacionais” do combate à corrupção?

Cadê os jornalistas investigativos e comentaristas isentos que divulgaram acriticamente, e com muito gosto, os “vazamentos” da força-tarefa da Lava Jato e comemoraram a prisão de Lula?

Se não fosse a coragem de Glenn Greenwald, o jornalista americano do The Intercept, que revelou ao mundo os crimes cometidos para condenar e prender Lula, até hoje estaríamos vivendo na mentira lavajatense da República de Curitiba, acobertada durante cinco anos pelos tribunais superiores.

Com a ameaça ostensiva da censura econômica aos veículos que ainda não se renderam ao autoritarismo da nova ordem, o ataque às liberdades democráticas muda de patamar, mas não se vislumbra no horizonte nenhum sinal para impedir o avanço da barbárie sobre o Estado de Direito.

Só os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, caso assumam suas responsabilidades em defesa da Constituição, poderão impedir a volta à ditadura, mas nesta semana não acontecerá nada porque vários deles estão com viagem marcada. Foi tudo adiado para sabe Deus quando.

Mas já sabemos que não se pode contar com pelo menos três ministros, Luiz Fux, Edson Fachin e Luis Roberto Barroso, fechados com os interesses militares, financeiros e midiáticos que continuam defendendo a Lava Jato para impedir que os processos contra o ex-presidente Lula sejam anulados em cumprimento da legislação vigente no país.

Curioso é o motivo apresentado por Luiz Fux para se ausentar das sessões que podem definir o futuro da nossa democracia, cada vez mais teocrática: vai participar de um “retiro espiritual”.

É muito bom, rezar faz bem. Eu também faço dois retiros por ano, mas não em dias de trabalho, e não tenho as responsabilidades de um ministro do STF.

Vida que segue.

 

13 thoughts on ““Vocês querem me derrubar?” Bolsonaro declara guerra à imprensa

  1. Faltou apenas um detalhe que é importante. O devido crédito a Manuela D’Avila. A jornalista e deputada que conectou as fontes ao The Intercept Brasil. A jornalista e ex-deputada candidata a vice-presidente está sob investigação e ameaças com nenhuma repercussão midiatica, sequer nos sítios independentes e fora do mainstream.

    1. Bem observado, Karla.
      A jornalista gaúcha e ex-deputada comunista foi a ponte que permitiu às fontes chegarem ao The Intercept Brasil.
      Registre-se, no entanto, um claro e perceptível movimento da Mídia Grande de inserir o “novo velho centro” entre os líderes de popularidade. O “sapo barbudo”, conforme dizia Brizola, com 30%, e o “mau militar”, consoante dizia Geisel, com 25%,
      O cenário para 2022 ainda é o mesmo de 2018, porém sem facada e com Intercept.
      O antigo PSDB e o antigo PFL tentam formar um “Tertium Genus” para romper a bipolaridade até agora capitalizada pelos evidentes beneficiários político-eleitorais do ‘status quo’: PT e PSL. Daí a reaparição de famosos do entretenimento no radar das futuras pesquisas que devem ser publicadas em outubro. Ouvi uma sugestão de personalidades culturais para entrarem no palco político: Jô Soares, 81 anos, e Fernanda Montenegro, com 90 anos no próximo 16 de outubro.
      Criaturas bastantes e suficientes para remover de vez a vulgaridade, ignorância, arrogância, teimosia, incoerência, corrupção que tomaram conta da classe política como um todo, de A a Z e da esquerda à direita.
      Jô Soares e Fernanda Montenegro ou Fernanda Montenegro e Jô Soares.

  2. Proposital e péssimo confronto com a imprensa.
    Bozo desvia o foco e continua desgovernando.
    Os poderosos batem palma e recebem o que pediram ao diabo da Direita ensandecida. Certamente, levarão até o FGTS.
    Sem imprensa, sem democracia.
    Os fanáticos não conhecem o tenente expulso do Exército, o capitão do mato, o major porra e o coroné mito. O General povo está atento.
    Lula, cidadão honorário de Paris.

  3. A pusilanimidade,conluio ou omissão nos casos do Lula,da prisão em 2ª instância e da suspeição do juiz,o Intercept e agora pasmem,as confissões do Janot,”a esperança do Brasil”,mostram bem os intestinos da justiça brasileira.E não cheiram bem.

  4. Há algum tempo, li um comentário no facebook, em que o cara dizia que: este golpe vai acabar com um assassinato dentro do palácio…tembém pode ser um suicídio.

  5. Será que deixar o presidente falando sozinho e procurar outras fontes para outras informações não seria melhor? Ou é mesmo uma estratégia para ridiculariza-lo. todos os dias?

  6. E eu que pensava que Jânio tinha problemas mentais quando furava pneus de carros na Praça da Sé por estarem mal estacionados. Eu era bem jovem ainda. Mas, hoje vejo que tudo aquilo era ”café pequeno” mediante a esse ”presidente”.

  7. Janio Quadros era um cidadão sem expressão alguma, se comparado ao presidente de hoje, o capitão Bolsonaro. Perto de Bolsonaro, Janio é um rebelde sem causa…

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